sábado, 2 de fevereiro de 2008

A Divina Comédia





Dante Alighieri







(...)

Depois que no rosto de certos fixei os olhos,
nos quais o doloroso fogo cai,
não conheci nenhum; mas notei

que do pescoço de cada um pendia uma bolsa,
que tinha uma certa cor e certo sinal,
e os seus olhos aprasíam-se em comtemplá-las.

E como eu errava entre eles olhando,
vi uma bolsa de ouro com um campo azul,
que de um leão tinha a forma e atitude.
(...)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Adivinhação do Azul


José Jorge Letria

Prémio de Poesia Florbela Espanca-1984



Propriedades do Silêncio





O desabafo tem no papel
as propriedades singulares do silêncio:
é inaudível e branco,
exibe uma quietude exasperante
como se pretendesse abafar
com mágico engenho
e sapiência antiga
o que é o desabafo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A Evolução do Pensamento Humano


M. Siderov



O Homem... Que admirável conceito! Que nobres sugestões nos evoca!... Quantas vezes ouvimos expressões deste género! Apesar disso, talvez ainda não tenhamos respondido à pergunta: mas afinal o que é o Homem? Como é, e como deverá ser?

Existem no homem muitas qualidades excelentes. Beleza e força, audácia e bondade, sentimento de camaradagem e entusiasmo pelo trabalho, tudo isto lhe é característico. Mas se perguntarmos o que o distingue da natureza, muitas pessoas, sem dúvida alguma, responderão: o entendimento. E terão razão.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Gaibéus


Alves Redol




- Eh, gente!... Eh!, mãos de lama!... Essas foices que não morram!...
- O patrão vai dizer das boas, se botar cá arriba!...
Os ceifeiros, tangidos pelo agulhão daquela ameaça, buscam novos reforços para aligeirar a faina. Fincam os dentes para abafar a fadiga que lhes abala os peitos abertos, mas a tosse estala-lhes como um eco da moínha que começou suave na ponta dos pulmões e foi alargando, pouco a pouco, até lhes tomar todo o corpo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Poesias Inéditas

Fernando Pessoa

Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.


Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.

domingo, 27 de janeiro de 2008

As Pedras Negras


Gastão Cruz


O Que Depois



O que depois
viera transformara
a lei dos sentimentos e somente
em chamas
era o corpo da tarde celebrado

Viver foi isto a rapidez dos
dias uma canção trazida
pelas ondas do sangue
a esperançado corpo uma respiração
igual à das estátuas

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Príncipes de Portugal


Aquilino Ribeiro


Leonor Infanta de Portugal e Imperatriz da Alemanha



Das quatro filhas que teve D.Duarte, a seguir a Filipa que morreu de peste, vinha Leonor, nada em 1447, tida por magnifica de carácter e graciosa de maneiras. Em verdade, mal chegou à nobilidade, começou a ser requerida dos prícipes da cristandade, entre os quais (...)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Docas Secas


Bernardo Miguel Fernandes



Quando tocou a sirene, estavam nos seus postos. Hoje, continuavam a utilizar a suta que lhes permitia pingar duas peças de aço na posição exigida pelo desenho. Seiça ajeitava-se melhor, mas o Ferrão, cuja menor ferramenta que manejara fora o machado de lenhador nos pinheirais do norte, mostrava dificuldades e falta de paciência.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Antologia Panorâmica do Conto Açoriano


João de Melo



Os Pêssegos da Vida


Carlos Wallenstein



Entre eles a harmonia era completa, não tinha lacunas. Todas as horas do principio, forças antigas que se debatiam e a que outros homens chamavam posse, instinto, domínio, se foram a pouco e pouco anulando e chegaram a uma postura de verme e concha ou talvez de matéria permanentemente interpenetrada.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Contos


Fialho de Almeida

(Edição de 1923)



