sábado, 3 de novembro de 2007

A Enfermaria Nº 6


Anton Tchekov



Ivan Dmitrich permanecia na mesma posição da véspera, com as mãos entre a cabeça e as pernas encolhidas. Não se lhe via a cara.
- Boas tardes, meu amigo - disse Andrei Efimich.
- Não está a dormir?
- Em primeiro lugar, não sou seu amigo - retorqiu Ivan Dmitrich, com a cara enterrada na almofada.
- e, em segundo lugar, é inútil o seu interesse: Não me arrancará uma só palavra.
- Que estranha fantasia! - sorriu o médico com ironia. - Imaginará você que sou um espião?
- Penso que sim... Um espião ou um médico a quem incumbiram da missão de me pôr à prova. É a mesma coisa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Jazz


Morley Jones



A vida e a obra de mais de cinquenta nomes do Jazz - de King Oliver e Louis Armstrong, passando por Parker, Coltrane e Miles Davis, até aos "novíssimos" John McLaughlin e Keith Jarrett. Uma discografia seleccionada, com mais de trezentos títulos, que permitirá ao leitor constituir a sua colecção das melhores gravações da História do Jazz. Uma obra de referência indispensável não só aos amantes do Jazz, mas também a todos aqueles que pretendem iniciar-se nos segredos da grande música negra.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Os Maias


Eça de Queiroz



A Casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S.Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D.Maria I
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quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O Despertar dos Mágicos


Louis Pauwels e Jacques Bergier



Existe uma flor extremamente frágil e bela que se chama a saxífraga umbrosa. Também lhe chamam "o desespero do pintor". Já não desespera nenhum artista, desde que a fotografia e muitas outras descobertas libertaram a pintura da preocupação da semelhança exterior. O pintor menos jovem de espírito não se senta hoje diante de um ramo de flores como o teria feito outrora. Os seus olhos vêem mais qualquer coisa além do ramo, ou antes, o modelo serve-lhe de pretexto para exprimir por meio da superfície colorida uma realidade escondida para o olhar profano.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Telefona se Precisares de Mim


Raymond Carver



(...)
Mas nessa noite, depois de termos jantado e lavado a louça e eu ter acendido a lareira, Nancy abanou a cabeça e disse que não ia funcionar.
- Porque dizes isso? - perguntei.
- Que queres dizer com isso?
- Quero dizer que não vai funcionar, encaremos a realidade - abanou de novo a cabeça. - Também me parece que não quero ir pescar de manhã e que não quero um cão. Não, nada de cães. Acho que quero ir ver a minha mãe e o Richard. Sozinha. Quero estar só. Tenho saudades do Richard - disse ela, e começou a chorar. - O Richard é o meu filho, meu filhinho - disse ela - e já está quase adulto e a ir-se embora. Tenho saudades.
- E do Del, também tens saudades do Del Shraeder? - disse eu. - O teu namorado. Tens saudades dele?
- Hoje tenho saudades de toda a gente - disse ela.
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domingo, 28 de outubro de 2007

O Espólio do Senhor Cipriano


Júlio Dinis



Desde que uma crença consegue radicar-se verdadeiramente na imaginação do povo, difícil é ao poder dos séculos ou à evidência dos factos desarreigá-la. Parece que à medida que um por um se vão quebrando os laços que a prendiam à razão e diminuindo a plausividade que dos espíritos sensatos a faziam ainda aceite, mais atractivos ela ostenta à fantasia popular, sempre afeiçoada ao maravilhoso e impelida a correr atrás de uma destas sedutoras ilusões, como as crianças a perseguirem as borboletas através das campinas.
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sábado, 27 de outubro de 2007

Nossa Senhora de Paris


( O Corcunda de Notre Damme)


Victor Hugo


(...)
- Para a próxima vez observarei melhor - prometeu.
- Vai-te ! - Ordenou Esmeralda.
O homúnculo desapareceu. A cigana ficara descontente, mas Quasímodo preferia ser mal tratado a afligi-la. Desde esse dia, nunca mais a egípcia tornou a vê-lo. Deixou de ir à cela. Apenas, às vezes, avistava-o no alto de algumas das torres, com o olhar melancolicamente fito nela. Mas assim que olhava para ele, desaparecia.
(...)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O Livro de Cesario Verde



Cesário Verde



De Tarde

Naquele "pic-nic" de burgueses,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.


Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzonal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.


Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

As Ilhas Desconhecidas


Raul Brandão



Em Três Linhas


Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha... Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nos leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!...

