quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Cem Obras-Primas da Pintura Europeia





Editorial Verbo



Do Séc XIII aos nossos dias, cem mestres da pintura europeia se acham incluídos nesta antologia, através da reprodução de uma das suas obras mais representativas, acompanhadas de uma breve nota biográfica e de um curto comentário à sua actividade artística. Pequeno "museu Imaginário" que a todos será grato percorrer, nele encontrará cada um de nós aquela satisfação que toda a obra de arte nos proporciona.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A Viagem de Pedro o Afortunado




(na mesma obra: A Menina Júlia e Amor Maternal.

Augusto Strindberg


Acto 1
Na torre da igreja


O patamar de um piso da torre. Ao fundo, janela aberta pela qual se vê o céu estrelado e os telhados das casas cobertos de neve. Em frente, janelas e, mais acima, clarabóias, de águas-furtadas, todas intensamente iluminadas. Um cadeirão velho, uma mesa, uma braseira e uma imagem de Nossa senhora, pendurada na parede e iluminada por uma vela. No centro da divisão uma grande quantidade de vigas que sustém os sinos. Dois dos suportes são tão grossos que podem ocultar uma pessoa.

domingo, 24 de agosto de 2008

Anunciação





Bernardo Santareno



Cena VI

Chiquinho

(Entra com a água.) Quem é...?! Desculpa, Sibila, mas primeiro que me dessem a água!... A Rosa estava no meio da escada do sótão, de conversa com... com umas pernas de homem, que foi a única coisa que eu consegui ver! Quem é ele?!... Toma lá, bebe...! A outra, a velha -Guilhermina, não é? - coitada, pra mexer os pés... Mas quem é o dono daquelas pernas? Bebe, Sibila!?...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Um Século de Histórias





António Marinho,Fernando Cardoso e Luis Areal Rothes



Thomas Andrews fumava despreocupadamente o seu charuto no convés principal do Titanic, enquanto os acordes da orquestra animavam os passageiros da primeira classe. De costas para o mar e apoiado na amurada do barco, apreciava, orgulhoso, a sua grandiosa obra. Não hesitara, nem por um momento, ao receber a proposta da White Star Line para construir o maior navio do mundo. E em apenas quatro anos, mais de 11300 trabalhadores tornaram aquele sonho possível.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Fisiologia do Casamento





Honoré de Balzac



"O casamento não deriva da natureza. - A família oriental difere completamente da família ocidental. - O homem é o ministro da natureza, e a sociedade vem enxertar-se nela. - As leis são feitas para os costumes, e os costumes variam. - O casamento é pois susceptível do aperfeiçoamento gradual a que todas as coisas humanas parecem sijeitas."
Estas palavras, pronunciadas por Napoleão perante o Conselho de Estado, quando se discutiu o Código Civil, impressionaram profundamente o autor deste livro; e talvez sem dar por isso, lançaram em seu espírito o germe da obra que hoje oferece ao público.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Historia de la Filosofía




Prof. Ernst von Aster



La redencion

Poco a poco este eterno retornar de via y muerte, este interminable ciclo de nacimientos en su "desdichada infinitud" (según expressión de Hegel) se convierte en el modelo de una existencia sin finalidad, sin objectivo, sin sentido; se convierte en una existencia de Sísifo, de la que el hombre ansía ser redimido.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os Anjos e o Sangue





Bernardo Santareno


(...)
Fernando
(Troça onde se há-de sentir uma certa raiva.) Parece? E tu, Rosinha?... Tu danças bem?... (Tenta sincronizar, em ritmo de mambo, o o som que os seus dedos tiram de duas caixas de conserva, com o ruído que fazem as gotas da chuva caindo em duas ou três latas, postas no pavimento, nos sítios onde o tecto da igreja mete mais água. Armando e Carlos agitam logo os corpos, à cadência da música. João quieto.)
Anda daí, Rosa Tatuada!... (Fernando e Carlos dançavam comicamente.)
(...)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O Jogador





