quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Luar de Janeiro




Augusto Gil



Livrarias Aillaud e Bertrand
Paris - Lisboa 1920




Luar de janeiro,
Fria claridade...

A luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade...

Luar de platina;
Luar que alumia
Mas que não aquece,

Fotografia
De alegre menina
Que há muitos anos já...
envelhece.
(...)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As Palavras dos Outros


Batista-Bastos



Rosa e Júlia Ramalha:Barristas



As mãos moviam-se no barro e eram lestas e seguras. Começaram por o distender com as palmas, depois os dedos funcionaram como se estivessem consagrados a uma delicada renda de bilros. Lentamente, o barro adquiria formas. Sobre as madeiras puídas da mesa longa, uma Bíblia sem capa, um transistor inútil e Cristos mutilados e alminhas imperfeitas. E harpias e ciclopes secos no forno, mordidos pelo sol.
- Porquê estes bichos?
- Sonho muitas vezes assim. depois faço os sonhos no barro.
(...)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Barões de Fina Flor



Modesto Navarro



Este livro está baseado em acontecimentos reais, sucedidos no Verão de 1970, em Vila Flor, no nordeste trasmontano. Tudo começou com uma reunião, visando a união dos esforços dos estudantes e trabalhadores, naturais da vila, para a realização de um espectáculo que despertasse o interesse pela cultura e discussão dos problemas daquela região, casos de emigração, salários, domínio de grandes proprietários, etc. Na impossibilidade de efectuarem sessões de cinema ou ensaiar uma peça de teatro, optou-se em fazer de imediato um jogo de teatro em que os presentes às reuniões tomariam parte, e em que iriam expondo, através desse jogo, os problemas económicos e sociais da região.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O Barão




Branquinho da Fonseca







Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar.
(...)

domingo, 14 de outubro de 2007

Matar não é Crime



Edward Sexby


As características de um tirano.

(...)
10 - Mandam executar a outros as coisas odiosas e desagradáveis e, quando os povos não estão contentes, sossegam-nos sacrificando os ministros; bom seria que os generais de sua alteza ruminassem um pouco sobre este ponto.
11 - Dão em tudo a impressão de estar preocupados com o bem povo, de dar contas com o dinheiro que recebem, de mostrar que os recrutamentos feitos são para defesa do estado e reforço da guerra. Fez sua alteza um excelente comentário a esta passagem de Aristóteles no discurso que proferiu no Parlamento.
(...)

sábado, 13 de outubro de 2007



António Nobre


Adeus !
Por uma tempestade na costa de Inglaterra





Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que deixei lá!
Leva-me o outono (não tarda a neve)
Leva-me o outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!



Adeus! Na ausência meses são anos,
Dias são meses, que aí são ais:
Ah tu tens sonhos, eu tenho enganos,
Eu sou sozinho, tu tens pais.
(...)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Letras




Manuel Alegre



Balada do B




Não sei como vieram
de Babilónia
os barcos.
Sei que estão no B
os barcos
de Babilónia.
Estão os barbos que nadavam
em Babilónia
nos rios
e as bandeiras que passavam
nas ruas
de Babilónia.
(...)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Ensaio sobre o Dia Conseguido



Peter Handke



(...)
A ideia de dia conseguido é, por conseguinte, para ti e por agora, válida enquanto quarto poder, após as ideias de instante conseguido, de vida eterna ou vida única conseguidas? E há algo que te impele a atribuir ao dia conseguido um perfume que não se evapore mas que, independentemente do que possa acontecer amanhã, permanece sob esta ou aquela forma? E é outra vez o momento de perguntar: Como é que imaginas em pormenor um tal dia?
(...)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Por Outras Palavras




Joaquim Pessoa








Uma ferida, uma
fotografia. A mentira é
a imagem do corpo, exposição
de tantos anos? A mais dura
certeza é a que se perde em
túneis, pedaços de escura
humilhação. Na memória
pulsa carne ainda
viva.

domingo, 7 de outubro de 2007

A Jangada de Pedra




José Saramago



Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo a extinguir-se. Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda,(...)

sábado, 6 de outubro de 2007

A Teia

"Caminho Ficção Científica"



