quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Home que Mordeu o Cão




Nuno Markl

Prefácio

Esta é geralmente a parte do livro que é escrita por outra pessoa que não o autor. Geralmente uma figura de renome,(...)
Meus amigos, há que desfazer o mito: todas as grandes celebridades que aparecem a prefaciar obras de pessoas deprimentes como eu, fazem-no porque há dinheiro para lhes pagar. Muitas vezes para lhes pagar só o uso do nome na assinatura. O leitor acha mesmo que há grandes vultos a ouvir O Homem Que Mordeu o Cõ? Se eu encontrasse algum grande vulto disposto a assinar o prefácio deste livro, era provável que ele fizesse apenas isso:assinar o estupor do prefácio. O resto teria de ser escrito por alguém que tivesse, de facto, ouvido alguma coisa d'O Homem que Mordeu o Cão- tipo eu.

domingo, 11 de maio de 2008

O Futuro à Janela



Prémio Caminho de Ficção Científica-1991

Luis Filipe Silva


Sexta-feira, 30 de Abril
Hoje, Paris esteve deserta. Sobrevoou a cidade um gigantesco pássaro de fogo com voz irada, e os habitantes, vendo-o, e mais, sentindo-o penetrar até às camadas inferiores da carne, fugiram do seu bafo; estavam repletas, as ruas e as carreiras públicas de transporte, de gente que escapuliam ao calor para irem ao encontro dos seus refúgios de descanso preditectos, cedo de madrugada.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Han de Islândia




Victor Hugo




(...)Estava vestida de crepe negro e de gaze branca, como se para, de certo modo, indicar à primeira vista que os seus dias decorriam no meio da tristeza e inocência. Contudo, mesmo nessa atitude modesta, denunciava os caracteres de uma natureza singular em todo o seu ser. Os olhos e os longos cabelos eram pretos, beleza esta muito rara nos países do Norte; e os olhos volvidos para a abóboda mais pareciam inflamados por um arrebatado êxtase do que abatidos e lânguidos por virtude de um reconhecimento religioso. (...)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A Emigração Portuguesa





Joel Serrão


Quem nunca se sentiu a mais na própria terra -explica o escritor-, a pontos de ser obrigado a deixá-la e a procurar na distância o calor que ela lhe nega, mal pode compreender o que significa esse golpe na consciencia, essa vergastada no amor-próprio, esse sentimento dorido de todo o filho segregado do lar materno. Os companheiros, ou irmãos até, podem continuar à lareira nativa, a comer o pão nativo. O desgraçado terá de partir, de ir semear noutras leivas o suor que o pátrio chão lhe regeita!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Três Lágrimas Paralelas






Artur Portela




Havia, naquele rosto, três lágrimas paralelas. Suspensas, salientes e simétricas como jóias. E vivas. Como se ela não tivesse acabado de saltar vinte galáxias. Três lágrimas paralelas como três sonhos simultâneos. Absurdamente líquidas, no esquife congelador do transporte.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Criminal Mischief




Paul Chevigny



July 20
With eyes shut, the welfare center became a bare concrete roar of sound, like a subway station with a train coming in far off on another level. Ira had been sitting on the oak bench for an hour, and the sound was gradually beginning to lull him. He opened his eyes. If he started to nod, the guard would come and hassle him, might throw him out of the place. But he new that he would see nothing different from what he had seen during the months he had worked here and the even more months he had come as a client afterward.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Histórias Castelhanas




Domingos Monteiro



Desde Medina del Campo que vínhamos sòzinhos na carruagem, mas só naquele momento reparei que ele trazia nas mãos um pequeno crucifixo que apertava entre os dedos e que, de longe a longe, lavava aos lábios num gesto quase automático, como quem respira o perfume de uma flor ou leva ao nariz, por longo hábito contraído, uma pitada de rapé.

