segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sonetos - Charneca em Flor


Florbela Espanca




Espera...




Não me digas adeus, ó sombra amiga ,
Abranda mais o ritmo dos teus passos ;
Sente o perfume da paixão antiga ,
Dos nossos bons e cândidos abraços !


Sou a dona dos místicos cansaços ,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços ...
Não vás ainda embora, ó sombra amiga !


Teu amor fez de mim um lago triste :
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste ,
Quanta canção de ondinas lá no fundo !


Espera ... espera ... ó minha sombra amada ...
Vê que pra além de mim não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo !...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Praça da Canção



Manuel Alegre







Canção Terceira




Quando desembarcarmos no Rossio
canção
vão
dizer que a rua não é um rio
vão apressar o teu navio
carregado de vento carregado de pão.

Dirão que trazes tempestades
dirão que vens de espada em riste
e que foi sangue sangue o vinho que pediste.
Vão vestir-te com grades
que é um vestido para todas as idades
na Pátria dos poetas em Rossio triste.





( pag.65 ed.EA )

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O Cheiro da Madeira


A.M. Galopim de Carvalho




Exercício de memória, sem a preocupação do relato rigoroso do cronista, O Cheiro da Madeira procura ser um ensaio de reconstituição de um viver colectivo do segundo quartel do século XX, na cidade e nos campos de Évora. Ficcionando ao sabor da sensibilidade de hoje, A. M. Galopim de Carvalho conserva, no entanto, os cheiros, os recortes e os matizes com que os sentidos os gravaram em recantos da memória de onde forma retirados. Lê-lo é estar lá, com os olhos, com as mãos. A cheirar, a rir, a chorar.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

O Retrato de Dorian Gray


Oscar Wilde



Romance fascinante sobre a imortalidade, a perfeição, a juventude eterna e outras impossibilidades
Publicado em 1890 – com uma segunda edição do ano seguinte, a que o escritor acrescentou seis novos capítulos e um prefácio –, “O Retrato de Dorian Gray” chocou a hipócrita sociedade vitoriana que viu nele um espelho dos seus defeitos, alheio àquelas que considerava serem as suas virtudes. A crítica apressou-se a envolver o romance num escândalo que passou de literário a social quando a relação de Wilde com o Lord Alfred Douglas se tornou pública (em 1891). No prefácio à segunda edição, Wilde distancia-se da polémica (“Não existem livros morais ou imorais. Os livros são mal ou bem escritos. É tudo”) e desencoraja os que procuravam encontrar no seu ciclo de amizades as figuras inspiradoras das suas personagens: “O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida.”

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A Montanha Mágica


Thomas Mann


O que devo eu então dizer sobre o próprio livro (Montanha Mágica) e ainda por cima, como deve ser lido? O começo é uma exigência muito arrogante, a dizer que se deva lê-lo duas vezes. É claro que essa exigência é retirada imediatamente para o caso de que na primeira vez se tenha ficado entediado. A arte não deve ser nenhum trabalho escolar nem dificuldade, nenhuma ocupação contre coeur, mas sim deve alegrar, entreter e animar e aquele sobre o qual uma obra não exerce esse efeito então este deve deixar a obra de lado e voltar-se para outra. Mas quem chegou uma vez até o final com a “Montanha Mágica” então eu aconselho a lê-la mais uma vez, pois seu feitio particular, seu caráter como composição traz consigo que o prazer do leitor aumentará e se aprofundará da segunda vez, - como se deve já conhecer uma música para poder gozá-la de acordo.