João Aniceto





Distribuir beijos sucessivamente por uma Giullietta, uma Carina, uma Lotus e um certo Tyrrel. Todos estavam mais bem perfumados do que ele e mostravam-se muito satisfeitos. Talvez a sua profissão fosse exactamente essa, apresentarem-se felizes em público. Os risos cruzavam as conversas como se tivessem combinado intruduzir a gargalhada como uma nova preposição.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Cronologia Geral da História de Portugal



Joel Serrão




5 de Outubro
-Revolução republicana e implantação da República.
> 1910
-Exílio da família real.
-Governo Provisório Republicano, presidido por Teófilo Braga.
-Expulsão dos Jesuítas e de todas as ordens religiosas.
-Abolição do ensino da doutrina cristã e do juramento religioso.
-Extinção dos títulos nobiliárquicos.
-Extinção das Faculdades de Teologia e de Direito canónico.
-Lei da Liberdade de Imprensa.
-Criação da Guarda Nacional Republicana.
-Lei do Divórcio.
-Lei do Inquilinato.
-Leis da família.
-Lei do Direito à greve de autoria de Brito Camacho.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O Cais do Ginjal


Romeu Correia




Era uma noite de verão, morna, de ares parados e céu estrelado. A Lua, enorme lá no alto, punha tons de madre-pérola no firmamento. As águas do rio pareciam paradas, sem a menos vibração. A maré subira à quina da muralha, mas em breve iria voltar à vazante. Pequenos peixes saltavam fora do tapete líquido, quais faúlhas de prata cintilante na noite quente. Barcos fundeados no Tejo, pardos de sossego, pareciam vazios de tripulação. Pairava em redor dos meua olhos e sentidos um clima fantástico, que a minha adolescência ingénua tornava ainda mais irreal.
(...)

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cravo



Maria Velho da Costa





Com que embevecimento ou avidez comtemplei de novo o rosto aberto do meu povo, as suas mãos falantes. Quis crer que não haveria então qualquer violência a cometer. Quis querer que os meus amados mais amados haviam de sair de cara limpa de seus retiros de nadas, casulos de mal estar em chãos forrados, fartamentos de pazes tristes, inteligências. Quis querer que a mesma vocação da própria perda que sempre foi causa de os preferir havia de ter nessa hora da minha pátria o seu cumprimento.
(...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A Ceia dos Cardeais

24ª Edição -1921


Júlio Dantas


Uma grande sala no Vaticano. - Paredes cobertas de panos de arraz. - Amplos tectos de caixão, com apainelamentos de talha doirada. - Um retrato de cardeal, vermelho, sobre o fogão. - À Direita baixa, o cravo, o violoncelo e o violino dum terceto clássico. - Estantes altas, fradescas, Luzes. - Ao fundo, targo tamborete onde repousam as capas, os chapéus, os bastões. - À esquerda baixa, grande armário pesado de baixela de oiro e prata batida. - Quasi a meio, bufete onde seiam os três cardeais: toalha de holandilha picada de rendas; serviço de Sèvres, em branco e ouro; cristais.
Luzes.

sábado, 29 de setembro de 2007

O Azul Deserto da Tarde

(Prémio de Revelação de Ficção 1987 de A.P.E./I.P.L.L.)


Eunice Cabral


A rua está deserta às dez da noite. Podendo vê-la melhor com os passeios bordados de árvores novas, os candeeiros baixos e os vários carros estacionados, nada tem de deserto esta rua. Apenas a calma de uma artéria às dez da noite dum dia de semana.
(...)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Mar Meu


Xanana Gusmão



Mar Meu
Pudesse eu
prender entre os dedos
os suspiros do mar
e distribui-los
ás crianças

Pudesse eu
acariciar com os dedos
A suave brisa das ondas
e sentir cabelos
de crianças

(...)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O Juramento da Duquesa



Pinheiro Chagas




(...)
Em Castelo de Vide D.Nuno de Mascarenhas exercitou também os seus soldados em escaramuças com os Castelhanos. Entretanto Martim Afonso de Melo, o novo governador de armas, fortificava Estremoz, costumava os habitantes à vigilância e ao bom acordo, dando-lhes relatos falsos, e abastecia com os recursos de que dispunha, e que eram limitados, as praças da fronteira.
(...)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Casa do Incesto