domingo, 27 de abril de 2008

O Vil Metal





George Orwell



Tornou a fazer tilintar as moedas na algibeira. Tinha quase trinta anos e não realizara nada -somente o seu mísero livro de poemas, que caíra tão espalmado como uma panqueca. E, desde então, durante dois anos inteiros, lutara no labirinto de um livro horrível que nõ avançava e, como reconhecia nos momentos de lucidez, jamais avançaria. Era a falta de dinheiro, simplesmente isso, que lhe roubava o poder para "escrever". Apegava-se à ideia como um artigo de fé. Dinheiro, dinheiro, tudo gira à sua volta! Seria possível escrever sequer uma novela de cordel sen dinheiro para encorajar o impulso?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A Origem da Tragédia




Nietzsche


Teremos dado um poderoso contributo para a Estética quando tivermos chegado não apenas à compreensão lógica, mas sobretudo à certeza imediata da intuição segundo a qual a evolução da arte assenta o seu fundamento na dualidade do génio apolíneo e do génio dionisíaco: à semelhança do que acontece com a dualidade dos sexos que vai gerando a vida no curso de uma luta perpétua apenas semi-interrompida por reconciliações periódicas.
(...)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

À Beira do Fim




Harry Harrison



O sol de Agosto entrando através da janela aberta começou a queimar as pernas nuas de Andrew Rusch até o desconforto o arrancar das profundas de um sono pesado. Só muito lentamente ele começou a tomar consciência do lençol quente, húmido e areente debaixo do seu corpo. Esfregou as pálpebras pegajosas, depois deixou-se cair deitado, de olhos fixos no estuque estalado e manchado do tecto, (...)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Sozinho em Casa




Pedro Rolo Duarte


Eu estava de férias quando aquilo aconteceu. Eu saí da praia apressadamente e fui a correr para casa quando aquilo aconteceu. Eu lembrei-me de quando era criança e tinha medo do escuro, um medo que não dominava e que me parecia tão óbvio, tão evidente, tão racional - mas agora dei comigo a ter medo da luz. Eu tenho medo da luz, do dia, da claridade que me viola os olhos feridos de morte. Tenho medo dessa luz que a tudo responde sem que lhe perguntemos nada. E há muitas perguntas que muitas vezes não queremos fazer, apenas porque não suportamos ouvir as respostas.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Mulheres de Abril




Maria Teresa Horta



Enquanto Calas




Enquanto calas
dobas o medo
que te cresce na fala

E a solidão bordas
a ponto de silêncio

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O Espião




Maximo Gorki


(...)
Pela manhã pareceu-lhe que Raissa tinha esquecido a infedelidade da noite. Preguiçosa e indiferente, serviu-lhe o café com pão; entorpecida pela embriaguez, como sempre, não mostrou, nem uma palavra, nem um olhar, que as suas relações com ele tinham mudado de natureza.
Evsei abalou para a repartição um tanto tranquilo.
(...)

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Apologia de Sócrates



Platão

Terceira Parte

Condenado à morte, Sócrates julga os seus juizes

XXIX.
Apenas por não terem sabido esperar um pouco, Atenienses, ganhareis uma péssima reputação. Os que quiserem caluniar a nossa cidade hão-de acusar-vos de ter dado a morte a Sócrates, homem notável pela sua sabedoria; pois, para vos censurar, dirão que eu era sábio, embora o não seja. E no entanto, se tivésseis esperado um pouco, as coisas aconteceriam naturalmente. Considerai a idade em que estou, tão avançada da vida, tão próxima da morte.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Cristo Cigano





Sophia de Mello Breyner Andresen



O Amor



Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Bispo Negro



Alexandre Herculano



(...)
- Que vozes são estas que soam? -perguntou ele ao pagem.
O pagem respondeu-lhe chorando:- Senhor, o cardeal excomungou esta noite a cidade e partiu.(...)
Que enfreiem e selem o meu cavalo de batalha.
(...)
-Memento mei, Domine, secundum magnam misericordiam tuam! - rezou o cardeal em voz baixa e trémula, quando, ouvindo o tropear dos cavalos, voltou os olhos e conheceu Afonso Henriques.
(...)
- Príncipe - disse o velho, chorando -,não me faças mal; que estou à tua mercê!
- Os dois mancebos também choravam.
Afonso Henriques deixou cair o montante, e ficou em silêncio alguns momentos.
- Estás à minha mercê? - disse ele por fim.- Pois bem! Viverás, se desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excomunhão lançada sobre Coimbra, (...)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Tierra Virgen