Dostoievski



Pelos cálculos de Potapich, a avó perdeu nesse dia, ao todo, noventa mil rublos, sem contar com o dinheiro que ganhara na véspera. Todos os títulos de cinco por cento, dos empréstimos ao tesouro, todas as acções que levava consigo, tudo tinha trocado, uns atrás de outros. Mostrei-me admirado que tivesse aquelas sete ou oito horas sentada na cadeira de rodas, quase sem se afastar da mesa, mas Potavich esclareceu-me que houvera três vezes em que, efectivamente, começara a ganhar muito, mas que, arrastada de novo pela esperança, não tinha sabido retirar-se.

sábado, 9 de agosto de 2008

Teatro - O Tartufo





Molière



Cena 1
A Senhora Pernelle, seu criado Flipota, Elmira, Mariana; Dorina, Damis e Cleanto


Senhora Pernelle - Vamos, Flipota, vamos, que me quero livrar deles.
Elmira - Anda tão depressa que é dificil segui-la.
Pernelle - Deixe, nora, deixe e não me acompanhe mais adiante; não é necessário tanta cerimónia.
Elmira - Justo é cumprir-se aquilo que é devido. Mas porque anda tão depressa, minha mãe?
Pernelle - Acho insuportável ver como se governa esta casa, onde ninguém pensa em agradar-me. Muito pouco satisfeita vou. Todas as minhas lições são postas de lado;não se respeita nada; todos falam aos gritos; isto parece a corte do rei Pétaud.
Dorina - Não obstante...
Pernelle - És, minha amiga, uma criada um tanto maldizente e muitíssimo impertinente, amiga de te intrometeres e dares o teu conselho em tudo.
(...)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Quarto Planeta




João Aniceto



Cada um tem a sua verdade. A cada um a verdade que necessita. A cada um a verdade que o satisfaz.
E os homens sempre procuraram a verdade.
Ao longo dos vários caminhos que nunca mais acabam, tantas vezes apenas estreitos carreiros, cada homem foi encontrando a sua verdade e tentou impigi-la à espécie.
Alguns conseguiram-no.
Outros, frustrados, arrecadaram-na depois de impotentemente a terem tentado espalhar.
Outris ainda, guardaram-na para si próprios, narcisicamente a acarinharam e, no mais íntimo dos seus segredos, preservaram-na da forma mais sovina e alarve que encontraram.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Os Vagabundos





Maximo Gorky




Mantinham-se num silêncio melancólico. O meridional enrolava um cigarro e olhava para os pés. Mateus ficou de repente atrás de toda a gente; os outros começavam a regressar aos carros, coçamdo-se sem dizerem nada. O capataz avançava para o grupo, vociferando e ameaçando com os punhos. Tudo aquilo se tinha passado tão depressa que as mulheres que rapavam a duas dezenas de passos e que, como o notei, se tinham precipitado ao meu grito, só se aproximaram no momento em que os homens já se dispersavam para regressarem aos carros.Fiquei sozinho, com a sensação amarga de vexame imerecido e impune que só servia para reforçar a dor.Queria obter uma resposta às minhas interrogações e tinha sede de vingança. Gritei-lhes:
- Alto! Parem aí !

quinta-feira, 31 de julho de 2008

As Invasões Bárbaras





Pierre Riché


Para um habitante do mundo romano, o Bárbaro é um homem que fala uma línguagem imcompreensível e cuja civilização é ainda primitiva. Se certos povos, como os persas Sassânidas, por exemplo, escapam a essa categoria, todos aqueles que Roma teve de conter, sem poder absorvê-los -montanheses e nómadas de África (Afri barbari ou barberes), Blémies e Árabes dos desertos orientais, Alanos do mar Negro, ou Celtas da Bretanha-, constituem os "Bárbaros" e ameaçam mais ou menos o mundo civilizado.