Anais Nin



Na manhã em que me levantei para começar este livro tossi. Algo estava a sair-me da garganta, a estrangular-me. Rasguei o cordão que o retinha e arranquei-o. Voltei para a cama e disse: Acabo de cuspir o coração. Existe um instrumento chamado quena que é feito de ossos humanos. Tem origem no culto que um índio dedicou à sua amante. Quando ela morreu ele fez dos seus ossos uma flauta. A quena tem um som mais penetrante, mais persistente do que a flauta vulgar. Aqueles que escrevem sabem o processo. Pensei nisto enquanto cuspia o coração. Só que eu não estou à espera da morte do meu amor.

(...)

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Os Pescadores




Raúl Brandão


(...)
De manhã saio em Olhão deslumbrado. Céu azul-cobalto - por baixo, chapadas de cal. Reverberação de sol, e o azul mais azul, o branco mais branco. Cubos, linhas geométricas, luz animal que estremece e vibra como as asas de uma cigarra. Entre os terraços, um zimbório redondo e túmido como um seio aponta o bico para o ar. E ao cair da tarde, sobre este branco imaculado, o poente fixa-se como um grande resplendor. É uma terra levantina que descubro; só lhe faltam os esguios minaretes. Duas cores e cheiro : branco, branco, branco, branco doirado pelo sol, que atingiu a maturidade como um fruto, pinceladas de roxo uniformes para as sombras, e um cheirinho suspeito a cemitério. O fruto que chega a este estado está a dois dedos do apodrecimento, e é talvez por isso que a ideia do sepulcro me não larga nas noites brancas e pálidas em que me julgo perdido num vasto campo funerário...
(...)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Quatro Prisões Debaixo de Armas




Vitorino Nemésio





O Matesinho de São Mateus era o maior gavola que a Vila da Praia tinha. Isto diziam certos pescadores, cheios de invejidade da sua fisga certeira. Por mim (escreve Mateus Queimado) nunca vi peito mais firme, dentes e riso mais abertos, bizarria maior a contar uma vida caipora, sim, mas mais divertida e rasgada que uma tarde detoiros cheia de fava torrada e de guiseiras luzidas.(...)

domingo, 23 de setembro de 2007

O Duelo


Bernardo Santareno



"Pela sua linguagem, que é bela sobretudo na boca de Rosária e Manuela, e pela sobriedade dos seus lances dramáticos, O DUELO, quanto a mim, é das peças de BERNARDO SANTARENO que, uma vez em cena, consagrarão definitivamente um dramaturgo já hoje, sem favor, dos mais altos expoentes da dramaturgia nacional."

JOÃO GASPAR SIMÕES
(in "Diário de Notícias")
(2ªEdição,Lisboa,1974)

sábado, 22 de setembro de 2007

As Estações do Rosto


José Jorge Letria

Prémio José Galeno de Poesia - 1984
da Sociedade Portuguesa de Autores



O Imperfeito Olhar



Vou perdendo a noção dos meses
o sentido da distância que entre eles
se ergue como uma fronteira de névoa.
Imagino que uma serpente atlântica,
em voo tangencial às águas, engole um poema de Poe,
uma flor maligna de Baudelaire,
um delírio nocturno de Rimbaud. Exausto
de referências, silencio o sonho
e os seus sentidos alucinantes, alcandorados
na torre mais alta e vertiginosa do sono.
Há dias em que não se pode sair com a poesia à rua (...)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Vértice da Água




Artur Jorge








Como se subitamente dos amantes
fere-se nos lábios
a manhã

as folhas cortam o poema
sobre os pássaros
despenhados

(Não é de alegria o seu silêncio)

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Ilhas


Sophia de Mello Breyner Andresen




Madrugada





Um leve tremos precede a madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescardores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Livro do Desassossego



Bernardo Soares



(...)
O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento analítico. Toda a acção é, por natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir, e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.(...)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Paraíso do Esquecimento


