quinta-feira, 13 de março de 2008

Poe-Mas Com-Sentidos



Wanda Ramos



Domingo



Escandir então o silêncio se tardas a avizinhar-te do meu mundo e me entretenho meticulosa com as palavras, atenta entretanto aos teus passos à persistente tossezinha ecoando no túnel das escadas? para trás ficaram uma a uma todas as parcelas do dia, domingo de manhã tão extenso o sono recusa de acordar, que se somaram tantas horas de querer dormir mais um longo da semana e ter de voltar à vida.

terça-feira, 11 de março de 2008

Máscaras de Silêncio



Maria Vitorino



Monólogo para um Encontro



(...)
vais mal, não é por aí !
Nem voes
nem fujas
nem tentes,
que o dever
não é parar, é correr
é fugir para que não sinta
so cansaço da vertigem
na espiral de mil promessas
onde lançaste e perdeste
o que negas ou confessas !

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Selva



Ferreira de Castro




Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H.J. que teciam nas fábricas inglesas, o senhor Balbino, com o chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazonia" mais rabioso do que nunca. Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento de tabaréus receosos das febres amazonenses (...)

sexta-feira, 7 de março de 2008

Ema



Maria Teresa Horta



Ela olha em frente, sentada na sua cadeira de balouço: palhinha e madeira baça, lisa, onde passeia os dedos a deslizarem suaves; as unhas levemente a arranharem, mas só no gesto brando, prudente, não vá ficar alguma marca.
"Prudentemente. Não vá ficar alguma marca da tua passagem por aqui. Algum vestígio".

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os Gatos



Fialho de Almeida



A Crise Teatral e seus factores



Com a abertura do novo Coliseu de Santo Antão, tornaram-se aflitivas as condições de existência dos nossos teatros, elas que já estavam singularmente críticas pela concorrência que o Coliseu da Rua Nova da Palma lhes movia. Por mais que esses pobres proscénios anunciem em cartazes de dois metros, os seus melhores trabalhos de comédia e drama, o público evidentemente desinteressa-se, deixa-lhes a sala às moscas, e corre a aplaudir as feras e os homens elásticos dos dois circos.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Sacrifício de Dama





João Aniceto






Nesse sábado de manhã, a capital não parecia mais insuportável do que costuma ser, e eu aproveitei a aberta para visitar um conhecido alfarrabista situado nas Escadinhas do Duque. A tentação de descobrir mais uns livrinhos policiais para preencher os espaços vazios da minha biblioteca da especialidade aguçara-se ainda mais com a perspectiva de ter de aturar a solidão de longas horas molhadas naquelas férias de um Verão serôdio.

sábado, 1 de março de 2008

Breve Interpretação da História de Portugal



António Sérgio



(...)

A vida de Afonso Henriques, chefe guerrilheiro, decorre em lutas com Leão e os Sarracenos. Foram com estes as mais importantes. Na zona em que os seus territórios tocavam o dos infiéis tinha os templários do Castelo de Soure, que defendiam, arroteavam e colonizavam a Alta Estremadura; e a seguir o Castelo de Leiria, que o rei começou a edificar em 1135. Foi este destruído pelos Sarracenos em 1137, e os cristãos desbaratados em Tomar. Afonso Henriques acorreu, e derrotou o inimigo na primeira batalha que recebeu o nome de Ourique, a qual se travou, provavelmente, nas chãs de Ourique, a 2 Km do Cartaxo (25 de Junho de 1139).

(...)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Nomes Próprios






Ana Belo


Nada nos pertence mais do que o nome. Beleza, dinheiro, empregos, cargos, situações, casas, amores, tudo passa, tudo se modifica. E até mesmo quando deixamos de existir é apenas o nosso nome que fica gravado.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O Livro Branco da Melancolia




José Jorge Letria





Onde a Escrita não ousa chegar




(...)
Nem nos quadros, na exaltação das cores,
encontrei quem enfrentasse o sofrimento
com esta paz, com esta laboriosa esperança.
Este sofrimento já se apoderou
de muito do que eu amava,
sem consentir pactos nem tréguas.
(...)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Hamlet



Williams Shakespeare



(...)

Hamlet - Sim, é costume. Mas embora eu tenha nescido neste país e esteja habituado a isto, parece-me que seria mais decoroso quebrar o costume do que mantê-lo. Tais excessos, que embrutecem o entendimento, difamam-nos aos olhos das outras nações, do Oriente ao Ocidente. Chamam-nos ébrios, mancham-nos o nosso nome com esse apodo afrontoso, e na verdade ele só, por mais que tenhamos em alto grau outras qualidades boas, basta para empanar o brilho da nossa reputação.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O Rei Lear



Williams Shakespeare



(...)