domingo, 27 de julho de 2008

Os Noivos





Alexandre Manzoni


(...)
A certa altura ouviu um ruído e percebeu que se tratava do roncar lento e acatarrado da velha. Abriu os olhos e viu uma claridade frouxa que aparecia e desaparecia alternadamente. Era a lamparina, prestes a apagar-se, que irradiava uma luz trémula e apresentava os objectos de um modo confuso e desordenado. O silêncio que a rodeava, o sossego em que a tinham deixado,infundiam em Lúcia novos terrores, tão grandes que chegou a desejar a morte. Mas nesse instante lembrou-se de que podia rezar e esse pensamento causou-lhe um certo consolo.
(...)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Textos Filosóficos






Karl Marx



A questão sobre a natureza da propriedade existente, a propriedade burguesa moderna, só se poderia responder por uma análise crítica da economia política, abarcando a totalidade dessas relações de propriedade, não na sua expressão jurídica enquanto relações de vontade, mas sim na sua forma real, ou seja, enquanto relações de produção.

terça-feira, 22 de julho de 2008

A Hereditariedade Humana




C. O. Carter



Na generalidade, os filhos parecem-se com os pais. Isto é muitas vezes mais evidente para as outras pessoas do que para os próprios progenitores. Um médico de família, mais ainda, um especialista em crianças, que, durante horas de trabalho, quer no consultório quer em consultas domiciliárias, observa uma série de mães e filhos, é contantemente impressionado por estas semelhanças dos traços fisionómicos, da constituição física e dos hábitos.

domingo, 20 de julho de 2008

O Meu Nome é Aram




William Saroyan


Andava eu na terceira classe, na Emerson School, quando o departamento escolar decidiu um dia rever certas coisas.
Ía dos meus oito anos a caminhar para os nove ou, quando muito, dos nove a caminho dos dez, e tinha bom coração.
Naquele tempo, o departamento escolar não costumava preocupar-se por aí além com as crianças de qualquer cidadezinha, e se alguma delas dava mostras de estupidez os peritos achavam aquilo normal e as coisas ficavam por ali.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Fly






Joaquim Pessoa







Fly: defendo-me de ti e adormeço
in louco, embriagado, allegro andante,
cheio de sangue e chuva, neste quarto
que me azulou os olhos de castanho;
estou frio como as ervas - e defendo-me
da fome que em teu útero me aquece:
a memória dos ossos de onde venho
e que nas feridas do corpo se abastece.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O Pasado Remoto




Giobanni Papini



Aquela noite de maio de 1887 foi para mim verddeiramente memorável. O meu pai e a minha mãe vestiram-se melhor do que era costume, pegaram-me na mão e saíram comigo. Acontecimento estranho, pois que à noite nunca se saía, excepto umas duas vezes, pelo carnaval, para ir ao Teatro Rossini, em Borgognissanti, ou ao Teatro Àlfieri, na Vila Pietrapiana -ambos desaparecidos-, para ver as comédias de Stenterello.
As ruas tinham mais gente que habitualmente, mas como sempre, estavam quase às escuras (...)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Papá Goriot




Honoré de Balzac


Os seus hábitos limitavam-se ao passeio depois de almoço, regresso para jantar, desaparecimento durante o serão e regresso a casa cerca da meia-noite, graças a uma chave que lhe confiara a senhora Vauquer. Só ele gozava desse previlégio. Mas também dava-se o melhor possível com a viúva, a quem chamava mamã, enlaçando-a pela cintura -lisonja essa mal compreendida! A boa mulher julgava a coisa ainda fácil, embora só Vautrin tivesse braços suficientemente compridos para abarcar toda aquela vasta corpulência.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O que é a Música?




Valls Gorina


A ordenação sonora a que chamamos música nasceu e existe só para e em função do ouvido. Estas afirmações, que, pela sua elementar simplicidade, parecem verdades de Lapalice, adquirem nova dimensão de formularmos as mesmas perguntas com o verbo "escutar". A música nasce e existe para ser escutada? A finalidade primordial da música é a de ser escutada?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Segredos da Vida Mental




José Luis Pinillos



Todos os organismos sabem como se hão-de conduzir; mas nenhum deles tem que inventar a sua vida, como rigorosamente o homem tem de o fazer.
Quando os antropologistas definem o homem como um ser de carências, isto é, como um ser que justamente criou tudo porque nada tem, ou quando a filosofia existencial afirma que o homem é forçado a ser livre, não nos encontramos em presença de paradoxos artificiais: na realidade, ambas as afirmações contêm uma profunda verdade.