1926
Raul Brandão

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O Retrato de Ricardina




Camilo Castelo Branco




(...)
- Norberto! Acorda! Anda brincar connosco! Já daquele modo, a avó dos meninos, quando criança, o ia acordar debaixo das árvores, à hora da sesta, para lhe mostrar os ninhos das aves entre os salgueiros do rio. E, com estas recordações, ali à beira de Norberto morto, as lágrimas eram tantas que Bernardo Moniz perguntava à esposa:- Quando deixaremos de chorar, Ricardina?- Só não choram os que morrem...- respondeu ela.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

O Gosto de Ler



Urbano Tavares Rodrigues





A melhor leitura reflecte sempre o real, mas acontece que em certos livros, fascinantes, em vez de nos mostrarem a aparência, em suas relações de causa e efeito, aparentam a realidade em devir, a sua incubação, ou tentem mesmo rasgar a cortina do futuro, transitando, pela via do cognitivo, do verificável ao suponível, através da alegoria, da premonição, do símbolo e do mito. É o caso de "Objecto Quase", livro de contos de José Saramago em que certos textos, como, por exemplo, "Coisas", são politicamente elaborados como demonstrações do presente no futuro e do futuro no presente.
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sábado, 20 de outubro de 2007

O Fogo e as Cinzas





Manuel da Fonseca





Mestre Poupa bombeiro, André Juliano e eu formávamos uma trindade falhada. Positivamente, três velhos falhados e tontos.
Há momentos em que eu vejo isto como uma grande clareza. Mas de nada me vale. Os factos miúdos que me estragaram a vida pegam de novo em mim e arrastam-me. Desviam-me cada vez mais de toda a gente e isolam-me numa apatia da qual não tenho forças para escapar-me. Serei acaso um cobarde? Talvez.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O Último Dia de um Condenado




Victor Hugo





Condenado à morte! Há cinco semanas que vivo absorvido por este pensamento, sempre só com ele, sempre gelado pela sua presença, sempre curvado debaixo do seu peso! Outrora - porque mais parece que já lá vão anos, não apenas algumas semanas - eu era um homem como os outros homens. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha a sua ideia própria. O meu espírito, jovem e rico, estava cheio de fantasias. E divertia-se a desemrolar-mas umas após outras, sem ordem e sem fim, bordando de inesgotáveis arabescos este rude e frágil tecido da vida. Eram raparigas, esplêndidas vestes de bispo, batalhas vencidas, teatros cheios de barulho e de luz, e depois ainda raparigas e discretos passeios à noite sob as largas ramagens dos castanheiros. Era sempre festa na minha imaginação. Eu podia pensar no que queria, eu era livre.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Luar de Janeiro




Augusto Gil



Livrarias Aillaud e Bertrand
Paris - Lisboa 1920




Luar de janeiro,
Fria claridade...

A luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade...

Luar de platina;
Luar que alumia
Mas que não aquece,

Fotografia
De alegre menina
Que há muitos anos já...
envelhece.
(...)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As Palavras dos Outros


Batista-Bastos



Rosa e Júlia Ramalha:Barristas



As mãos moviam-se no barro e eram lestas e seguras. Começaram por o distender com as palmas, depois os dedos funcionaram como se estivessem consagrados a uma delicada renda de bilros. Lentamente, o barro adquiria formas. Sobre as madeiras puídas da mesa longa, uma Bíblia sem capa, um transistor inútil e Cristos mutilados e alminhas imperfeitas. E harpias e ciclopes secos no forno, mordidos pelo sol.
- Porquê estes bichos?
- Sonho muitas vezes assim. depois faço os sonhos no barro.
(...)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Barões de Fina Flor



Modesto Navarro



Este livro está baseado em acontecimentos reais, sucedidos no Verão de 1970, em Vila Flor, no nordeste trasmontano. Tudo começou com uma reunião, visando a união dos esforços dos estudantes e trabalhadores, naturais da vila, para a realização de um espectáculo que despertasse o interesse pela cultura e discussão dos problemas daquela região, casos de emigração, salários, domínio de grandes proprietários, etc. Na impossibilidade de efectuarem sessões de cinema ou ensaiar uma peça de teatro, optou-se em fazer de imediato um jogo de teatro em que os presentes às reuniões tomariam parte, e em que iriam expondo, através desse jogo, os problemas económicos e sociais da região.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O Barão




Branquinho da Fonseca







Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar.
(...)

domingo, 14 de outubro de 2007

Matar não é Crime



Edward Sexby


As características de um tirano.