Extracto de Conferência apresentada por Thomas Mann em Maio de 1939 aos estudantes da Universidade de Princeton

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

As Rosas de Atacama


Luis Sepúlveda


Assim nasceu o presente livro, As Rosas de Atacama, “Histórias marginais” (aliás o título da edição original espanhola), e também histórias de marginais, os relatos, quase sempre curtos, que compõem esta obra têm os ingredientes a que Luis Sepúlveda habituou os seus leitores desde O Velho Que Lia Romances de Amor: a defesa da vida e da dignidade humana, a luta pela justiça, o elogio dos valores ecológicos, o exotismo como afirmação de que os sonhos são os mesmos em todos os lugares da Terra.
Em Sepúlveda, a realidade supera sempre a ficção. Daí que este extraordinário contador de histórias continue a servir-se da sua condição de andarilho das cinco partidas do mundo para nos oferecer, em lampejos de génio, o retrato insuperável dos homens e das mulheres que, no anonimato, ajudaram, ajudam e ajudarão a construir o verdadeiro rosto da História.

sábado, 11 de agosto de 2007

Seara de Vento


Manuel da Fonseca


“- Pois é verdade… Isto deu uma grande volta… Aquela raça dos lavradores antigos acabou-se… Os de hoje, se muito têm, mais desejam. Moram nas vilas, põem casa às amantes na cidade, não dão um passo sem ser de automóvel, inventam festas, não há cinemas nem teatros a que faltem. E para um estadão destes é preciso dinheiro e mais dinheiro. Nunca se fartam. Por isso é que eles açulam os feitores às canelas do pessoal, que nem o deixam respirar. Agora é tudo à má cara e de relógio na mão.
Júlia curva-se, movendo a cabeça.
- Uns tão ricos e outros sem nada… Até devia haver uma lei contra isto.
- Haver o quê?!... Estás parva. Pois se os ricos é que fazem as leis!”

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Sábado sem Sol


Romeu Correia

Era um nadador. nadara toda a tarde e toda a noite e dera à praia de madrugada. Estava morto. Mas parecia ainda a nadar: fora interrompido pela morte quando nadava. O corpo enregelado mantinha ainda na perfeição absoluta, o momemto supremo do braço com a mão em concha, indo além da cabeça, para puxar a água ao longo de si.


Dera à praia naquela madrugada como se fora esculpida em pedra a estátua do Nadador.




* este post é dedicado ao prof. Manuel Catarino que fez nascer em mim o gosto pela escrita.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Cinco Dias, Cinco Noites


Manuel tiago




Longe das veredas e povoados, a serra ondulava pedregosa e nua. Só aqui e além, ao fundo das encostas ou por detrás dos cabeços, repousavam manchas macias de terra lavrada. Donde e quem vinha lavrá-la parecia mistério em sítio tão desolado e ermo. Toada a tarde caminharam, o Lambaça adiante, André atrás. Nem uma só vez avistaram um ser humano. Não fora o sol derramando luz no ar e nas coisas, não fora o ar límpido e leve, aquele deserto e aquele silêncio seriam intoleravelmente opressivos. Assim, a serra abria-se à intimidade, numa carícia tranquila e confiante.(...)

domingo, 15 de julho de 2007

O Velho que Lia Romances de Amor


Luis Sepúlveda



"Bastam vinte linhas para que o leitor fique preso à magia desta falsa candura, desta ilusória ligeireza, sem poder deter-se, até ao fim do romance, que parece chegar demasiado depressa, tal o prazer que a sua leitura dá." — Le Monde

"Uma prosa rápida, quase cinematográfica, com capítulos curtos e parágrafos muito breves, que levam o leitor a só largar o livro depois de ter acabado de o ler." — El País

"Um romance simplesmente ‘espantoso’, repleto de imagens luxuriantes." — L'Événement du Jeudi

"Um romance de amor pela floresta, a aventura, a poesia, que vos fará esquecer a barbárie das cidades..." — Les Échos

sábado, 14 de julho de 2007

Loucura


Mário Sá Carneiro



...

Durante a execução da Afrodite, depois de uma hora de trabalho, seguiam-se duas horas de amor se amor se pode chamar à prática luxuriosa dos vícios mais requintados.

Dizia a Luisa:

- Eu - quero que tu me ames como eu te amo... Com todo o teu corpo: com as mãos... com os braços... com a boca...

E deste modo se amavam na realidade... Com a boca principalmente...

Tudo isto veio a terminar com a conclusão da estátua. Livre numa intimadade forçada, Raúl absteve-se de continuar; aliás com grande desgosto do modelo.