domingo, 6 de julho de 2008

Our Man in Havana




Graham Greene


Drawing a cheque is not nearly so simple an operation in an American bank as in an English one. Americam bankers believe in the personal touch; the teller conveys a sense that he happens to be there accidentally and he is overjoyed at the lucky chance of the encounter. 'Well,' he seems to express in the sunnywarmth of his smile, 'who would have believed that I'd meet you here, you of all people, in a bank of all places?'

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Uma Noite na Toca do Lobo




Tomaz de Figueiredo


Embora todo propangandista de Victor Hugo (Os Miseráveis!... Que obra!...), o senhor comendador Camposa é que havia tomado o Zé de ponta, que lhe tinha este dado em certa ocasião uma resposta muito feia. (tens frio, Zé?) (pois tenho, senhor comendador, que a noite geou...)(Deixa lá, Zé, que deus dá o frio consoante a roupa!)(Isso é aos "probes"...porque aos ricos dá-lhes roupa consoante o frio!)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Introdução à Sociologia



António Lucas Marin


As causas de divórcio são muitas e derivam umas das outras. Pode dizer-se, portanto, segundo o escalão que escolhamos na cadeia das causas, ou que a ausência de filhos produz o divórcio, ou que as cidades são causa dele, ou ainda que o divórcio é devido em parte à invenção da máquina a vapor. Deve contudo recordar-se que há outras variáveis, para além da presença ou ausência de filhos, que estão em relação com o divórcio e nas quais têm também a sua própria cadeia de causas.

domingo, 29 de junho de 2008

Textos Económicos





Karl Marx


Para transformar a propriedade privada e dividida, objecto do trabalho individual, em propriedades capitalistas, foram naturalmente necessários mais tempo, mais esforços e mais sofrimentos do que aqueles que exigirá a metamorfose da propriedade capitalista, que na realidade já assenta num modo de produção colectivo, em propriedade social. No primeiro caso, trata-se da expropriação da massa de alguns usurpadores; no segundo, trata-se da expropriação de alguns usurpadores pela massa(1).

(1)"O progresso da industria do qual a burguesia é o veículo inconsciente, substitui progressivamente o isolamento dos trabalhadores proveniente da concorrência pela sua união revolucionária através da associação. À medida que a grande industria se desenvolve, foge debaixo dos pés da burguesia a própria base sobre a qual tinha assentado a sua produção e a apropriação dos produtos.(...)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Asno de Ouro




Lucius Apuleius



Vou, neste discurso milesiano, contar diversas fábulas cuja narrativa encantará os ouvidos (sic) do leitor, se quiser designar-se de ler este trabalho escrito no estilo faceto dos autores egípcios. Ficará surpreendido com as metamorfoses espantosas de várias pessoas, que mais tarde retomarão a sua primeira forma. Vou começar; mas antes, que o leitor saiba, em poucas palavras, quem eu sou.
A minha família, muito antiga, é originária do...(...)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Guia Prático da Ampliação




Gunter Spitzing



Nunca revelou uma fotografia? Não possui ainda equipamento de câmara escura? Então este primeiro capítulo foi escrito especialmente para si. Vamos falar de algumas técnicas especiais de câmara escura; todas elas com uma agradável característica em comum: custam bastante pouco...