Lear - Estás a recordar-me uma ideia que já me havia ocorrido. De facto tenho notado, desde há pouco tempo, certo excesso de negligência e frieza. Mas procurei repelir essa suspeita, como efeito de uma imaginação demasiadamente desconfiada, e não quis tomar essa negligência aparente como indício de grosseria e atitude premeditada. Pensarei detidamente nisso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Romeu e Julieta



Williams Shakespeare



(...)

Julieta - E que mais desejaria eu, senaão que o fosses? Mas teria receio que as minhas carícias te matassem. Adeus, adeus! Triste é a ausência, e tão doce a despedida que não sei como arrancar-me das grades desta janela.


Romeu - Que o sono descanse nos teus doces olhos, e a paz na tua alma! pudesse ser eu sono, pudesse eu ser a paz em que adormece a tua beleza!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Vamos falar de Cinema



Garcia Escudero



Existe a sétima arte; a oitava arte, diz-se, é a de fazer dinheiro com a sétima. Esta fábrica de sonhos que é o cinema interessa às massas e converte-se imediatamente num negócio são. Os seus inventores, os irmãos Lumière, não o souberam ver. Quando Méliès quer comprar-lhes o seu invento, desiludem-no: "Não se vende, jovem, e agradeça-nos. À parte o seu interesse cientifico, não tem nenhum interesse comercial.". Méliès não acreditou neles, mas quando produz o sua "Viagem à Lua", que tem um comprimento de 280 metros, confessa que devia parecer louco (os filmes correntes não passavam de 60 metros). Mas Méliès não era comerciante: o seu filme deu muito dinheiro mas não a ele, que nem sequer o amortizou. (...)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

António Gedeão


Poesias Completas




Teatro do Mundo-1958



Fala do Homem Nascido


Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

(...)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Nosso Amargo Cancioneiro


José Viale Moutinho





Queixa das Almas Jovens Censuradas



Natália Correia


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raizes, hastes e corola



dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

(...)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

As Origens do Fascismo



Robert Paris




O Autor :
Especialista francês do período fascista da história italiana. Começou a publicar, em 1962, a sua Histoire du Fascisme en Italie, de que saiu apenas o primeiro volume. É também autor de prefácios aos livros La Révolution Russe, de Rosa Luxemburg, e Sept Essais d'Interpretation de la Realité Péruvienne, de José Carlos Mariategui. Foi colaborador da revista Partisans, editada por François Maspero.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Agora e na Hora da sua Morte



Luis Filipe Costa






Passaram uns anos, eu já andava em Económicas, ía de eléctrico, não tinha carro, e um dia, quase a chegar ao Conde Barão, era muito cedo,as aulas começavam às oito, ía a estudar e de repente olhei pela janela e vi-a. Estava ali na paragem. O carro começou a andar e eu naquela coisa, desço, não desço, não desci.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Os Vagabundos




Maximo Gorky



Soprava do lado do mar um vento húmido e frio que espalhava, através da estepe, a melancolia pensativa da vaga que quebrava o seu ímpeto na margem, e o murmúrio das árvores na costa. Por vezes rajadas de vento traziam até ao braseiro folhas secas e amarelas reanimando a chama; a bruma nocturna do Outono estremecia à nossa volta e por vezes afastava-se durante um segundo, como que assustada, deixando ver à esquerda a estepe sem limites, à direita o mar infinito e na minha frente a silhueta de makar Tchudra, o velho cigano: vigiava os cavalos do seu campo, que se estendia até cerca de cinquenta passos de nós.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Terras




Vasco Pereira da Costa




Saudação a John Steinbeck



Califórnia - paraiso a leste
do meu lado esquerdo
europeu e agreste.

Em Salinas porém ao meu alcance
a ira possível à vista dos vinhedos
pelo poder de um romance.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A Máscara e o Rosto



José Calema



Poeta






Um homem perdido na bruma
duma madrugada sem sol
ergue o estro
e verseja coisas sem nexo
e sem rima.
No seu espírito
há virgens e prostitutas
em haréns hipotéticos
esperando...
- o quê?...
Talvez a vida ou... Nada !

sábado, 9 de fevereiro de 2008

D.Quixote de la Mancha




Miguel de Cervantes







Lavanta-te, senhora minha, pois não é justo que esteja ajoelhada a meus pés aquela que eu tenho na minha alma. Se até agora não tenho demonstrado a verdade do que acabo de dizer, talvez tenha sido por vontade do céu, a fim de que, ao ver a fé constante com que tenho sido amado por ti, saiba melhor e mais completamente amar-te e estimar-te no alto grau que mereces.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A Memória de Ver Matar e Morrer