Já naquellas idades, que uma alegria embebeda de exuberantes e puras phantasias, armavamos panellinhas de tres, quatro e cinco, para a brincadeira. Succedia ás vezes, que essas pequenas sociedades eram surprehendidas pelo mestre em pagodes reaes. Levavam todos com a regoa ou iam de joelhos todos, conforme.

domingo, 13 de janeiro de 2008

E Aconteceu um Desastre

Não! Não é o título de um livro. Foi o que efectivamente aconteceu: um crash total com perda de todos os dados do computador, com a agravante de que, o último backup fora feito no início do verão. Isto está um pandemónio inenarrável; não sei por que ponta hei-de pegar nesta coisa... a pouco e pouco vou tentar recolocar tudo como dantes. Agora é que eu vou "stressar".

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Darwinismo Hoje


F. Chapeville; P.P. Grassé; F. Jacob; etc.



Na ciência, como noutros domínios, o precurso das ideias não é linear. Aparecem, desaparecem, para tornarem a aparecer sob outras formas. Reagrupam-se para dar origem a teorias que terão mais ou menos êxito, maior ou menor longevidade. Algumas conseguem com bastante rapidez um consenso favorável, como por exemplo a Teoria da Relatividade. Outras acabam por ser mais ou menos geralmente rejeitadas, como, por exemplo, a teoria genética de Lysenko. Mas outras provocam intermináveis debates e dividem a comunidade científica. A evolução e os seus modelos explicativos encontram-se nesse último caso. Especialmente o Darwinismo continua a ser objecto de acesa discussão. Em que ponto estamos hoje? Como é que o Darwinismo chegou até nós? (...)

domingo, 30 de dezembro de 2007

Maria Moisés


Camilo Castelo Branco



(...)Nas férias da Páscoa, António de Queirós viu chorar Josefa. Não eram lágrimas de amante magoada, nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe. Entrara-se de uma terrível vergonha e confusão. Ninguém a suspeitava; e ela, se alguém a encarava a fito, estremecia. A mãe era cruel como as mulheres manchadas. No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. Dava-lhe esse direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram,(...)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A Semente das Palavras



Colectânea de Contos -Vários Autores


Do Conto "O Embargo"
de José Saramago


Acordou com a sensação aguda de um sono degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher se esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse voltar a adormecer já, acabaria por ter o dia estragado.




sábado, 22 de dezembro de 2007

Cântico de Natal

Charles Dickens


A fogueira estava realmente muito baixa. Era uma coisa de nada numa noite tão agreste. Foi, por isso, obrigado a sentar-se quase enconstado a ela e a espevitá-la antes que esse pedaço de combustível conseguisse extrair o mínimo de calor. A lareira era antiga e tinha sido construída há muito por um negociante holandês que a decorara em volta com graciosos azulejos holandeses que pretendiam ilustrar as Escrituras. Havia Cains e Abéis, as filhas do faraó, raínhas do Sabá, mensageiros angélicos pairando no ar em nuvens que se assemelhavam a camas de penas,(...)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Odisseia


Homero

Adaptação por João de Barros



Os Gregos eram ricos e gostavam de ser ricos. Mais estimavam, porém, a beleza. E por isso Helena, esposa de Meneleu, rei de Esparta, que era a mulher mais linda da Grécia, e cuja formusura deslumbrava o Mundo inteiro, resguardavam-na como tesouro sem par. Assim, ficaram indignados e furiosos no dia em que os Troianos, -povo do outro lado do mar que banha as costas ocidentais da Grécia - ciosos de tal fortuna, roubaram Helena e, com ela, ouro e prata aos montões.(...)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João Vêncio: os seus amores



José Luandino Vieira



Pois todo o dia ele desaparecia. Só regressava à noite, piruta. Bêbado piruta e então chamava a mulher e dava-lhe uma sova de surra. Batia com o mesmo jeito, o mesmo ritmo de pancadas de manhã, no malho dele. Ninguém ia separar: todos tinham vergonha, nenhum tinha coragem. A gente não queria estragar o que a gente pensava dele em todos dias do ano menos um. Eu então não dormia quase, de noite. Mas não era a pena da senhora, a raiva no Diodato - ele era manso, bolvexique, amigável.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Português que nos Pariu



