domingo, 19 de abril de 2009

O Outro Lado do Texto






Eduarda Dionísio, Margarida Carneiro da Silva e Helena Domingos



O Outro Lado do Texto é, em grande parte, o resultado do trabalho colectivo que os professores de Português fizeram no Liceu Camões logo após o 25 de Abril.
Muitos dos textos aqui apresentados e também alguns "guias de leituta" são conhecidos dos professores (e estudantes) que têm dado (ou frequentado) o curso complementar nesta escola.
Não se trata, com este livro, de fazer um curso abreviado e simplificado de Linguistica e de Teoria da Literatura, cedendo à tendência que por vezes há de assim considerar a primeira parte do curso complementar de Português.(...)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Literatura de Expressão Portuguesa nos Estados Unidos






Fausto Avendaño




Os primeiros imigrantes de origem lusa nos Estados Unidos da América do Norte vieram principalmente dos arquipélagos do Atlântico. Eles trouxeram consigo a língua, costumes e tradições de Portugal. A literatura que desse núcleo humano se produziu foi, portanto, uma literatura ferreamente arreigada na vida e experiência do que viria a chamar-se o luso-americano. (...)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

História e Ciências Sociais







Fernand Braudel



(...)
A posição dos etnógrafos e dos etnólogos não é nem tão clara nem tão alarmante. É bem verdade que alguns deles sublinharam a impossibilidade (mas ao impossível estão submetidos todos os intelectuais) e a inutilidade da história, no interior do seu ofício. Esta rejeição autoritária da história apenas serviu para diminuir a contribuição de Malinowski e dos seus disciplos.
(...)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O LIvro da Segunda Classe



Editora A Educação Nacional.Lda




As Serras


Já alguma vez subiste ao alto duma serra? -A um monte segue-se outro monte mais alto, e a este um outro, e mais outro...
E a gente vai subindo, subindo para o céu! Cada vez a nossa vista alcança mais ao longe. As núvens rodeiam-nos e, às vezes, já ficam debaixo de nós. O ar torna-se mais puro e leve. Apetece respirar fundo, dilatar o peito e encher os pulmões daquele ar puríssimo.
Como são saudáveis as serras!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Histórias de Mistério e Imaginação






Edgar Allan Poe



Os nossos livros, os livros que durante anos tinham constituido uma parte bastante razoável da existência mental daquele inválido, estavam, como se poderá supor, em estreita conformidade com aquele carácter de visionário. Juntos esquadrilhávamos obras tais como Ververt et Chartreuse, de Gresst; Belfegor, de Maquiavel; O Céu e o Inferno, de Swedenbor; A Viagem Subterrânea de Nicholas Klimn, de Holdberg; (...)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Raízes da Expansão Portuguesa






Borges Coelho



O Malogro de Tânger

Com a subida ao trono de D.Duarte, o poder afasta-se cada vez mais das comunas vilãs para regressar às mãos da velha nobreza tradicional que procura agregar a si as camadas mais ricas da burguesia rural e dos portos.
Quem é D.Duarte? Um rei sem vontade, um "homem de pouca barba e de olhos moles?"
O Leal Conselheiro inculca um homem ilustrado e sensível e os Regimentos, escritos pelo seu punho,apontam-no como um dirigente esclarecido e sagaz. D.Duarte não parece ser um joguete nas mãos da mulher ou do irmão, mas um rei que escolheu o seu caminho e este é o caminho do robustecimento das posições da nobreza territorial, do tal casamento de conveniência com a nova nobreza.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Adesivo





Miguel Barbosa



A Ceia

O meu primeiro contacto de escritor e de homem com um censor, animal de baixo porte e moral duvidosa porque vê nos outros o que quase sempre traz em si, foi em 1955, quando publiquei o primeiro livro de contos. Eram pequenas histórias nimbadas de ingenuidade e em que a esperança era mais forte do que a realidade! O tipógrafo, homem temeroso das leis e da polícia política, forçou-me a mandar o livro à censura, "para nos livrarmos de responsabilidades", dizia.

quinta-feira, 26 de março de 2009

O Avarento





Molière



(...)
Valério - Quem pensa no vosso dinheiro, no meio desta embrulhada?