João de Melo




Estas coisas sucediam na guerra e na paz podre dos dias e do tempo que não ía mudar ainda na nossa vida. Preso nas entranhas de uma revolta sempre muda, o velho Loneque ía metendo as unhas em sua perna inchada de doença, onde que a pele começava já a estalar um pouco em toda a parte uma comichão que apetecia rasgar e ferir, mesmo sem importar no sofrimento que daí viria depois. Falava então na sua voz fatigada, do fundo e do principio da alma, como quem estava a rezar no Deus esquecido de seu sofrimento:
- Aiuê! Chatice bem danada esta guerra num tem fim...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A Morte do Palhaço



Raul Brandão








... Viu-se então um trapo negro, bordado a cores escarlates, vir de cima, lá do alto do circo, e com todo o ruído das bexigas de porco, que prendia na túnica, o Palhaço estoirou na arena, grotesco até na morte...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Palavras Cínicas



Albino Forjaz de Sampaio


Foi em Dostoiewsky que eu encontrei um dia esta frase:"No fundo de cada um dos nossos contemporâneos residem latentes os instintos dum carrasco!"
Não tens tu encontrado, ó caricato, nas tuas horas de angústia, somente semblantes frios, corações empedernidos e ouvidos cerrados? Quantas vezes perguntaste onde estavam a Bondade humana, a justiça humana? Quem te respondeu? Inútil pergunta.
Ninguém.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Este Livro que vos Deixo



António Aleixo



Mote

Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão;
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.

Glosas

Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos...
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas...
Se elas são p'ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A Divina Comédia





Dante Alighieri







(...)

Depois que no rosto de certos fixei os olhos,
nos quais o doloroso fogo cai,
não conheci nenhum; mas notei

que do pescoço de cada um pendia uma bolsa,
que tinha uma certa cor e certo sinal,
e os seus olhos aprasíam-se em comtemplá-las.

E como eu errava entre eles olhando,
vi uma bolsa de ouro com um campo azul,
que de um leão tinha a forma e atitude.
(...)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Adivinhação do Azul


José Jorge Letria

Prémio de Poesia Florbela Espanca-1984



Propriedades do Silêncio





O desabafo tem no papel
as propriedades singulares do silêncio:
é inaudível e branco,
exibe uma quietude exasperante
como se pretendesse abafar
com mágico engenho
e sapiência antiga
o que é o desabafo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A Evolução do Pensamento Humano


M. Siderov



O Homem... Que admirável conceito! Que nobres sugestões nos evoca!... Quantas vezes ouvimos expressões deste género! Apesar disso, talvez ainda não tenhamos respondido à pergunta: mas afinal o que é o Homem? Como é, e como deverá ser?

Existem no homem muitas qualidades excelentes. Beleza e força, audácia e bondade, sentimento de camaradagem e entusiasmo pelo trabalho, tudo isto lhe é característico. Mas se perguntarmos o que o distingue da natureza, muitas pessoas, sem dúvida alguma, responderão: o entendimento. E terão razão.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Gaibéus


Alves Redol




- Eh, gente!... Eh!, mãos de lama!... Essas foices que não morram!...
- O patrão vai dizer das boas, se botar cá arriba!...
Os ceifeiros, tangidos pelo agulhão daquela ameaça, buscam novos reforços para aligeirar a faina. Fincam os dentes para abafar a fadiga que lhes abala os peitos abertos, mas a tosse estala-lhes como um eco da moínha que começou suave na ponta dos pulmões e foi alargando, pouco a pouco, até lhes tomar todo o corpo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Poesias Inéditas

Fernando Pessoa

Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.


Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.

domingo, 27 de janeiro de 2008

As Pedras Negras


Gastão Cruz


O Que Depois



O que depois
viera transformara
a lei dos sentimentos e somente
em chamas
era o corpo da tarde celebrado

Viver foi isto a rapidez dos
dias uma canção trazida
pelas ondas do sangue
a esperançado corpo uma respiração
igual à das estátuas

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Príncipes de Portugal


Aquilino Ribeiro


Leonor Infanta de Portugal e Imperatriz da Alemanha



Das quatro filhas que teve D.Duarte, a seguir a Filipa que morreu de peste, vinha Leonor, nada em 1447, tida por magnifica de carácter e graciosa de maneiras. Em verdade, mal chegou à nobilidade, começou a ser requerida dos prícipes da cristandade, entre os quais (...)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Docas Secas