Angela Dutra de Menezes


A batalha de Aljubarrota, que fixou as fronteiras portuguesas com a actual Espanha, criou duas dinastias: a de Aviz e a de Bragança. A primeira, logo entronizada, encerrou uma confusão familiar que extrapolou um tempinho para alcançar a coroa. Em compensação, tornou-se a casa real brasileira. Genuinamente brasileira: metade é conservadora; a outra metade, surfista - aí, xará, maior crowd e "seu" príncipe no meio.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Velho e o Mar



Ernest Hemingway



O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.
O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia e os seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.
- Boa sorte, meu velho.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Cântico do Homem


Miguel Torga


S.O.S.


Vai ao fundo o navio,
Mas eu sou o homem da telegrafia,
O que lança nas asas do vazio
O adeus da agonia...


Sei que ninguém acode à íntima certeza
De que tudo acabou quando naufraga
O veleiro do sonho.
Mas honrado poeta sinaleiro
Do destino de quantos aqui vão,
Ponho
A correr mundo o grito derradeiro
Da nossa desgraçada perdição.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Estrela de Seis Pontas


Manuel Tiago



Naquela rua animada por intenso movimento de carros e peões, estendia-se ao longo do passeio uma vistosa fachada com belos torreões e numerosas janelas circundadas de pedra branca. O edifício prolongava-se para um lado e para o outro por um alto muro bordado de ameias da mesma pedra. À primeira vista dir-se-ía o antigo castelo de um grande senhor, sugerindo, para lá dos muros, a frescura de parques e jardins. Alguns pormenores destoavam porém dessa primeira impressão. As janelas, ainda que de elegante recorte, eram gradeadas (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A Eneida


Virgílio

Livro Primeiro

Eu, que noutros tempos entoei cantares ao som de leve flauta, e que deixando as selvas obriguei os campos vizinhos a obedecerem ao lavrador, mesmo sendo ele avarento, obra grata aos agricultores, canto hoje as terríveis armas de Marte e o varão que, fugindo das margens de Tróia devido ao rigor dos fados, foi o primeiro a pisar as costas de Itália e as costas lavínias. Largo tempo andou errante por terra e por mar, arrastado pelos deuses, pelo furor da rancorosa Juno. Muito padeceu na guerra antes de conseguir edificar a grande cidade e levar os seus deuses ao Lácio, de onde vem a linhagem latina e os senadores Albanos, e as muralhas da soberba Roma.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O Mundo do Fim do Mundo



Luis Sepúlveda



(...)

Também o Moby Dick se encontrava em reparações e, logo que saísse da doca seca de Bremen, rumaria ao Atlântico Norte para impedir a caça de baleias praticada por noruegueses, suecos, dinamarqueses, islandeses, norte-americanos e russos em embarcações camufladas sob bandeiras de países pobres para violarem as leis internacionais com maior impunidade.(...)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Eu Canto para que os Desertos Fiquem à Sombra

Autor Desconhecido


(Letras de canções de intervenção,publicado sem censura prévia da PIDE)



Margem Sul

Letra - Urbano Tavares Rodrigues
Música - Adriano Correia de Oliveira



Ó Alentejo dos pobres
Reino de desolação
Não sirvas quem te despreza
A tua, a tua, Nação.

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústias em botão
Ver cerrada em Baleizão

Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.

Foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A Velhice do Padre Eterno




Guerra Junqueiro





Quanta mulher formosa aí nesses balcões!
Que lindas tentações,
Meu pálido judeu!
Deixa por um instante as regiões serenas;
Namora essas pequenas,
Que elas hão-de gostar do teu perfil hebreu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Patagónia Express


Luis Sepúlveda



Em meados de Março os dias tornam-se mais curtos e no Estreito de Magalhães entram fortes ventos do Atlântico. É o sinal para que, os habitantes de Porvenir, revejam as existências de lenha e observem melancólicos o voo das abetardas que vão da Terra do Fogo até à Patagónia. Pensava continuar viagem até Ushuaia, mas informaram-me que as últimas chuvas cortaram o caminho em vários troços e que não serão reparados até à Primavera.
(...)

domingo, 2 de dezembro de 2007

A Brusca



Agustina Bessa Luis




(...)
Alguém proferiu palavras que a tranquilizaram; estava agora mais humilde e enxugava as gorgas lágrimas, suspirando com estremeções patéticos. Aconselharam-na a beber água fria, ela disse que a água, de manhã, lhe fazia mal, e pôs-se a contar a contar as suas doenças ou as que conhecia nas suas vizinhas, com uma espécie de deleite macabro e recusando-se a acreditar em remédios, em médicos e em curas.

sábado, 1 de dezembro de 2007

O Sangue das Palavras



Ary dos Santos




Soneto do Mal Amar





Invejo-te recordo-te distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Matéria Solar


Eugénio de Andrade



Sei de uma pedra onde me sentar
à sombra de setembro quase no fim.

Havia ainda as mãos, mas tão cegas
que nenhuma encontrará o sol.

É o que têm: desejo de tocar
o barro ainda quente do silêncio.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Fuenteovejuna


Lope de Vega



Prefácio


Cervantes chamou a Lope de Vega "monstruo de la Naturaleza".
O epíteto de "monstro" não se pode entender aqui senão como sinónimo de prodígio, ser extraordinário, espantoso, fora do normal. É que, na realidade, Lope Félix (ou Félix Lope) de Vega Carpio excede em muito, pelas dimensões da obra produzida ao longo de sessenta e oito anos, dos setenta e três que viveu (pois aos cinco já ditava versos, antes de saber escrever), todos os autores de qualquer época ou nacionalidade. (...)

A.L.R. (??? António Lopes Ribeiro ???)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Solo para Gravador



Isabel da Nóbrega






Passos mansos afastam-se pelo corredor.Alguém estivera a escutar à porta. Que queriam saber? Mas não hão-de saber nada! Ou talvez fosse a Palmira a tentar perceber se ela estava acordada para lhe trazer chá. Tem graça. Há dois dias que a Palmira não lhe apresenta aquela horrível caneca de leite, que a agonia, e lhe arranja chá e torradas.

domingo, 25 de novembro de 2007

Horizontes Fechados



Raul Rego




NÃO É SÓ de hoje nem de ontem a Censura à Imprensa.
A Censura prévia administrativa, como soe chamar-se-lhe. Pode dizer-se que é de sempre, desde que há Imprensa e governos autoritários. Por isso mesmo, entre nós, a Censura não é invenção do regime instaurado em 28 de maio de 1926. Não é. Apenas requintou a maneira da sua aplicação.

sábado, 24 de novembro de 2007

Nome de Guerra


José de Almada Negreiros


Antes de Nascer pela terceira vez


Só quando quando chegou à rua é que viu que não ia para parte alguma. Não havia nenhum lugar para onde fosse. A mesma multidão, as mesmas casas, as mesmas ruas e ele. Mas qualquer coisa de novo se passava na sua vida. Se sondava o seu íntimo, não havia nada até à profundidade. Do exterior nada lhe vinha, tudo encontrava resistência nos seus sentidos para o animar de imagens. Ele não se reconhecia: havia qualquer coisa de estranho na sua vida, qualquer coisa de estranho e dele próprio ao mesmo tempo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Os Irmãos Karamazov




Fedor Mikailovich Dostoievski




Era o principio de Novembro. O dia amanhecera com um nevão que mantinha o termómetro Réaumur a onze graus; tinha caído durante a noite uma neve seca e o vento cortante da manhã levantava uma poeira de granizo que arrastava pelas ruas da cidade, especialmente na Praça do Mercado. A manhã estava fria e desagradável, mas já não nevava.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O Vermelho e o Negro