Urs Widmer



Desde sempre admirei aqueles poetas frívolos que andavam despreocupadamente de metro ou organizavam orgias nas tabernas dos subúrbios com os manuscritos das suas obras primas, dos quais não tinham cópia. Evidentemente, deste modo os manuscritos desapareceiam, perdidos, depois de uma noite fria debaixo de lâmpadas fluorescentes de uma loja de sorvetes de Nova Iorque ou caídos do porta-bagagens da bicicleta, transporte dos poetas para casa, à primeira luz da madrugada - rodeados pelo chamamento dos cucos - saídos há pouco da cama de uma amante que agora dormitava, e à qual leram primeiro o livro todo, antes de partirem com ela a caminho de um céu, vedado a nós, mortais.(...)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Busca


José Fanha


Natureza Morta





Senhor Ministro
não se assuste
esteja à vontade
Viva a Liberdade!
eu fecho a porta.

Os artista desta terra
continuam a pintar
a natureza
morta.

domingo, 16 de setembro de 2007

O Sorriso aos Pés da Escada


Henry Miller


O Sorriso aos Pés da Escada foi escrito a pedido do pintor Fernand Léger. O compositor italiano Antonio Bilbalo compôs uma ópera a partir desta pequena e maravilhosa história do palhaço Augusto, que Miller classificou como a mais estranha das histórias que escrevera.


(...)
Um dia destes, falando com um pintor meu conhecido acerca das figuras que Seurat nos deixou, afirmei-lhe que elas se encontravam enraízadas ali mesmo onde eles lhes deu vida - na eternidade.
Como me sinto grato por ter vivido com estas figuras de Seurat - na "Grande Jarre", no "Médrano" e fosse onde fosse, em espírito! Não há absolutamente nada de ilusório à volta destas suas criações, cuja realidade é imperecível.
Vivem na luz do sol, na harmonia da forma e do ritmo que é melodia pura. E também, de facto, com os palhaços de Rounault, os anjos de Chagall, a escada e a lua de Miró, e todo o seu "zoo" ambulante. Assim também como Max Jacob, que nunca deixou de ser um palhaço - (...)

sábado, 15 de setembro de 2007

Até Amanhã



Eugénio de Andrade





"Juventude"




Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca. Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Ambas as Mãos Sobre o Corpo



Maria Teresa Horta


"Movimentos"





Apertei mais a tua mão presa na minha e senti-te subitamente longe. Dobrei mais ainda os dedos sobre os teus quase fincando as unhas, sentindo a pele quente, os dedos compridos, firmes, toda a tua mão como que todo o teu corpo. A saudade, a distância do teu corpo, a distância da tua mão ali na minha. O teu perfil recorta-se na quase total escuridão da sala. Desvio os olhos de ti e fixo-os no ecran brilhante, luminoso; o teu perfil persiste sobrepondo-se à rapariga que canta (...)
Subitamente distante encolho-me e sinto-me tão só que aperto mais os dedos sobre oe teus numa espécie de arrepio e torno-te a olhar o perfil correcto desenhado e frio na obscuridade da sala. Nos meus ombros a ausência do teu braço cria um vazio, uma ferida, uma cicatriz dolorosa. (...)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O Vestido Cor de Fogo


José Régio



III


E começou entre nós aquele período que chamam namoro. Maria Eugénia era filha única dum oficial reformado e duma senhora que, parece-me, não recebera em solteira grande educação. A posição e as relações do marido lhe tinham dado certo verniz. Não era preciso muito mais para que D.Altina (tal o nome de minha futura sogra) fizesse no meio burguês que se tornara seu a figura decente de qualquer outra.(...)

Às vezes, pensava comigo: "Mas como sucedeu isto, assim tão depressa, porquê?" Na verdade bastara o meu encontro com ela para eu sentir que a queria minha, e ela me estava destinada. Vir a tê-la -era como recuperar alguém que já me pertencia. E em certos momentos me inquietava, ou quase me assustava, o que nisto havia de obscuro e poderoso.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Refúgio Perdido


Soeiro Pereira Gomes



Sem pousar a mala, esperou que o carro eléctrico se aproximasse. Sentia-se quase no fim daquela fase do trabalho, a mais arriscada, fremente de perigos. Que alívio,quando chegasse a casa!
Estava a suar, cansado e cheio de sede;mas procurou dar ao rosto uma expresssão jovial, como se dissesse às pessoas que estacionavam na paragem:"Que bela manhã, não é verdade? Não reparem na mala... Tem roupa e não pesa nada." As pessoas anotaram,decerto,que havia ali mais um concorrente aos lugares vagos no carro, e não repararam mais naquele moço franzino e mal vestido, cujos olhos brilhavam, inquietos, sob o chapéu derrubado.
(...)