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Guia da Fotografia a Cores




David Lynch



A fotografia a cores é excitante e representa um divertimento e um desafio. Nunca se chega ao ponto de se poder afirmar:"Já cobri todas as possibilidades. Nada mais tenho a aprender". Só se profere algo do género quando se morre fotograficamente, porquanto existe sempre algo de novo para aprender, uma maneira diferente de abordar um assunto, uma nova emoção ao obter um resultado desejado.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Gargântua e Pantagruel




François Rabelais


Prólogo do Autor

Ilustríssimos bebedores! Preciosíssimos siflíticos! (Pois é a vós que dedico os frutos do meu engenho.) Alcibíades, no diálogo de Platão, intitulado O Banquete, ao elogiar o seu preceptor, Sócrates, indiscutivelmente príncipe dos filósofos, disse, entre outras coisas, que ele se parecia com silenas. As silenas eram, na Antiguidade, umas caixinhas como as que hoje vemos nos estabelecimentos dos farmacêuticos, decoradas por fora com figurinhas (...)
Assim -dizia- era Sócrates porque, vendo-o e analisando-o apenas pelo exterior, ninguém daria nada por ele nem uma casca de cebola; (...)

domingo, 15 de junho de 2008

A Lenda




João Aniceto



(...) A haver uma civilização planetária, ela jamais se tinha voltado para o espaço exterior... a haver uma civilização planetária, ela jamais teria evoluído o suficiente para mostrar sinais exteriores da sua existência... a haver vida, ela jamais teria evoluído o suficiente para construir uma civilização.
A nave de investigação e pesquisa Brhavior III era completamente automatizada. Programada para elaborar um relatório completo sobre aquele sistema estelar.(...)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O Arco de Sant'Ana




Almeida Garrett



No intervalo de sossego ou de reflexão que a revolta tinha tido desde que se aquietara às portas da Sé com as promessas de Pato-Guterres, era bem visível agora que ela se tinha estado organizando -quanto é organizável uma revolta- e que se tinha convertido em revolução.
Nascida, como todas as revoluções verdadeiras e conscenciosas, de uma forte, legítima e justa indignação popular, nascida sem parteiras nem comadres, pelo mero e espontâneo impulso da natureza- (...)

sábado, 7 de junho de 2008

A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina




José-Augusto França


(...) As "ruas principais" seriam aquelas que corriam no sentido S.-N., ligando as duas praças, e que receberiam os nomes de "Augusta", a do meio, "Áurea", a sua paralela a poente, e (mais tarde) "Bela da Raínha", a nascente (hoje da Prata), embora só as duas primeiras fossem mencionadas como "ruas nobres"; mas também seria considerada principal uma outra rua correndo transversalmente e que receberia o nome de "Nova d'El-Rei". Era, de certo modo, a antiga e tradicional Rua Nova dos Ferros, disciplinada na nova malha mas ressuscitada, e sempre paralela, afinal, à face norte do Terreiro do Paço, no ponto onde uma rua importante continuava a ser necessária à imagem urbana.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Os Piores Contos dos Irmãos Grim




Luis Sepúlveda e Mário Delgado Aparín


Carta 3

Estimado Professor Dr.Orson C.Castellanos
Mosquitos. Uruguai


Efrégio professor: com grande prazer recebi a sua atenciosa carta que me chegou algo húmida e desbotada por culpa da escandalosa conduta dos cetáceos que insistem em acasalar, chapinhando nas prístinas águas do golfo de Penas. Fazem-no, não com a parcimoniosa reserva que a natureza decidiu para os mamíferos maiores, mas loucamente, freneticamente, e até poderia acrescentar, se me permite, com pertinaz e insistente pouca-vergonha.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Fronteiras




Manuel Tiago


A venda do Valentim situava-se à beira da estrada. Isolado o local, não as relações humanas. Tanto para a Aldeia Velha como para o casario de Palhó, o ponto de referência, o verdadeiro centro da vida local, era Valentim e a sua venda.
Considerado o homem mais respeitado e estimado nas redondezas, e exigente nos compromissos, conseguia dos outros o que deles esperava.

domingo, 1 de junho de 2008

Contos




Hoffmann


A "Fermata"

O quadro alegre e cheio de vida, de Hummel que representa uma reunião numa taberna italiana tornou-se célebre na Exposição de Berlim de 1814, onde esteve patente ao público, causando as delícias de muitos. Um trecho de vegetação luxuriante...; à mesa, duas mulheres italianas sentadas frente a frente -uma canta e outra toca cítara. Atrás delas e entre as duas, vê-se um abade que faz de director de orquestra.(...)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A Opção do Voto