"Afrodite" é uma obra do autor do "Álcool", o que equivale a dizer: uma obra prima. Contudo, entre todas as outras, talvez a menos notável.

...

Foi por este tempo que eu vi Marcela perder a sua habitual alegria: os lábios descorados, os olhos pisados, indicando lágrimas, evidenciando qualquer desgosto. Esperei que me escolhesse para seu confidente, como já tinha feito uma vez. Calava-se. Decidi-me a interrogá-la. Respondeu-me evasivamente.

Não insisti.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Terra Fria


Ferreira de Castro


Na tarde morna, declinando entre as bravias montanhas, ali, na terra ignorada do mundo, na terra sem história, que principiava na Galiza e vinha terminar, alheia a fronteiras e ediomas, dentro de Portugal, a vida do povo obscuro tinha as mesmas expressões fundamentais, o mesmo instinto de perpetuidade, a mesma ânsia de alegria e o mesmo céu comum a toda a espécie, como se os lugarejos que os lobos, de noite, espreitavam, se encontrassem situados no centro do planeta.
Leonardo subiu, de novo, para a sala e foi debruçar-se na janela, ao lado de Artur Lopes:
- Estive a pensar no tesouro e, assim como assim, sempre me arrisco. Vamos ver o que aquilo dá. Mas não digas nada a ninguém. Por enquanto, até cá a minha patroa escusa de saber...

terça-feira, 10 de julho de 2007

Fiesta


Ernest Hemingway



No fim da escada saímos para a rua pela sala de jantar do primeiro piso. Um criado foi buscar um taxi. Estava calor e muita luz. Ao cimo da rua havia um pequeno largo arborizado e arrelvado, onde havia uma praça de taxis. Um taxi veio pela rua, com o criado empoleirado ao lado. Dei-lhe uma gorjeta e disse ao motorista por onde havia de ir, e sentei-me ao lado de Brett. O motorista começou a subir a rua. Recostei-me. Brett chegou-se a mim. Íamos muito encostados. Passei-lhe o meu braço e ela descansou confortavelmente em mim. Estava muito calor e a luz era muita, e as casas eram violentamente brancas. Virámos para a Gran Via.
- Oh, Jake - disse Brett -, podíamos ter passado juntos uma vida bestialmente boa!
À nossa frente, um polícia montado, de caqui, dirigia o tráfego. Levantou o bastão. O carro travou de repente, apertando Brett contra mim.
- Sim - disse eu.- Pois não é bonito pensar nisso?

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Aparição



Vergilio Ferreira




E eis-me de novo em Évora, por uma manhã de sol. A minha história espera-me mais terrível do que nunca, disparando para o seu desfecho. Venho à janela do comboio, que abranda a marcha e estremece nos trilhos, olho a cidade, que ao longe se move lentamente. O sol limpa-lhe a face, a colina ergue-a na mão como a um objecto de preço. Fico de pé a vê-la, a mala ao lado, pronto para o desembarque, olho a massa escura de S.Francisco, as torres negras da Sé, os blocos brancos dos prédios construídos uns nos outros, e em volta, como um espanto da cidade, a imensa planície já verde. O comboio estaca num súbito silêncio que torna mais solitária a estação. Desço com a mala, o chão de cimento solidifica-se-me sob os pés.

-- Alguma coisa, senhor engenheiro?

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A Cidade e as Serras


Eça de Queiroz


Ao fim desse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo de Primavera ainda tímido --Jacinto assomou à porta do meu quarto, revestido de flanelas leves, de uma alvura de açucena. Parou lentamente à beira dos colchões, e, com gravidade, como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração formidável:

-- Zé Fernandes, vou partir para Tormes.