Harpagão - Sim. Comprometeram-se a casar um com o outro. Esta afronta diz-vos respeito, senhor Anselmo. Deveis participar dele e empregar todos os recursos da Justiça para vos vingardes da sua insolência.

Anselmo - Loge de mim que me aceitem à força! Nada pretendo dum coração que já pertence a outrem. Quanto aos vossos interesses, defendê-los-ei como se meus fossem.

Harpagão - Aqui está um honesto Comissário, senhor, que me assegurou não descurar os seus serviços. (para o Comissário, apontando Valério.) Acusai-o como convém, senhor, provando-o bem culpado.

(...)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Auto da Barca do Inferno





Gil Vicente
(Edição escolar de Amélia Pinto Pais)





(...)
Onz.
Dix! Nom vou eu em tal barca.
Estoutra tem avantagem.

Vai-se à barca do Anjo e diz:

Hou da barca! Houlá! Hou!
Haveis logo de partir?

Anjo
E onde queres tu ir?
Onz.
Eu pera o Paraíso vou.
Anjo
Pois cant'eu mui fora estou
de te levar para lá.
Essa barca que lá está
vai pera quem te enganou.
(...)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Werther






Goethe



(...)
Receio que o embaixador e eu não estejamos muito tempo de acordo. Esse homem é absolutamente insuportável: a sua maneira de trabalhar e dirigir os negócios é tão ridícula que não posso deixar de o contrariar resolvendo pela minha cabeça, o que naturalmente não é de molde a agradar-lhe. Queixou-se disso ultimamente na Corte. O ministro deu-me uma reprimenda, branda na verdade, mas enfim uma reprimenda, e eu estava a ponto de pedir a minha demissão, quando recebi uma carta particular dele, (...)

quarta-feira, 18 de março de 2009

A Estranha Morte do Prof. Antena






Mário de Sá-Carneiro




(...)
Dentro de dois meses, no princípio de Agosto, partiria para Lisboa a ocupar-se da edição. O livro seria lançado em Novembro. Aproveitaria a época morta para o imprimir. E como se dava um grande júbilo -mesmo a sua viagem a Lisboa onde tinha dois ou três amigos reais- as suas saudades não o fazia, com efeito sofrer embrenhadamente, nem em muita amargura.
(...)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Oficina de Artes





Ilídio Pina,Paulo Simões Nunes e Sérgio Ferreira




Oficina de Artes é um guia de trabalho para alunos e professores, estruturado para o apoio às actividades de aprendizagem no âmbito do programa da disciplina. Neste sentido, adoptámos nas abordagens dos núcleos temáticos uma metodogia de trabalho que releva da noção do ofício e do caracter experimental que lhe está inerente.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Bonecos de Luz






Romeu Correia




O dia fora pequeno para a Miquelina andar pegada ao gorducho, o que fez o velho Paulino não tocar no barro, pois, ao encarar, de madrugada, o lençol içado sobre o curral, desarvorou para a estrada.
Restava-me a companhia do cara triste do Lopes, e aqum me colei na mira de assistir ao conserto da engenhoca... Mas o homenzinho contrariou-me, consumindo as horas de sol à cata de grilos. Uma palha por entre os dedos, ele esteve horas com o nariz rente aos buraquinhos do chão.
Em dada altura, intrometi-me:
(...)

terça-feira, 10 de março de 2009

A Inocência e o Pecado






Graham Greene



O rapaz levantou a mão para bater nas costas de Spicer, mas deixou-a cair novamente. O grupo de judeus esperava, em formação cerrada.
-Talvez... -disse o rapaz. Olhou em redor: não havia fim para aquilo que ele começara. Um ímpeto de crueldade se lhe acendeu no ventre. Tornou a levantar a mão e deu uma palmadinha nas costas de Spicer. -Desejo-te felicidades- pronunciou, numa voz aguda e rachada de adolescente, e bateu-lhe mais uma vez nas costas.
Os judeus cercaram-nos, num movimento de conjunto. Ouviu Spicer gritar:"Pinkie!" e viu-o cair. (...)

sábado, 7 de março de 2009

Contos de Cantuária






Geoffrey Chaucer



Conto do Cavaleiro

Contam antigas histórias que noutro tempo houve, na cidade de Atenas, um grande duque chamado Teseu, senhor e governador da povoação, que era conquistador de tanto mérito que não havia sob o sol outro que o igualasse em fama. Submeteu muitas e ricas comarcas, conquistando depois, graças ao seu engenho e bravura, o reino de Femínia, que anteriormente se chamava Cítia. Aí casou com a raínha Hipólita, a qual, com muitas honras e grande solenidade, levou para a sua terra. Com eles partia também Emília, irmã mais nova de Hipólita, e (...)