Bernardo Miguel Fernandes



Quando tocou a sirene, estavam nos seus postos. Hoje, continuavam a utilizar a suta que lhes permitia pingar duas peças de aço na posição exigida pelo desenho. Seiça ajeitava-se melhor, mas o Ferrão, cuja menor ferramenta que manejara fora o machado de lenhador nos pinheirais do norte, mostrava dificuldades e falta de paciência.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Antologia Panorâmica do Conto Açoriano


João de Melo



Os Pêssegos da Vida


Carlos Wallenstein



Entre eles a harmonia era completa, não tinha lacunas. Todas as horas do principio, forças antigas que se debatiam e a que outros homens chamavam posse, instinto, domínio, se foram a pouco e pouco anulando e chegaram a uma postura de verme e concha ou talvez de matéria permanentemente interpenetrada.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Contos


Fialho de Almeida

(Edição de 1923)



Já naquellas idades, que uma alegria embebeda de exuberantes e puras phantasias, armavamos panellinhas de tres, quatro e cinco, para a brincadeira. Succedia ás vezes, que essas pequenas sociedades eram surprehendidas pelo mestre em pagodes reaes. Levavam todos com a regoa ou iam de joelhos todos, conforme.

domingo, 13 de janeiro de 2008

E Aconteceu um Desastre

Não! Não é o título de um livro. Foi o que efectivamente aconteceu: um crash total com perda de todos os dados do computador, com a agravante de que, o último backup fora feito no início do verão. Isto está um pandemónio inenarrável; não sei por que ponta hei-de pegar nesta coisa... a pouco e pouco vou tentar recolocar tudo como dantes. Agora é que eu vou "stressar".

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Darwinismo Hoje


F. Chapeville; P.P. Grassé; F. Jacob; etc.



Na ciência, como noutros domínios, o precurso das ideias não é linear. Aparecem, desaparecem, para tornarem a aparecer sob outras formas. Reagrupam-se para dar origem a teorias que terão mais ou menos êxito, maior ou menor longevidade. Algumas conseguem com bastante rapidez um consenso favorável, como por exemplo a Teoria da Relatividade. Outras acabam por ser mais ou menos geralmente rejeitadas, como, por exemplo, a teoria genética de Lysenko. Mas outras provocam intermináveis debates e dividem a comunidade científica. A evolução e os seus modelos explicativos encontram-se nesse último caso. Especialmente o Darwinismo continua a ser objecto de acesa discussão. Em que ponto estamos hoje? Como é que o Darwinismo chegou até nós? (...)

domingo, 30 de dezembro de 2007

Maria Moisés


Camilo Castelo Branco



(...)Nas férias da Páscoa, António de Queirós viu chorar Josefa. Não eram lágrimas de amante magoada, nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe. Entrara-se de uma terrível vergonha e confusão. Ninguém a suspeitava; e ela, se alguém a encarava a fito, estremecia. A mãe era cruel como as mulheres manchadas. No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. Dava-lhe esse direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram,(...)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A Semente das Palavras



Colectânea de Contos -Vários Autores


Do Conto "O Embargo"
de José Saramago


Acordou com a sensação aguda de um sono degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher se esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse voltar a adormecer já, acabaria por ter o dia estragado.




sábado, 22 de dezembro de 2007

Cântico de Natal

Charles Dickens


A fogueira estava realmente muito baixa. Era uma coisa de nada numa noite tão agreste. Foi, por isso, obrigado a sentar-se quase enconstado a ela e a espevitá-la antes que esse pedaço de combustível conseguisse extrair o mínimo de calor. A lareira era antiga e tinha sido construída há muito por um negociante holandês que a decorara em volta com graciosos azulejos holandeses que pretendiam ilustrar as Escrituras. Havia Cains e Abéis, as filhas do faraó, raínhas do Sabá, mensageiros angélicos pairando no ar em nuvens que se assemelhavam a camas de penas,(...)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Odisseia


Homero

Adaptação por João de Barros



Os Gregos eram ricos e gostavam de ser ricos. Mais estimavam, porém, a beleza. E por isso Helena, esposa de Meneleu, rei de Esparta, que era a mulher mais linda da Grécia, e cuja formusura deslumbrava o Mundo inteiro, resguardavam-na como tesouro sem par. Assim, ficaram indignados e furiosos no dia em que os Troianos, -povo do outro lado do mar que banha as costas ocidentais da Grécia - ciosos de tal fortuna, roubaram Helena e, com ela, ouro e prata aos montões.(...)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João Vêncio: os seus amores