Editor Responsável-António dos Reis


Prefácio

Depois de um longo período em que esteve coercivamente impossibilitado de participar na vida política do País, através da sua expressão mais fidedígna e legítima que é o direito e o dever de votar de todo o cidadão, o povo português será chamado a pronunciar-se directamente para as eleições da Assembleia Constituinte que, em sua representação, elaborará, discutirá e aprovará o texto da Constituição.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

História do Direito Romano




Mário Bretone


Os juristas, para além de escreverem livros, deviam ler; e é natural que não se limitassem a ler os textos dos seus colegas de trabalho. Trebázio Testa, espreitando na biblioteca de Cícero, descobre Os Tópicos de Aristóteles e obriga o seu amigo a explicar-lhos. Sobre os interesses culturais de Tebázio não estamos muito informados; mas os juristas que um século antes se tinham reunido à volta de Pnézio -Manio Manílio, por exemplo, ou Q.Élio Tuberone, o velho- eram seguramente doutos; e um homem cultíssimo era Sérvio Sulpício Rufo. Reconstruir a sua formação intelectual não é (para dizer a verdade) muito difícil.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Didáctica do Teatro





José Oliveira Barata


(...)Apresentada como vocacional disciplina de Teatro, a cumprir-se na totalidade, e em obdiência ao programa proposto, funcionaria como uma ante-câmara de entrada para cursos de Conservatório. Aspectos há que revelam, reflectindo apenas sobre o conteúdo desta disciplina, algumas dificuldades para quem "pensa" nestes domínios, maiores ainda, para quem -os professores- terá que os levar à prática.(...)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A Educação num Portugal em Mudança




Vitorino Magalhães Godinho


O Estado totalitário legou-nos uma escola destroçada. Escola ordenada em função de finalidades obsoletas -a defesa de uma mitologia oficial anacrónica, a inserção numa sociedade ultrapassada, sem liberdade e sem justiça- ou então reduzidas à formação de técnicos necessários ao amontoar de lucros da oligarquia. Quadros docentes numéricamente insuficientíssimos, tremendamente incompletos quanto ao leque das actividades científicas e culturais,(...)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Felizmente há Luar




Luis de Stau Monteiro



Esta peça foi representada pela primeira vez, em antestreia, na sede do CLUB FRANCO-PORTUGAIS DE LA JEUNESSE, de Paris, no dia 1 de Março de 1969, e foi estreada no dia 30 desse mesmo mês no THEATRE DE L'OUEST PARISIEN, também em Paris, pelo TEATRO-OFICINA PORTUGUÊS.
O espectáculo da estreia foi apresentado por este grupo e pela organização LOISIRS ET CULTURE, da RÉGIE NATIONAL RENAULT.

sábado, 17 de maio de 2008

Eugénia Grandet





Balzac



Na vida monótona e pura das raparigas, chega sempre uma hora deliciosa em que o sol lhes penetra na alma com os seus raios, em que uma flor lhes inspira pensamentos, em que as palpitações do coração comunicam ao cérebro a sua fecundação ardente, e fundem as ideias num desejo vago; (...)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Home que Mordeu o Cão




Nuno Markl

Prefácio

Esta é geralmente a parte do livro que é escrita por outra pessoa que não o autor. Geralmente uma figura de renome,(...)
Meus amigos, há que desfazer o mito: todas as grandes celebridades que aparecem a prefaciar obras de pessoas deprimentes como eu, fazem-no porque há dinheiro para lhes pagar. Muitas vezes para lhes pagar só o uso do nome na assinatura. O leitor acha mesmo que há grandes vultos a ouvir O Homem Que Mordeu o Cõ? Se eu encontrasse algum grande vulto disposto a assinar o prefácio deste livro, era provável que ele fizesse apenas isso:assinar o estupor do prefácio. O resto teria de ser escrito por alguém que tivesse, de facto, ouvido alguma coisa d'O Homem que Mordeu o Cão- tipo eu.