terça-feira, 3 de março de 2009

Contos Breves






Alexandre Puchkine



A Casinha solitária da Ilha Basílio


Quem teve ocasião de dar um passeio em redor da Ilha Basílio, em Petersburgo, terá observado que os seus extremos se parecem muito pouco. A orla oriental, erguida com uma sumptuosa fileira de enormes edifícios de pedra; a parte setentrional, em fente da ilhota de Pedro, penetra como uma língua nas sonolentas águas da baía. À medida que nos aproximamos desta extremidade, os edifícios de pedra, mais raros, cedem o lugar a casotas de madeira.
(...)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Poesia Lírica






Luis de Camões




Os chamados disparates da Índia



Este mundo es el camino
Adó hay ducientos vaos,
Ou por onde bons e maus
Todos somos del merino.
Mas os maus são de teor
Que, dês me mudam a cor,
Chamam logo a el-rei compadre;
E enfim, desejadlos, mi madre,
Que sempre têm um sabor
De quem torto nasce, tarde se endireita.

(...)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Poesia Completa 2





Maria Teresa Horta



O meu desejo



Afaga devagar as minhas
pernas

Entreabre devagar os meus
joelhos

Morde devagar o que é
negado

Bebe devagar o meu
desejo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Desencantador de Serpentes







José Jorge Letria




de: O Homem cinzento


O pequeno homem cinzento
Afronta o rígido olhar da rua
com uma cartola negra,
uma bengala de madeira rara,
o inseguro passo sobre as pontes.
Considera-se igual às sombras,
feito com a transparente matéria
dos sonhos e não ousa dizer de si
mais do que o nome, o endereço,
(...)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Introdução à Linguística






Jean Perrot



O objectivo da linguística é o estudo científico das línguas; ele abrange um fenómeno de múltiplos aspectos, a linguagem, nas suas manifestações que são as línguas.
A linguagem, exteriormente, apresenta-se como um instrumento de comunicação entre os homens; aparece em todos os lugares em que os homens vivem em sociedade e é sempre um instrumento de comunicação.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Tempo de Gaivotas






Humberto Sotto Mayor



Zodíaco

Violeta
é a minha flor...
Verde, a minha cor...
Esmeralda
a minha pedra...
O resto...

É merda!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Da Liberdade Mitificada à Liberdade Subvertida





José Tengarrinha



A modificação que se dá no conteúdo essencial da censura no último quartel do século XVIII (independentemente das formas que assumiu) tem a ver com o convulsionamento que então se regista da sociedade portuguesa e, também, os ecos que a ela chegam das perturbações exteriores.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O Nome das Coisas





Sophia de Mello Breyner Andresen



Retrato de mulher

Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Zadig




Voltaire



O invejoso apresentou-se em casa de Zadig, que passeava nos seus jardins com dois amigos e uma dama, a quem com frequência dizia coisas galantes, sem outra intenção que não fosse dizê-las. A cpnversação versava a guerra que o rei concluíra virtuosamente contra o príncipe de Hircânia, seu vassalo. Zadig, que tivera oportunidade de notar a coragem do monarca nessa curta guerra, louvava muito o rei e ainda mais a dama. Pegou nas suas pabuinhas, escreveu nelas quatro versos, que ali mesmo fez, e deu-os a ler a tão bela pessoa.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Vinhos & Queijos Portugueses







Edições Verbo



A escolha de um bom vinho e o saber servi-lo correctamente têm uma importância decisiva no exito de uma refeição. Esta magnífica bebida proporciona sempre, ao redor de uma mesa, as mais animadas conversas, porque o saber apreciar um vinho constitui, só por si, uma arte.
(...)
Pode dizer-se que o queijo tem acompanhado o fluir da nossa civilização, pois já Homero a ele se refere. Em Portugal, documentos do século XIV dão conta de um certo "queijo dos Hermínios", que outro não deve ser senão o famoso queijo da Serra.
(...)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Teatro Grego







Ésquilo,Sófocles,Eurípedes,Aristófanes



Ésquilo:
- Prometeu acorrentado
- Os Sete contra Tebas

Sófocles:
- Antígona

Eurípedes:
- Medeia
- Andrómaca

Aristófanes:
- As Vespas

in "Os Sete contra Tebas".