Henri Beyle "Stendhal"



Pode classificar-se Verriéres como uma das mais belas cidades do Franco-Condado. As suas ruas brancas, com telhados vermelhos e pontiagudos, alargam-se pela encosta de uma colina, sinuosamente deliniadas por grandes e vigorosos castanheiros. A uma dezena de metros, sob o casario edificado pelos espanhóis e que hoje se vê em ruinas, corre o Doubs.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Sonetos


Antero de Quental


Amor Vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! a luz fundida
Que penetre no meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

sábado, 17 de novembro de 2007

Discurso do Método



René Descartes







Da Filosofia apenas direi que, vendo-a cultivada pelos mais excelentes espiritos que desde há vários séculos viveram e, todavia, nenhuma coisa nela haver sobre a qual não se discuta - por conseguinte, que não seja duvidosa -, não me chegava a presunção de esperar ter nela melhor êxito do que os outros. E, considerando como, a propósito de uma mesma matéria, podem existir várias opiniões defendidas por doutas pessoas sem que nunca possa haver mais de uma verdadeira, direi que tomava quase como falso o que apenas era verosímil.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Guerra e Paz




Tolstoi



- Costumo dizer muitas vezes de mim para comigo - continuou Ana Pavlovna, depois de um momento de silêncio, aproximando-se do Principe com um sorriso gracioso, como se quisesse significar que estavam terminadas as conversas sobre assuntos políticos e mundanos e que as confidências íntimas íam principiar - , muitas vezes digo a mim mesma que a felicidade neste mundo é coisa muito desigualmente repartida.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

História de Uma gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar




Luis Sepúlveda






Tenho muita pena de estar sozinho - disse o garoto acariciando o lombo do gato grande, preto e gordo.Depois continuou a meter coisas na mochila. Pegava numa cassette do grupo Pur, um dos seus favoritos, guardava-a, tinha dúvidas, tirava-a, e não sabia se havia de tornar a metê-la na mochila ou deixá-la em cima da mesa-de-cabeceira. Era difícil o que havia de levar para as férias e o que devia deixar em casa.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Nebulosa de Andrómeda


(Caminho Ficção Científica)


Iván Efrémov



Nas colunas alaranjadas das colunas dos indicadores do anamesão, os grandes ponteiros negros marcavam "zero". O curso da astronave continuava invariável para a estrela de ferro, pois a velocidade era ainda branda e a nave cósmica prosseguia na sua marcha incessante em direcção àquele sinistro corpo celeste, invisível ao olhar humano. Erg Noor, com a ajuda do astronauta, trémulo pela tensão e pela fraqueza, sentou-se na frente da máquina calculadora. Os motores planetários, desligados pelo piloto-robot, estavam silenciosos.

domingo, 11 de novembro de 2007

Folhas Caídas



Almeida Garrett





Seus Olhos




Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou
-Não tinham luz a brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateaou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão cinza em que ardi.

sábado, 10 de novembro de 2007

A História me Absolverá




Fidel Castro




(...)
Quanto a mim, sei que a prisão me será mais dura, como nunca foi para qualquer outro. Sei que ela será pesada de ameaças vis e cobardes provocações, mas não a temo, como não temo a fúria do tirano que arrancou a vida a setenta dos meus irmãos. CONDENAI-ME, POUCO IMPORTA, A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Os Lusíadas







Luis de Camões






Desta arte, enfim, conformes já as formosas
Ninfas co'os seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro e de ouro e flores abundantes.
As mãos alvas lhe davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia,
Em vida e morte, de honra e alegria.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Mãe



Máximo Gorky






Na atmosfera fumarenta e triste daquele bairro operário, todos os dias a sereia da fábrica atirava para os ares o seu grito estridente. Criaturas secas, de músculos ainda fatigados, saíam ràpidamente das pequenas casas escuras, correndo como baratas assustadas. Numa luz penumbrosa, caminhavam pela rua esguia em direcção aos muros altos da fábrica que os aguardava, onde inúmeros olhos quadrados e amarelos iluminavam a calçada lamacenta. Algumas vozes alvoroçadas ressoavam em roucas exclamações. Pragas de renúncia cortavam o ar e (...)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Os Corações Também se Gastam