(...)
10 - Mandam executar a outros as coisas odiosas e desagradáveis e, quando os povos não estão contentes, sossegam-nos sacrificando os ministros; bom seria que os generais de sua alteza ruminassem um pouco sobre este ponto.
11 - Dão em tudo a impressão de estar preocupados com o bem povo, de dar contas com o dinheiro que recebem, de mostrar que os recrutamentos feitos são para defesa do estado e reforço da guerra. Fez sua alteza um excelente comentário a esta passagem de Aristóteles no discurso que proferiu no Parlamento.
(...)

sábado, 13 de outubro de 2007



António Nobre


Adeus !
Por uma tempestade na costa de Inglaterra





Adeus! Eu parto, mas volto, breve,
À tua casa que deixei lá!
Leva-me o outono (não tarda a neve)
Leva-me o outono (não tarda a neve)
No meu regresso, que sol fará!



Adeus! Na ausência meses são anos,
Dias são meses, que aí são ais:
Ah tu tens sonhos, eu tenho enganos,
Eu sou sozinho, tu tens pais.
(...)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Letras




Manuel Alegre



Balada do B




Não sei como vieram
de Babilónia
os barcos.
Sei que estão no B
os barcos
de Babilónia.
Estão os barbos que nadavam
em Babilónia
nos rios
e as bandeiras que passavam
nas ruas
de Babilónia.
(...)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Ensaio sobre o Dia Conseguido



Peter Handke



(...)
A ideia de dia conseguido é, por conseguinte, para ti e por agora, válida enquanto quarto poder, após as ideias de instante conseguido, de vida eterna ou vida única conseguidas? E há algo que te impele a atribuir ao dia conseguido um perfume que não se evapore mas que, independentemente do que possa acontecer amanhã, permanece sob esta ou aquela forma? E é outra vez o momento de perguntar: Como é que imaginas em pormenor um tal dia?
(...)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Por Outras Palavras




Joaquim Pessoa








Uma ferida, uma
fotografia. A mentira é
a imagem do corpo, exposição
de tantos anos? A mais dura
certeza é a que se perde em
túneis, pedaços de escura
humilhação. Na memória
pulsa carne ainda
viva.

domingo, 7 de outubro de 2007

A Jangada de Pedra




José Saramago



Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo a extinguir-se. Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda,(...)

sábado, 6 de outubro de 2007

A Teia

"Caminho Ficção Científica"



João Aniceto





Distribuir beijos sucessivamente por uma Giullietta, uma Carina, uma Lotus e um certo Tyrrel. Todos estavam mais bem perfumados do que ele e mostravam-se muito satisfeitos. Talvez a sua profissão fosse exactamente essa, apresentarem-se felizes em público. Os risos cruzavam as conversas como se tivessem combinado intruduzir a gargalhada como uma nova preposição.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Cronologia Geral da História de Portugal



Joel Serrão




5 de Outubro
-Revolução republicana e implantação da República.
> 1910
-Exílio da família real.
-Governo Provisório Republicano, presidido por Teófilo Braga.
-Expulsão dos Jesuítas e de todas as ordens religiosas.
-Abolição do ensino da doutrina cristã e do juramento religioso.
-Extinção dos títulos nobiliárquicos.
-Extinção das Faculdades de Teologia e de Direito canónico.
-Lei da Liberdade de Imprensa.
-Criação da Guarda Nacional Republicana.
-Lei do Divórcio.
-Lei do Inquilinato.
-Leis da família.
-Lei do Direito à greve de autoria de Brito Camacho.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O Cais do Ginjal


Romeu Correia




Era uma noite de verão, morna, de ares parados e céu estrelado. A Lua, enorme lá no alto, punha tons de madre-pérola no firmamento. As águas do rio pareciam paradas, sem a menos vibração. A maré subira à quina da muralha, mas em breve iria voltar à vazante. Pequenos peixes saltavam fora do tapete líquido, quais faúlhas de prata cintilante na noite quente. Barcos fundeados no Tejo, pardos de sossego, pareciam vazios de tripulação. Pairava em redor dos meua olhos e sentidos um clima fantástico, que a minha adolescência ingénua tornava ainda mais irreal.
(...)