O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau-preto do velho "D.Galeão":

-- Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Tão Longe de Sítio Nenhum


Ursula K. Le Guin


Tão Longe de Sítio Nenhum é a história do encontro de dois adolescentes de hoje: do amor, das suas incertezas e do caminho que percorrem até alcançarem a maturidade...
Ursula K. Le Guin descreve-nos aqui, situando-o na adolescência, um outro universo, um universo musical, onírico e todavia extremanente real pois os seus habitantes não são apenas nossos contemporâneos, são também verdadeiros exemplares pelas suas dúvidas e interrogações. São, em suma, o espelho da realidade.
É tudo isso que faz desta novela um livro que encanta não apenas os mais velhos mas também os próprios adolescentes.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Pigmaleão



Bernard Shaw

Pigmaleão conta a história de uma florista, das classes mais baixas de Londres, que tem um sotaque brejeiro horrível, que se traduz em português para: «Cós diabos!»; «Ah-ah-ah-ãi-ãi-ãi-ããããã-ah-ah-êêêêna!»; «Incaminharam-se para o ótocarro»; «Mas atão»; «Inté podia morrer», etc.

Henry Higgins é o professor de fonética arrogante e irascível que ensina Eliza Doolittle a falar correctamente, transformando-a numa lady da alta sociedade. Com o passar do tempo, Higgins ganha afeição a Doolittle mas nem por isso deixa de a rebaixar com o seu feitio difícil.

Eliza recusa a sua dominação e acaba por casar com um homem parvo, Freddy.
Recriando muito livremente o mito de Pigmalião --lendário rei de Chipre que se apaixona por uma estátua de marfim por ele próprio esculpida e a que a deusa do Amor acaba por dar vida --, Bernard Shaw escreveu uma "peça em cinco actos".
No cinema apareceu como "opereta" e foi-lhe dado o nome de "My Fair Lady"...

...
Foi em Teatro, na televisão, que assisti à melhor representação desta obra. Já foi há uns anos e foi representado por uma companhia de teatro inglesa. Grande espectáculo esse que, ao relembrar-me da obra, me fez reler o livro.

terça-feira, 3 de julho de 2007

O Deserto dos Tártaros


Dino Buzzati


"Numa belíssima manhã de setembro Drogo, o capitão Giovanni Drogo, mais uma vez sobe a cavalo a íngreme estrada que conduz ao forte Bastiani. Teve um mês de licença, mas após vinte dias já está de volta; a cidade agora se lhe tornou completamente estranha, os velhos amigos tomaram seu caminho, ocupam posições importantes e o cumprimentam apressadamente como a um oficial qualquer" (pág.207).

...
Este livro tem uma história. Li-o pela "primeira vez", através de uma Biblioteca da Fundação Kaluste Gulbenkian, com 15 anos. De vez em vez vinha-me à lembrança e, passados quase 40 anos, pensei em relê-lo, comprá-lo. Impossível. A Gulbenkian nem sequer me respondeu à carta que lhes enderecei. Depois foi a pesquisa nas livrarias de Portugal e alfarrabistas conhecidos. Por fim, lembrei-me e pedi a uma amiga do Brasil que me comprasse, por lá, o livro porque, no Brasil e merecidamente, ele era objecto até de palestras. E assim foi.

Como um Rasto de Pássaro no Ar


Hector Bianciotti (Prémio Literário Príncipe do Mónaco)



Depois de O Que a Noite Conta ao Dia e O Passo Lento do Amor, Hector Bianciotti conclui aqui a sua trilogia “autoficcional”. É a hora do regresso ao país do seu primeiro nascimento, à planície argentina que, jovem e aventureiro, abandonou quarenta anos atrás, mas é também a hora de interrogar a vida, melancolicamente, à procura daqueles que se perderam. Como Hervé Guibert ou Jorge Luís Borges… O regresso e o reencontro com os fantasmas de passado dão o mote a esta obra belíssima, que, mais uma vez, vem confirmar por que razão o autor é hoje considerado um dos grandes nomes da literatura francesa.

Apresentação

Os livros são, para mim, uma paixão.
Nem me dei ao trabalho de pesquisar para me certificar da existência de outros Blogs que tratem do mesmo assunto, porque, embora os deva haver semelhantes, iguais não serão, de certeza absoluta, porque este será construido tendo por base os meus livros.
Impunha-se começar.
Qual o Livro a escolher para abrir o Blog.
Depois de pensar, decidi-me pelo último que comprei. Os seguintes... logo se vê!

Fiquem, por aqui, bem.