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Sonetos Preversos



Joaquim Pessoa




Decerto sabes. De certos lábios
se aprende mais, talvez, a não falar.
É tolo escrever versos com os lábios
quando se pode, apenas, repirar.

Bom dia! Isto sim, é uma aresta
de qualquer verso a mais num telefonema.
As rugas são a pauta que há na testa
se ainda não é desta que o poema

irá morder a língua, irá calá-la
até que outra palavra se derrame
e possa transformar silêncio em fala.

Então, é ver a coisa mais infame:
o riso é como o estoiro de uma bala
e as palavras aplaudem o vexame.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Passagem de Fronteira


António Gomes Bonifácio

Hoje cumpro mais um aniversário e estou triste.Estou triste,porque coisas, fora do meu controlo, aconteceram sem uma explicação,sem uma "nota de culpa". Nada. Só "porque me apetece"(sic).
Assim, hoje, coloco aqui um apontamento de um livro não publicado em papel mas, eu sei, o autor não se importa: nem que seja aqui colocado, nem que não tenha sido publicado em papel.

NU


Eu estou nu
E me sinto nu.
Nu de ideias,
Nu de amizades,
Nu de tudo... Nu de tudo.
Eu estou nu
E me sinto nu.
Nu de crenças,
Nu de perspectivas,
Nu de tudo... Nu de tudo.
Deste ar que me envolve,
Desta areia,
Deste mar,
Desta vida.

domingo, 9 de setembro de 2007

As Intermitências da Morte



José Saramago




«No dia seguinte ninguém morreu».Assim começa este novo romance de José Saramago.Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.


domingo, 2 de setembro de 2007

Viagens na Minha Terra


Almeida Garrett



O Vale de Santarém é um destes lugares preveligiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego de espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência.


( ed.Sá da Costa,1954,pag 73 )

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Novos Contos da Montanha


Miguel Torga



O Pastor Gabriel

(...)Em silêncio e sem se mexer, deixou-a passar para a adega, que era ao fundo, numa loja contígua. Mas apenas sentiu desandar a torneira da pipa e a espuma do tinto a ferver dentro do barro lhe fez cócegas na garganta, pediu humildemente:
- Minha ama, dê-me uma pinga!
- Dou. Anda cá bebê-la ...
Ergueu-se num pronto, saltou por cima do gado, entrou no armazém, recebeu a pichorra, levou-a à boca e começou a consolar a alma. De repente, sem mais nem para quê, a moça, calada, dá-lhe um empurrão à vasilha com a ponta do dedo. De respiração afogada e ainda engasgado, a tossir, relanceou-a toda. Ao machio, a senhora morgada !
E nada mais simples: pousou a caneca e dobrou a rapariga sobre uma facha de palha.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sonetos - Charneca em Flor


Florbela Espanca




Espera...




Não me digas adeus, ó sombra amiga ,
Abranda mais o ritmo dos teus passos ;
Sente o perfume da paixão antiga ,
Dos nossos bons e cândidos abraços !


Sou a dona dos místicos cansaços ,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços ...
Não vás ainda embora, ó sombra amiga !


Teu amor fez de mim um lago triste :
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste ,
Quanta canção de ondinas lá no fundo !


Espera ... espera ... ó minha sombra amada ...
Vê que pra além de mim não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo !...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Praça da Canção



Manuel Alegre







Canção Terceira




Quando desembarcarmos no Rossio
canção
vão
dizer que a rua não é um rio
vão apressar o teu navio
carregado de vento carregado de pão.

Dirão que trazes tempestades
dirão que vens de espada em riste
e que foi sangue sangue o vinho que pediste.
Vão vestir-te com grades
que é um vestido para todas as idades
na Pátria dos poetas em Rossio triste.