Alberto Vazquez Figueroa



Lenta, muy lenta, avanzaba la tarde.
Sentado en la rama, estudiaba el claro. Conocia de memoria cada flor, cada hoja, cada tallo, y aun los troncos de los árboles vecinos; sus copas, sus lianas, la sombra que daban en cada momento del dia, su olor e, incluso, su voz cuando los agitaba el viento. Comocia aquel claro como los rasgos de un ser amado; los ojos de su madre, la boca de Lola, el morro de Tom-Tom.
Lentas, muy lentas, avanzaban las tardes.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Crónica de D.João I



Fernão Lopes



Cap XCIX

O Mestre mandou entregar o castelo a Vasco Porcalho


Partiu o Comendador para Lisboa (...) e o Mestre recebeu-o muito bem, apesar de que Pero Rodrigues e Álvaro Gonçalves já lhe tinham escrito (...). Vasco Porcalho fez grande queixume ao Mestre(...).
O Mestre justificou tudo com boas razões, dando-lhe bom acolhimento, e assim ficou alguns dias. E (...) uma vez o Mestre (...) chamou o Comendador e disse-lhe: "Comendador, não esteja triste pelo que se passou, porque aqueles que o fizeram julgaram prestar-me serviço; (...)

sexta-feira, 28 de março de 2008

Contos



Oscar Wilde



(...)
E contou-lhe os três sonhos que tivera.Depois de o bispo haver escutado, franziu o sobrolho e respondeo:- Meu filho, sou velho, já no inverno dos seu dias, e sei que neste vasto mundo se fazem muitas coisas nocivas. Das montanhas descem ladrões ferozes para roubar crianças, que vão vender aos mouros. Os leões esperam as caravanas e devoram os camelos, o javali desarreiga o trigo do vale, as raposas(...).
Não vos louvo pela vossa acção, e mando-vos que volteis ao paço;(...) E quanto aos teus sonhos, não penseis mais neles

quarta-feira, 26 de março de 2008

Introdução à Arqueologia






V. Gordon Childe





(...)
Os dados arqueológicos são constituídos por todas as alterações no mundo material resultante da acção humana, ou melhor, são os restos materiais da conduta humana. O seu conjunto constitui os chamados testemunhos arqueológicos.


(...)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Poldark



Winston Graham



(...)

Nessa noite levantou-se vento forte, que soprou com violência incessante durante todo o dia seguinte. À noite, cerca das nove horas, correu a notícia de que estava um barco na baía e vinha à deriva para terra, entre Nampara e Sawle. Demelza passara a maior parte da tarde como ultimamente passava a maioria das tardes, quando a chuva forte só deixava fazer fora de casa os trabalhos mais urgentes.

(...)

sábado, 22 de março de 2008

O Sítio da Mulher Morta




M. Teixeira-Gomes


(...)
O lugar onde encontraram o cadáver passou a ser conhecido pelo "Sítio da Mulher Morta"; e o curioso é que, poucos dias depois, todo o terreiro estava coberto desses pequenos lírios roxos a que no Algarve chamavam flores de Maio, e que era raro ver naquela região. Todos os anos o fenómeno se repete. Do José Cravo, até hoje, não houve mais novas nem mandados.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Rio Turvo






Branquinho da Fonseca






A voz vinha de longe. E eu continuava a caminhar por entre as ervas do pântano, ouvindo-a numa meia inconciência. O cansaço e o calor davam-me aquela lassidão de músculos agradável pelo desprendimento da realidade e pela volúpia de deixar a atenção dormente e pegada a pequenas coisas em que noutras ocasiões não se repara.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Histórias Extraordinárias




Edgar Poe




Poucas pessoas haverá, mesmo entre os mais calmos pensadores, que não tenham sido alguma vez invadidas por uma vaga mas marcante semicrença no sobrenatural, em face de certas coincidências de um caracter aparentemente tão maravilhosos que o espírito se sente incapaz de admiti-las como puras coincidências. Tais sentimentos (pois as semicrenças de que falo nunca têm a perfeita energia do pensamento), tais sentimentos, repete-se, só muito dificilmente podem ser reprimidos, a menos que se recorra à ciência da sorte, (...)

domingo, 16 de março de 2008

O Trotskismo




Léo Figuères






(...)