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cravo



Maria Velho da Costa





Com que embevecimento ou avidez comtemplei de novo o rosto aberto do meu povo, as suas mãos falantes. Quis crer que não haveria então qualquer violência a cometer. Quis querer que os meus amados mais amados haviam de sair de cara limpa de seus retiros de nadas, casulos de mal estar em chãos forrados, fartamentos de pazes tristes, inteligências. Quis querer que a mesma vocação da própria perda que sempre foi causa de os preferir havia de ter nessa hora da minha pátria o seu cumprimento.
(...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A Ceia dos Cardeais

24ª Edição -1921


Júlio Dantas


Uma grande sala no Vaticano. - Paredes cobertas de panos de arraz. - Amplos tectos de caixão, com apainelamentos de talha doirada. - Um retrato de cardeal, vermelho, sobre o fogão. - À Direita baixa, o cravo, o violoncelo e o violino dum terceto clássico. - Estantes altas, fradescas, Luzes. - Ao fundo, targo tamborete onde repousam as capas, os chapéus, os bastões. - À esquerda baixa, grande armário pesado de baixela de oiro e prata batida. - Quasi a meio, bufete onde seiam os três cardeais: toalha de holandilha picada de rendas; serviço de Sèvres, em branco e ouro; cristais.
Luzes.

sábado, 29 de setembro de 2007

O Azul Deserto da Tarde

(Prémio de Revelação de Ficção 1987 de A.P.E./I.P.L.L.)


Eunice Cabral


A rua está deserta às dez da noite. Podendo vê-la melhor com os passeios bordados de árvores novas, os candeeiros baixos e os vários carros estacionados, nada tem de deserto esta rua. Apenas a calma de uma artéria às dez da noite dum dia de semana.
(...)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Mar Meu


Xanana Gusmão



Mar Meu
Pudesse eu
prender entre os dedos
os suspiros do mar
e distribui-los
ás crianças

Pudesse eu
acariciar com os dedos
A suave brisa das ondas
e sentir cabelos
de crianças

(...)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O Juramento da Duquesa



Pinheiro Chagas




(...)
Em Castelo de Vide D.Nuno de Mascarenhas exercitou também os seus soldados em escaramuças com os Castelhanos. Entretanto Martim Afonso de Melo, o novo governador de armas, fortificava Estremoz, costumava os habitantes à vigilância e ao bom acordo, dando-lhes relatos falsos, e abastecia com os recursos de que dispunha, e que eram limitados, as praças da fronteira.
(...)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Casa do Incesto



Anais Nin



Na manhã em que me levantei para começar este livro tossi. Algo estava a sair-me da garganta, a estrangular-me. Rasguei o cordão que o retinha e arranquei-o. Voltei para a cama e disse: Acabo de cuspir o coração. Existe um instrumento chamado quena que é feito de ossos humanos. Tem origem no culto que um índio dedicou à sua amante. Quando ela morreu ele fez dos seus ossos uma flauta. A quena tem um som mais penetrante, mais persistente do que a flauta vulgar. Aqueles que escrevem sabem o processo. Pensei nisto enquanto cuspia o coração. Só que eu não estou à espera da morte do meu amor.

(...)

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Os Pescadores




Raúl Brandão


(...)
De manhã saio em Olhão deslumbrado. Céu azul-cobalto - por baixo, chapadas de cal. Reverberação de sol, e o azul mais azul, o branco mais branco. Cubos, linhas geométricas, luz animal que estremece e vibra como as asas de uma cigarra. Entre os terraços, um zimbório redondo e túmido como um seio aponta o bico para o ar. E ao cair da tarde, sobre este branco imaculado, o poente fixa-se como um grande resplendor. É uma terra levantina que descubro; só lhe faltam os esguios minaretes. Duas cores e cheiro : branco, branco, branco, branco doirado pelo sol, que atingiu a maturidade como um fruto, pinceladas de roxo uniformes para as sombras, e um cheirinho suspeito a cemitério. O fruto que chega a este estado está a dois dedos do apodrecimento, e é talvez por isso que a ideia do sepulcro me não larga nas noites brancas e pálidas em que me julgo perdido num vasto campo funerário...
(...)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Quatro Prisões Debaixo de Armas




Vitorino Nemésio





O Matesinho de São Mateus era o maior gavola que a Vila da Praia tinha. Isto diziam certos pescadores, cheios de invejidade da sua fisga certeira. Por mim (escreve Mateus Queimado) nunca vi peito mais firme, dentes e riso mais abertos, bizarria maior a contar uma vida caipora, sim, mas mais divertida e rasgada que uma tarde detoiros cheia de fava torrada e de guiseiras luzidas.(...)

domingo, 23 de setembro de 2007

O Duelo


Bernardo Santareno



"Pela sua linguagem, que é bela sobretudo na boca de Rosária e Manuela, e pela sobriedade dos seus lances dramáticos, O DUELO, quanto a mim, é das peças de BERNARDO SANTARENO que, uma vez em cena, consagrarão definitivamente um dramaturgo já hoje, sem favor, dos mais altos expoentes da dramaturgia nacional."