José Luandino Vieira



Pois todo o dia ele desaparecia. Só regressava à noite, piruta. Bêbado piruta e então chamava a mulher e dava-lhe uma sova de surra. Batia com o mesmo jeito, o mesmo ritmo de pancadas de manhã, no malho dele. Ninguém ia separar: todos tinham vergonha, nenhum tinha coragem. A gente não queria estragar o que a gente pensava dele em todos dias do ano menos um. Eu então não dormia quase, de noite. Mas não era a pena da senhora, a raiva no Diodato - ele era manso, bolvexique, amigável.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Português que nos Pariu



Angela Dutra de Menezes


A batalha de Aljubarrota, que fixou as fronteiras portuguesas com a actual Espanha, criou duas dinastias: a de Aviz e a de Bragança. A primeira, logo entronizada, encerrou uma confusão familiar que extrapolou um tempinho para alcançar a coroa. Em compensação, tornou-se a casa real brasileira. Genuinamente brasileira: metade é conservadora; a outra metade, surfista - aí, xará, maior crowd e "seu" príncipe no meio.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Velho e o Mar



Ernest Hemingway



O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.
O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia e os seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.
- Boa sorte, meu velho.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Cântico do Homem


Miguel Torga


S.O.S.


Vai ao fundo o navio,
Mas eu sou o homem da telegrafia,
O que lança nas asas do vazio
O adeus da agonia...


Sei que ninguém acode à íntima certeza
De que tudo acabou quando naufraga
O veleiro do sonho.
Mas honrado poeta sinaleiro
Do destino de quantos aqui vão,
Ponho
A correr mundo o grito derradeiro
Da nossa desgraçada perdição.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Estrela de Seis Pontas


Manuel Tiago



Naquela rua animada por intenso movimento de carros e peões, estendia-se ao longo do passeio uma vistosa fachada com belos torreões e numerosas janelas circundadas de pedra branca. O edifício prolongava-se para um lado e para o outro por um alto muro bordado de ameias da mesma pedra. À primeira vista dir-se-ía o antigo castelo de um grande senhor, sugerindo, para lá dos muros, a frescura de parques e jardins. Alguns pormenores destoavam porém dessa primeira impressão. As janelas, ainda que de elegante recorte, eram gradeadas (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A Eneida


Virgílio

Livro Primeiro

Eu, que noutros tempos entoei cantares ao som de leve flauta, e que deixando as selvas obriguei os campos vizinhos a obedecerem ao lavrador, mesmo sendo ele avarento, obra grata aos agricultores, canto hoje as terríveis armas de Marte e o varão que, fugindo das margens de Tróia devido ao rigor dos fados, foi o primeiro a pisar as costas de Itália e as costas lavínias. Largo tempo andou errante por terra e por mar, arrastado pelos deuses, pelo furor da rancorosa Juno. Muito padeceu na guerra antes de conseguir edificar a grande cidade e levar os seus deuses ao Lácio, de onde vem a linhagem latina e os senadores Albanos, e as muralhas da soberba Roma.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O Mundo do Fim do Mundo



Luis Sepúlveda



(...)

Também o Moby Dick se encontrava em reparações e, logo que saísse da doca seca de Bremen, rumaria ao Atlântico Norte para impedir a caça de baleias praticada por noruegueses, suecos, dinamarqueses, islandeses, norte-americanos e russos em embarcações camufladas sob bandeiras de países pobres para violarem as leis internacionais com maior impunidade.(...)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Eu Canto para que os Desertos Fiquem à Sombra

Autor Desconhecido


(Letras de canções de intervenção,publicado sem censura prévia da PIDE)



Margem Sul

Letra - Urbano Tavares Rodrigues
Música - Adriano Correia de Oliveira



Ó Alentejo dos pobres
Reino de desolação
Não sirvas quem te despreza
A tua, a tua, Nação.

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústias em botão
Ver cerrada em Baleizão

Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.

Foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A Velhice do Padre Eterno




Guerra Junqueiro





Quanta mulher formosa aí nesses balcões!
Que lindas tentações,
Meu pálido judeu!
Deixa por um instante as regiões serenas;
Namora essas pequenas,
Que elas hão-de gostar do teu perfil hebreu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Patagónia Express


Luis Sepúlveda



Em meados de Março os dias tornam-se mais curtos e no Estreito de Magalhães entram fortes ventos do Atlântico. É o sinal para que, os habitantes de Porvenir, revejam as existências de lenha e observem melancólicos o voo das abetardas que vão da Terra do Fogo até à Patagónia. Pensava continuar viagem até Ushuaia, mas informaram-me que as últimas chuvas cortaram o caminho em vários troços e que não serão reparados até à Primavera.
(...)