Pedro Paixão





Não sei de onde me ocorreu aquilo. Do tédio e da raiva, provavelmente. Comecei a fotografá-la com a minha Kodak Retina 3C, a desnudá-la, a descobri-la, tão cedo na manhã que ainda sonhava. Ela acordou a seguir e começou a mexer-se, como quem gosta muito, e despiu o que eu não ousava, o calor por debaixo da pele. Continuei a disparar a máquina enquanto ela sussurrava palavras pequeninas,(...)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Memorial de Aires




Machado de Assis









Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente algumas coisas de Shelley e também de Thackeray. Um consolou-me do outro, este desenganou-me daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito aprende as línguas do espírito.

sábado, 3 de novembro de 2007

A Enfermaria Nº 6


Anton Tchekov



Ivan Dmitrich permanecia na mesma posição da véspera, com as mãos entre a cabeça e as pernas encolhidas. Não se lhe via a cara.
- Boas tardes, meu amigo - disse Andrei Efimich.
- Não está a dormir?
- Em primeiro lugar, não sou seu amigo - retorqiu Ivan Dmitrich, com a cara enterrada na almofada.
- e, em segundo lugar, é inútil o seu interesse: Não me arrancará uma só palavra.
- Que estranha fantasia! - sorriu o médico com ironia. - Imaginará você que sou um espião?
- Penso que sim... Um espião ou um médico a quem incumbiram da missão de me pôr à prova. É a mesma coisa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Jazz


Morley Jones



A vida e a obra de mais de cinquenta nomes do Jazz - de King Oliver e Louis Armstrong, passando por Parker, Coltrane e Miles Davis, até aos "novíssimos" John McLaughlin e Keith Jarrett. Uma discografia seleccionada, com mais de trezentos títulos, que permitirá ao leitor constituir a sua colecção das melhores gravações da História do Jazz. Uma obra de referência indispensável não só aos amantes do Jazz, mas também a todos aqueles que pretendem iniciar-se nos segredos da grande música negra.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Os Maias


Eça de Queiroz



A Casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S.Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D.Maria I
(...)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O Despertar dos Mágicos


Louis Pauwels e Jacques Bergier



Existe uma flor extremamente frágil e bela que se chama a saxífraga umbrosa. Também lhe chamam "o desespero do pintor". Já não desespera nenhum artista, desde que a fotografia e muitas outras descobertas libertaram a pintura da preocupação da semelhança exterior. O pintor menos jovem de espírito não se senta hoje diante de um ramo de flores como o teria feito outrora. Os seus olhos vêem mais qualquer coisa além do ramo, ou antes, o modelo serve-lhe de pretexto para exprimir por meio da superfície colorida uma realidade escondida para o olhar profano.
(...)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Telefona se Precisares de Mim


Raymond Carver



(...)
Mas nessa noite, depois de termos jantado e lavado a louça e eu ter acendido a lareira, Nancy abanou a cabeça e disse que não ia funcionar.
- Porque dizes isso? - perguntei.
- Que queres dizer com isso?
- Quero dizer que não vai funcionar, encaremos a realidade - abanou de novo a cabeça. - Também me parece que não quero ir pescar de manhã e que não quero um cão. Não, nada de cães. Acho que quero ir ver a minha mãe e o Richard. Sozinha. Quero estar só. Tenho saudades do Richard - disse ela, e começou a chorar. - O Richard é o meu filho, meu filhinho - disse ela - e já está quase adulto e a ir-se embora. Tenho saudades.
- E do Del, também tens saudades do Del Shraeder? - disse eu. - O teu namorado. Tens saudades dele?
- Hoje tenho saudades de toda a gente - disse ela.
(...)