JOÃO GASPAR SIMÕES
(in "Diário de Notícias")
(2ªEdição,Lisboa,1974)

sábado, 22 de setembro de 2007

As Estações do Rosto


José Jorge Letria

Prémio José Galeno de Poesia - 1984
da Sociedade Portuguesa de Autores



O Imperfeito Olhar



Vou perdendo a noção dos meses
o sentido da distância que entre eles
se ergue como uma fronteira de névoa.
Imagino que uma serpente atlântica,
em voo tangencial às águas, engole um poema de Poe,
uma flor maligna de Baudelaire,
um delírio nocturno de Rimbaud. Exausto
de referências, silencio o sonho
e os seus sentidos alucinantes, alcandorados
na torre mais alta e vertiginosa do sono.
Há dias em que não se pode sair com a poesia à rua (...)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Vértice da Água




Artur Jorge








Como se subitamente dos amantes
fere-se nos lábios
a manhã

as folhas cortam o poema
sobre os pássaros
despenhados

(Não é de alegria o seu silêncio)

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Ilhas


Sophia de Mello Breyner Andresen




Madrugada





Um leve tremos precede a madrugada
Quando mar e céu na mesma cor se azulam
E são mais claras as luzes dos barcos pescardores
E para além de insânias e rumores
A nossa vida se vê extasiada

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O Livro do Desassossego



Bernardo Soares



(...)
O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade. A qualidade principal na prática da vida é aquela qualidade que conduz à acção, isto é, a vontade. Ora há duas coisas que estorvam a acção - a sensibilidade e o pensamento analítico, que não é, afinal, mais que o pensamento analítico. Toda a acção é, por natureza, a projecção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mundo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos, segue que essa projecção da personalidade é essencialmente o atravessarmo-nos no caminho alheio, o estorvar, ferir, e esmagar os outros, conforme o nosso modo de agir.(...)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Paraíso do Esquecimento


Urs Widmer



Desde sempre admirei aqueles poetas frívolos que andavam despreocupadamente de metro ou organizavam orgias nas tabernas dos subúrbios com os manuscritos das suas obras primas, dos quais não tinham cópia. Evidentemente, deste modo os manuscritos desapareceiam, perdidos, depois de uma noite fria debaixo de lâmpadas fluorescentes de uma loja de sorvetes de Nova Iorque ou caídos do porta-bagagens da bicicleta, transporte dos poetas para casa, à primeira luz da madrugada - rodeados pelo chamamento dos cucos - saídos há pouco da cama de uma amante que agora dormitava, e à qual leram primeiro o livro todo, antes de partirem com ela a caminho de um céu, vedado a nós, mortais.(...)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Busca


José Fanha


Natureza Morta





Senhor Ministro
não se assuste
esteja à vontade
Viva a Liberdade!
eu fecho a porta.

Os artista desta terra
continuam a pintar
a natureza
morta.

domingo, 16 de setembro de 2007

O Sorriso aos Pés da Escada


Henry Miller


O Sorriso aos Pés da Escada foi escrito a pedido do pintor Fernand Léger. O compositor italiano Antonio Bilbalo compôs uma ópera a partir desta pequena e maravilhosa história do palhaço Augusto, que Miller classificou como a mais estranha das histórias que escrevera.


(...)
Um dia destes, falando com um pintor meu conhecido acerca das figuras que Seurat nos deixou, afirmei-lhe que elas se encontravam enraízadas ali mesmo onde eles lhes deu vida - na eternidade.
Como me sinto grato por ter vivido com estas figuras de Seurat - na "Grande Jarre", no "Médrano" e fosse onde fosse, em espírito! Não há absolutamente nada de ilusório à volta destas suas criações, cuja realidade é imperecível.
Vivem na luz do sol, na harmonia da forma e do ritmo que é melodia pura. E também, de facto, com os palhaços de Rounault, os anjos de Chagall, a escada e a lua de Miró, e todo o seu "zoo" ambulante. Assim também como Max Jacob, que nunca deixou de ser um palhaço - (...)