( pag.65 ed.EA )

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O Cheiro da Madeira


A.M. Galopim de Carvalho




Exercício de memória, sem a preocupação do relato rigoroso do cronista, O Cheiro da Madeira procura ser um ensaio de reconstituição de um viver colectivo do segundo quartel do século XX, na cidade e nos campos de Évora. Ficcionando ao sabor da sensibilidade de hoje, A. M. Galopim de Carvalho conserva, no entanto, os cheiros, os recortes e os matizes com que os sentidos os gravaram em recantos da memória de onde forma retirados. Lê-lo é estar lá, com os olhos, com as mãos. A cheirar, a rir, a chorar.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

O Retrato de Dorian Gray


Oscar Wilde



Romance fascinante sobre a imortalidade, a perfeição, a juventude eterna e outras impossibilidades
Publicado em 1890 – com uma segunda edição do ano seguinte, a que o escritor acrescentou seis novos capítulos e um prefácio –, “O Retrato de Dorian Gray” chocou a hipócrita sociedade vitoriana que viu nele um espelho dos seus defeitos, alheio àquelas que considerava serem as suas virtudes. A crítica apressou-se a envolver o romance num escândalo que passou de literário a social quando a relação de Wilde com o Lord Alfred Douglas se tornou pública (em 1891). No prefácio à segunda edição, Wilde distancia-se da polémica (“Não existem livros morais ou imorais. Os livros são mal ou bem escritos. É tudo”) e desencoraja os que procuravam encontrar no seu ciclo de amizades as figuras inspiradoras das suas personagens: “O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida.”

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A Montanha Mágica


Thomas Mann


O que devo eu então dizer sobre o próprio livro (Montanha Mágica) e ainda por cima, como deve ser lido? O começo é uma exigência muito arrogante, a dizer que se deva lê-lo duas vezes. É claro que essa exigência é retirada imediatamente para o caso de que na primeira vez se tenha ficado entediado. A arte não deve ser nenhum trabalho escolar nem dificuldade, nenhuma ocupação contre coeur, mas sim deve alegrar, entreter e animar e aquele sobre o qual uma obra não exerce esse efeito então este deve deixar a obra de lado e voltar-se para outra. Mas quem chegou uma vez até o final com a “Montanha Mágica” então eu aconselho a lê-la mais uma vez, pois seu feitio particular, seu caráter como composição traz consigo que o prazer do leitor aumentará e se aprofundará da segunda vez, - como se deve já conhecer uma música para poder gozá-la de acordo.

Extracto de Conferência apresentada por Thomas Mann em Maio de 1939 aos estudantes da Universidade de Princeton

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

As Rosas de Atacama


Luis Sepúlveda


Assim nasceu o presente livro, As Rosas de Atacama, “Histórias marginais” (aliás o título da edição original espanhola), e também histórias de marginais, os relatos, quase sempre curtos, que compõem esta obra têm os ingredientes a que Luis Sepúlveda habituou os seus leitores desde O Velho Que Lia Romances de Amor: a defesa da vida e da dignidade humana, a luta pela justiça, o elogio dos valores ecológicos, o exotismo como afirmação de que os sonhos são os mesmos em todos os lugares da Terra.
Em Sepúlveda, a realidade supera sempre a ficção. Daí que este extraordinário contador de histórias continue a servir-se da sua condição de andarilho das cinco partidas do mundo para nos oferecer, em lampejos de génio, o retrato insuperável dos homens e das mulheres que, no anonimato, ajudaram, ajudam e ajudarão a construir o verdadeiro rosto da História.

sábado, 11 de agosto de 2007

Seara de Vento


Manuel da Fonseca


“- Pois é verdade… Isto deu uma grande volta… Aquela raça dos lavradores antigos acabou-se… Os de hoje, se muito têm, mais desejam. Moram nas vilas, põem casa às amantes na cidade, não dão um passo sem ser de automóvel, inventam festas, não há cinemas nem teatros a que faltem. E para um estadão destes é preciso dinheiro e mais dinheiro. Nunca se fartam. Por isso é que eles açulam os feitores às canelas do pessoal, que nem o deixam respirar. Agora é tudo à má cara e de relógio na mão.
Júlia curva-se, movendo a cabeça.
- Uns tão ricos e outros sem nada… Até devia haver uma lei contra isto.
- Haver o quê?!... Estás parva. Pois se os ricos é que fazem as leis!”