O Trotskismo é, desde a origem, uma variedade do socialismo pequeno-burguês, que possui todas as características do oportunismo, quer de direita, quer de esquerda, em que é fértil esse tipo de socialismo, porquanto ele próprio é o reflexo das hesitações das camadas sociais que se encontram a meio caminho do proletariado e da burguesia.(...)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Poe-Mas Com-Sentidos



Wanda Ramos



Domingo



Escandir então o silêncio se tardas a avizinhar-te do meu mundo e me entretenho meticulosa com as palavras, atenta entretanto aos teus passos à persistente tossezinha ecoando no túnel das escadas? para trás ficaram uma a uma todas as parcelas do dia, domingo de manhã tão extenso o sono recusa de acordar, que se somaram tantas horas de querer dormir mais um longo da semana e ter de voltar à vida.

terça-feira, 11 de março de 2008

Máscaras de Silêncio



Maria Vitorino



Monólogo para um Encontro



(...)
vais mal, não é por aí !
Nem voes
nem fujas
nem tentes,
que o dever
não é parar, é correr
é fugir para que não sinta
so cansaço da vertigem
na espiral de mil promessas
onde lançaste e perdeste
o que negas ou confessas !

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Selva



Ferreira de Castro




Fato branco, engomado, luzidio, do melhor H.J. que teciam nas fábricas inglesas, o senhor Balbino, com o chapéu de palha a envolver-lhe em sombra metade do corpo alto e seco, entrou na "Flor da Amazonia" mais rabioso do que nunca. Ter andado de Herodes para Pilatos, batendo todo o sertão do Ceará no recrutamento de tabaréus receosos das febres amazonenses (...)

sexta-feira, 7 de março de 2008

Ema



Maria Teresa Horta



Ela olha em frente, sentada na sua cadeira de balouço: palhinha e madeira baça, lisa, onde passeia os dedos a deslizarem suaves; as unhas levemente a arranharem, mas só no gesto brando, prudente, não vá ficar alguma marca.
"Prudentemente. Não vá ficar alguma marca da tua passagem por aqui. Algum vestígio".

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os Gatos



Fialho de Almeida



A Crise Teatral e seus factores



Com a abertura do novo Coliseu de Santo Antão, tornaram-se aflitivas as condições de existência dos nossos teatros, elas que já estavam singularmente críticas pela concorrência que o Coliseu da Rua Nova da Palma lhes movia. Por mais que esses pobres proscénios anunciem em cartazes de dois metros, os seus melhores trabalhos de comédia e drama, o público evidentemente desinteressa-se, deixa-lhes a sala às moscas, e corre a aplaudir as feras e os homens elásticos dos dois circos.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Sacrifício de Dama





João Aniceto






Nesse sábado de manhã, a capital não parecia mais insuportável do que costuma ser, e eu aproveitei a aberta para visitar um conhecido alfarrabista situado nas Escadinhas do Duque. A tentação de descobrir mais uns livrinhos policiais para preencher os espaços vazios da minha biblioteca da especialidade aguçara-se ainda mais com a perspectiva de ter de aturar a solidão de longas horas molhadas naquelas férias de um Verão serôdio.

sábado, 1 de março de 2008

Breve Interpretação da História de Portugal



António Sérgio



(...)