sábado, 15 de setembro de 2007

Até Amanhã



Eugénio de Andrade





"Juventude"




Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca. Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Ambas as Mãos Sobre o Corpo



Maria Teresa Horta


"Movimentos"





Apertei mais a tua mão presa na minha e senti-te subitamente longe. Dobrei mais ainda os dedos sobre os teus quase fincando as unhas, sentindo a pele quente, os dedos compridos, firmes, toda a tua mão como que todo o teu corpo. A saudade, a distância do teu corpo, a distância da tua mão ali na minha. O teu perfil recorta-se na quase total escuridão da sala. Desvio os olhos de ti e fixo-os no ecran brilhante, luminoso; o teu perfil persiste sobrepondo-se à rapariga que canta (...)
Subitamente distante encolho-me e sinto-me tão só que aperto mais os dedos sobre oe teus numa espécie de arrepio e torno-te a olhar o perfil correcto desenhado e frio na obscuridade da sala. Nos meus ombros a ausência do teu braço cria um vazio, uma ferida, uma cicatriz dolorosa. (...)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O Vestido Cor de Fogo


José Régio



III


E começou entre nós aquele período que chamam namoro. Maria Eugénia era filha única dum oficial reformado e duma senhora que, parece-me, não recebera em solteira grande educação. A posição e as relações do marido lhe tinham dado certo verniz. Não era preciso muito mais para que D.Altina (tal o nome de minha futura sogra) fizesse no meio burguês que se tornara seu a figura decente de qualquer outra.(...)

Às vezes, pensava comigo: "Mas como sucedeu isto, assim tão depressa, porquê?" Na verdade bastara o meu encontro com ela para eu sentir que a queria minha, e ela me estava destinada. Vir a tê-la -era como recuperar alguém que já me pertencia. E em certos momentos me inquietava, ou quase me assustava, o que nisto havia de obscuro e poderoso.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Refúgio Perdido


Soeiro Pereira Gomes



Sem pousar a mala, esperou que o carro eléctrico se aproximasse. Sentia-se quase no fim daquela fase do trabalho, a mais arriscada, fremente de perigos. Que alívio,quando chegasse a casa!
Estava a suar, cansado e cheio de sede;mas procurou dar ao rosto uma expresssão jovial, como se dissesse às pessoas que estacionavam na paragem:"Que bela manhã, não é verdade? Não reparem na mala... Tem roupa e não pesa nada." As pessoas anotaram,decerto,que havia ali mais um concorrente aos lugares vagos no carro, e não repararam mais naquele moço franzino e mal vestido, cujos olhos brilhavam, inquietos, sob o chapéu derrubado.
(...)

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Sonetos Preversos



Joaquim Pessoa




Decerto sabes. De certos lábios
se aprende mais, talvez, a não falar.
É tolo escrever versos com os lábios
quando se pode, apenas, repirar.

Bom dia! Isto sim, é uma aresta
de qualquer verso a mais num telefonema.
As rugas são a pauta que há na testa
se ainda não é desta que o poema

irá morder a língua, irá calá-la
até que outra palavra se derrame
e possa transformar silêncio em fala.

Então, é ver a coisa mais infame:
o riso é como o estoiro de uma bala
e as palavras aplaudem o vexame.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Passagem de Fronteira


António Gomes Bonifácio

Hoje cumpro mais um aniversário e estou triste.Estou triste,porque coisas, fora do meu controlo, aconteceram sem uma explicação,sem uma "nota de culpa". Nada. Só "porque me apetece"(sic).
Assim, hoje, coloco aqui um apontamento de um livro não publicado em papel mas, eu sei, o autor não se importa: nem que seja aqui colocado, nem que não tenha sido publicado em papel.

NU


Eu estou nu
E me sinto nu.
Nu de ideias,
Nu de amizades,
Nu de tudo... Nu de tudo.
Eu estou nu
E me sinto nu.
Nu de crenças,
Nu de perspectivas,
Nu de tudo... Nu de tudo.
Deste ar que me envolve,
Desta areia,
Deste mar,
Desta vida.

domingo, 9 de setembro de 2007

As Intermitências da Morte



José Saramago




«No dia seguinte ninguém morreu».Assim começa este novo romance de José Saramago.Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.


domingo, 2 de setembro de 2007

Viagens na Minha Terra


Almeida Garrett



O Vale de Santarém é um destes lugares preveligiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego de espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência.


( ed.Sá da Costa,1954,pag 73 )