domingo, 11 de maio de 2008

O Futuro à Janela



Prémio Caminho de Ficção Científica-1991

Luis Filipe Silva


Sexta-feira, 30 de Abril
Hoje, Paris esteve deserta. Sobrevoou a cidade um gigantesco pássaro de fogo com voz irada, e os habitantes, vendo-o, e mais, sentindo-o penetrar até às camadas inferiores da carne, fugiram do seu bafo; estavam repletas, as ruas e as carreiras públicas de transporte, de gente que escapuliam ao calor para irem ao encontro dos seus refúgios de descanso preditectos, cedo de madrugada.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Han de Islândia




Victor Hugo




(...)Estava vestida de crepe negro e de gaze branca, como se para, de certo modo, indicar à primeira vista que os seus dias decorriam no meio da tristeza e inocência. Contudo, mesmo nessa atitude modesta, denunciava os caracteres de uma natureza singular em todo o seu ser. Os olhos e os longos cabelos eram pretos, beleza esta muito rara nos países do Norte; e os olhos volvidos para a abóboda mais pareciam inflamados por um arrebatado êxtase do que abatidos e lânguidos por virtude de um reconhecimento religioso. (...)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A Emigração Portuguesa





Joel Serrão


Quem nunca se sentiu a mais na própria terra -explica o escritor-, a pontos de ser obrigado a deixá-la e a procurar na distância o calor que ela lhe nega, mal pode compreender o que significa esse golpe na consciencia, essa vergastada no amor-próprio, esse sentimento dorido de todo o filho segregado do lar materno. Os companheiros, ou irmãos até, podem continuar à lareira nativa, a comer o pão nativo. O desgraçado terá de partir, de ir semear noutras leivas o suor que o pátrio chão lhe regeita!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Três Lágrimas Paralelas






Artur Portela




Havia, naquele rosto, três lágrimas paralelas. Suspensas, salientes e simétricas como jóias. E vivas. Como se ela não tivesse acabado de saltar vinte galáxias. Três lágrimas paralelas como três sonhos simultâneos. Absurdamente líquidas, no esquife congelador do transporte.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Criminal Mischief




Paul Chevigny



July 20
With eyes shut, the welfare center became a bare concrete roar of sound, like a subway station with a train coming in far off on another level. Ira had been sitting on the oak bench for an hour, and the sound was gradually beginning to lull him. He opened his eyes. If he started to nod, the guard would come and hassle him, might throw him out of the place. But he new that he would see nothing different from what he had seen during the months he had worked here and the even more months he had come as a client afterward.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Histórias Castelhanas




Domingos Monteiro



Desde Medina del Campo que vínhamos sòzinhos na carruagem, mas só naquele momento reparei que ele trazia nas mãos um pequeno crucifixo que apertava entre os dedos e que, de longe a longe, lavava aos lábios num gesto quase automático, como quem respira o perfume de uma flor ou leva ao nariz, por longo hábito contraído, uma pitada de rapé.

domingo, 27 de abril de 2008

O Vil Metal





George Orwell



Tornou a fazer tilintar as moedas na algibeira. Tinha quase trinta anos e não realizara nada -somente o seu mísero livro de poemas, que caíra tão espalmado como uma panqueca. E, desde então, durante dois anos inteiros, lutara no labirinto de um livro horrível que nõ avançava e, como reconhecia nos momentos de lucidez, jamais avançaria. Era a falta de dinheiro, simplesmente isso, que lhe roubava o poder para "escrever". Apegava-se à ideia como um artigo de fé. Dinheiro, dinheiro, tudo gira à sua volta! Seria possível escrever sequer uma novela de cordel sen dinheiro para encorajar o impulso?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A Origem da Tragédia




Nietzsche


Teremos dado um poderoso contributo para a Estética quando tivermos chegado não apenas à compreensão lógica, mas sobretudo à certeza imediata da intuição segundo a qual a evolução da arte assenta o seu fundamento na dualidade do génio apolíneo e do génio dionisíaco: à semelhança do que acontece com a dualidade dos sexos que vai gerando a vida no curso de uma luta perpétua apenas semi-interrompida por reconciliações periódicas.
(...)