A vida de Afonso Henriques, chefe guerrilheiro, decorre em lutas com Leão e os Sarracenos. Foram com estes as mais importantes. Na zona em que os seus territórios tocavam o dos infiéis tinha os templários do Castelo de Soure, que defendiam, arroteavam e colonizavam a Alta Estremadura; e a seguir o Castelo de Leiria, que o rei começou a edificar em 1135. Foi este destruído pelos Sarracenos em 1137, e os cristãos desbaratados em Tomar. Afonso Henriques acorreu, e derrotou o inimigo na primeira batalha que recebeu o nome de Ourique, a qual se travou, provavelmente, nas chãs de Ourique, a 2 Km do Cartaxo (25 de Junho de 1139).

(...)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Nomes Próprios






Ana Belo


Nada nos pertence mais do que o nome. Beleza, dinheiro, empregos, cargos, situações, casas, amores, tudo passa, tudo se modifica. E até mesmo quando deixamos de existir é apenas o nosso nome que fica gravado.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O Livro Branco da Melancolia




José Jorge Letria





Onde a Escrita não ousa chegar




(...)
Nem nos quadros, na exaltação das cores,
encontrei quem enfrentasse o sofrimento
com esta paz, com esta laboriosa esperança.
Este sofrimento já se apoderou
de muito do que eu amava,
sem consentir pactos nem tréguas.
(...)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Hamlet



Williams Shakespeare



(...)

Hamlet - Sim, é costume. Mas embora eu tenha nescido neste país e esteja habituado a isto, parece-me que seria mais decoroso quebrar o costume do que mantê-lo. Tais excessos, que embrutecem o entendimento, difamam-nos aos olhos das outras nações, do Oriente ao Ocidente. Chamam-nos ébrios, mancham-nos o nosso nome com esse apodo afrontoso, e na verdade ele só, por mais que tenhamos em alto grau outras qualidades boas, basta para empanar o brilho da nossa reputação.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O Rei Lear



Williams Shakespeare



(...)

Lear - Estás a recordar-me uma ideia que já me havia ocorrido. De facto tenho notado, desde há pouco tempo, certo excesso de negligência e frieza. Mas procurei repelir essa suspeita, como efeito de uma imaginação demasiadamente desconfiada, e não quis tomar essa negligência aparente como indício de grosseria e atitude premeditada. Pensarei detidamente nisso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Romeu e Julieta



Williams Shakespeare



(...)

Julieta - E que mais desejaria eu, senaão que o fosses? Mas teria receio que as minhas carícias te matassem. Adeus, adeus! Triste é a ausência, e tão doce a despedida que não sei como arrancar-me das grades desta janela.


Romeu - Que o sono descanse nos teus doces olhos, e a paz na tua alma! pudesse ser eu sono, pudesse eu ser a paz em que adormece a tua beleza!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Vamos falar de Cinema



Garcia Escudero



Existe a sétima arte; a oitava arte, diz-se, é a de fazer dinheiro com a sétima. Esta fábrica de sonhos que é o cinema interessa às massas e converte-se imediatamente num negócio são. Os seus inventores, os irmãos Lumière, não o souberam ver. Quando Méliès quer comprar-lhes o seu invento, desiludem-no: "Não se vende, jovem, e agradeça-nos. À parte o seu interesse cientifico, não tem nenhum interesse comercial.". Méliès não acreditou neles, mas quando produz o sua "Viagem à Lua", que tem um comprimento de 280 metros, confessa que devia parecer louco (os filmes correntes não passavam de 60 metros). Mas Méliès não era comerciante: o seu filme deu muito dinheiro mas não a ele, que nem sequer o amortizou. (...)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

António Gedeão


Poesias Completas




Teatro do Mundo-1958



Fala do Homem Nascido


Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

(...)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Nosso Amargo Cancioneiro


José Viale Moutinho





Queixa das Almas Jovens Censuradas



Natália Correia


Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raizes, hastes e corola



dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

(...)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

As Origens do Fascismo



Robert Paris




O Autor :
Especialista francês do período fascista da história italiana. Começou a publicar, em 1962, a sua Histoire du Fascisme en Italie, de que saiu apenas o primeiro volume. É também autor de prefácios aos livros La Révolution Russe, de Rosa Luxemburg, e Sept Essais d'Interpretation de la Realité Péruvienne, de José Carlos Mariategui. Foi colaborador da revista Partisans, editada por François Maspero.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Agora e na Hora da sua Morte