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Sábado sem Sol


Romeu Correia

Era um nadador. nadara toda a tarde e toda a noite e dera à praia de madrugada. Estava morto. Mas parecia ainda a nadar: fora interrompido pela morte quando nadava. O corpo enregelado mantinha ainda na perfeição absoluta, o momemto supremo do braço com a mão em concha, indo além da cabeça, para puxar a água ao longo de si.


Dera à praia naquela madrugada como se fora esculpida em pedra a estátua do Nadador.




* este post é dedicado ao prof. Manuel Catarino que fez nascer em mim o gosto pela escrita.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Cinco Dias, Cinco Noites


Manuel tiago




Longe das veredas e povoados, a serra ondulava pedregosa e nua. Só aqui e além, ao fundo das encostas ou por detrás dos cabeços, repousavam manchas macias de terra lavrada. Donde e quem vinha lavrá-la parecia mistério em sítio tão desolado e ermo. Toada a tarde caminharam, o Lambaça adiante, André atrás. Nem uma só vez avistaram um ser humano. Não fora o sol derramando luz no ar e nas coisas, não fora o ar límpido e leve, aquele deserto e aquele silêncio seriam intoleravelmente opressivos. Assim, a serra abria-se à intimidade, numa carícia tranquila e confiante.(...)

domingo, 15 de julho de 2007

O Velho que Lia Romances de Amor


Luis Sepúlveda



"Bastam vinte linhas para que o leitor fique preso à magia desta falsa candura, desta ilusória ligeireza, sem poder deter-se, até ao fim do romance, que parece chegar demasiado depressa, tal o prazer que a sua leitura dá." — Le Monde

"Uma prosa rápida, quase cinematográfica, com capítulos curtos e parágrafos muito breves, que levam o leitor a só largar o livro depois de ter acabado de o ler." — El País

"Um romance simplesmente ‘espantoso’, repleto de imagens luxuriantes." — L'Événement du Jeudi

"Um romance de amor pela floresta, a aventura, a poesia, que vos fará esquecer a barbárie das cidades..." — Les Échos

sábado, 14 de julho de 2007

Loucura


Mário Sá Carneiro



...

Durante a execução da Afrodite, depois de uma hora de trabalho, seguiam-se duas horas de amor se amor se pode chamar à prática luxuriosa dos vícios mais requintados.

Dizia a Luisa:

- Eu - quero que tu me ames como eu te amo... Com todo o teu corpo: com as mãos... com os braços... com a boca...

E deste modo se amavam na realidade... Com a boca principalmente...

Tudo isto veio a terminar com a conclusão da estátua. Livre numa intimadade forçada, Raúl absteve-se de continuar; aliás com grande desgosto do modelo.

"Afrodite" é uma obra do autor do "Álcool", o que equivale a dizer: uma obra prima. Contudo, entre todas as outras, talvez a menos notável.

...

Foi por este tempo que eu vi Marcela perder a sua habitual alegria: os lábios descorados, os olhos pisados, indicando lágrimas, evidenciando qualquer desgosto. Esperei que me escolhesse para seu confidente, como já tinha feito uma vez. Calava-se. Decidi-me a interrogá-la. Respondeu-me evasivamente.

Não insisti.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Terra Fria


Ferreira de Castro


Na tarde morna, declinando entre as bravias montanhas, ali, na terra ignorada do mundo, na terra sem história, que principiava na Galiza e vinha terminar, alheia a fronteiras e ediomas, dentro de Portugal, a vida do povo obscuro tinha as mesmas expressões fundamentais, o mesmo instinto de perpetuidade, a mesma ânsia de alegria e o mesmo céu comum a toda a espécie, como se os lugarejos que os lobos, de noite, espreitavam, se encontrassem situados no centro do planeta.
Leonardo subiu, de novo, para a sala e foi debruçar-se na janela, ao lado de Artur Lopes:
- Estive a pensar no tesouro e, assim como assim, sempre me arrisco. Vamos ver o que aquilo dá. Mas não digas nada a ninguém. Por enquanto, até cá a minha patroa escusa de saber...