Luis Filipe Costa






Passaram uns anos, eu já andava em Económicas, ía de eléctrico, não tinha carro, e um dia, quase a chegar ao Conde Barão, era muito cedo,as aulas começavam às oito, ía a estudar e de repente olhei pela janela e vi-a. Estava ali na paragem. O carro começou a andar e eu naquela coisa, desço, não desço, não desci.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Os Vagabundos




Maximo Gorky



Soprava do lado do mar um vento húmido e frio que espalhava, através da estepe, a melancolia pensativa da vaga que quebrava o seu ímpeto na margem, e o murmúrio das árvores na costa. Por vezes rajadas de vento traziam até ao braseiro folhas secas e amarelas reanimando a chama; a bruma nocturna do Outono estremecia à nossa volta e por vezes afastava-se durante um segundo, como que assustada, deixando ver à esquerda a estepe sem limites, à direita o mar infinito e na minha frente a silhueta de makar Tchudra, o velho cigano: vigiava os cavalos do seu campo, que se estendia até cerca de cinquenta passos de nós.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Terras




Vasco Pereira da Costa




Saudação a John Steinbeck



Califórnia - paraiso a leste
do meu lado esquerdo
europeu e agreste.

Em Salinas porém ao meu alcance
a ira possível à vista dos vinhedos
pelo poder de um romance.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A Máscara e o Rosto



José Calema



Poeta






Um homem perdido na bruma
duma madrugada sem sol
ergue o estro
e verseja coisas sem nexo
e sem rima.
No seu espírito
há virgens e prostitutas
em haréns hipotéticos
esperando...
- o quê?...
Talvez a vida ou... Nada !

sábado, 9 de fevereiro de 2008

D.Quixote de la Mancha




Miguel de Cervantes







Lavanta-te, senhora minha, pois não é justo que esteja ajoelhada a meus pés aquela que eu tenho na minha alma. Se até agora não tenho demonstrado a verdade do que acabo de dizer, talvez tenha sido por vontade do céu, a fim de que, ao ver a fé constante com que tenho sido amado por ti, saiba melhor e mais completamente amar-te e estimar-te no alto grau que mereces.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A Memória de Ver Matar e Morrer


João de Melo




Estas coisas sucediam na guerra e na paz podre dos dias e do tempo que não ía mudar ainda na nossa vida. Preso nas entranhas de uma revolta sempre muda, o velho Loneque ía metendo as unhas em sua perna inchada de doença, onde que a pele começava já a estalar um pouco em toda a parte uma comichão que apetecia rasgar e ferir, mesmo sem importar no sofrimento que daí viria depois. Falava então na sua voz fatigada, do fundo e do principio da alma, como quem estava a rezar no Deus esquecido de seu sofrimento:
- Aiuê! Chatice bem danada esta guerra num tem fim...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A Morte do Palhaço



Raul Brandão








... Viu-se então um trapo negro, bordado a cores escarlates, vir de cima, lá do alto do circo, e com todo o ruído das bexigas de porco, que prendia na túnica, o Palhaço estoirou na arena, grotesco até na morte...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Palavras Cínicas



Albino Forjaz de Sampaio


Foi em Dostoiewsky que eu encontrei um dia esta frase:"No fundo de cada um dos nossos contemporâneos residem latentes os instintos dum carrasco!"
Não tens tu encontrado, ó caricato, nas tuas horas de angústia, somente semblantes frios, corações empedernidos e ouvidos cerrados? Quantas vezes perguntaste onde estavam a Bondade humana, a justiça humana? Quem te respondeu? Inútil pergunta.
Ninguém.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Este Livro que vos Deixo



António Aleixo



Mote

Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão;
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.

Glosas

Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos...
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas...
Se elas são p'ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.