(Entra Eteocles)

Eteocles - Povo de Cadmo, uma linguagem prudente é a que compete ao homem que, sentado à popa do Estado, com a mão no leme e os olhos sempre alerta contra o sono, vela sobre Tebas. Se a fortuna acompanhar as nossas armas, atribuí-lo-eis aos deuses; mas se a sorte nos for contrária... não vejamos nunca tal desventura... só Eteocles, entre todos os tebanos, será o alvo das vossas clamorosas acusações, só contra ele murmurareis aflitos. Queira pois Zeus preservador ser efectivamente para a cidade de Cadmo o que este nome pressagia! E vós, adolescentes que vos encontrais no umbral da juventude, e vós, os que há já tempo saiste dela, chegou o momento de cada um mostrar o vigor do seu corpo.
(...)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Gramática


Elementar para a 3ª e 4ª Classes do Ensino Primário

Editora Educação Nacional



A Lingua e a Gramática

1 - É por meio da linguagem que exprimimos as nossas ideias. Há a linguagem falada que se serve das palavras faladas; a linguagem escrita que se serve das palavras escritas; e há ainda a linguagem gesticulada que consiste em gestos ou em sinais mímicos.

2 - Uma linguagem tem certas regras que é preciso seguir para poder ser usada correctamente. É na gramática que tais regras se encontram.

Gramática Portuguesa é o estudo das regras que nos levam a falar e a escrever com correcção a Língua Portuguesa.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Morte de Ivan Ilich







Tolstoi




Num intervalo do exame da causa dos Melvinski os membros do tribunal e o fiscal reuniram-se no gabinete de Ivan Egorovich Shebek, no amplo edifício da Audiência. A conversa incidiu sobre o famigerado assunto de Krasov. Fiódor Vassilievich, a despedir centelhas, avançava que o tribunal era incompetente, enquanto Ivan Egorovich era de opinião contrária.(...)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Guia Prático da Câmara Escura





Leonard Gaunt




Quando você começa a dedicar-se seriamente à fotografia, a câmara escura transforma-se numa necessidade. Você deixa de ficar satisfeito com as pequenas provas fornecidas pelos laboratórios comerciais. Deseja provas de maiores dimensões; pretende ampliar apenas parte do seu negativo ou slide; deseja melhores provas - tipo de provas que só uma atenção individual pode conseguir.
(...)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A Viagem do Elefante





José Saramago




Não é verdade que o céu seja indiferente às nossas preocupações e anseios. O céu está constantemente a enviar-nos sinais, avisos, e se não dizemos bons conselhos é por experiência de um lado e de outro, isto é, a dele e a nossa. Já demonstrou que não vale a pena esforçar a memória, que todos a temos mais ou menos fraca. Sinais e avisos são fáceis de interpretar se estivermos de olho atento, como foi o caso do comandante quando sobre a caravana, em certa altura do caminho, caiu um rápido e abundante aguaceiro. (...)

domingo, 11 de janeiro de 2009

A Revolução Portuguesa





Álvaro Cunhal


(...)
Dado que a produtividade só a médio prazo pode ser aumentada de forma sensível, é inevitável que a reanimação económica tem de assentar no imediato numa maior massa de trabalho realizada no mesmo tempo, portanto na intensificação do trabalho e em medidas urgentes de racionalização. A intensificação do trabalho pode porém dar-se com duas dinâmicas: pela decisão voluntária dos trabalhadores com a consciência de trabalharem para si e para o País, ou por imposição coerciva do patronato e do Estado para aumentarem respectivamente os lucros e os créditos.
(...)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

2 Peças em um Acto






Luis de Sttau Monteiro


(...)
O ENCENADOR - Costa! Deixa de ouvir-se a voz de mulher. Em atitude de desespero, para os espectadores: esta voz só devia ouvir-se quando surgisse iluminada a cena da esquerda, que representa o campo do inimigo, ou o nosso campo, conforme o sítio onde cada um nasceu. Agora já não vale a pena continuar. O melhor é metermos já acena da esquerda. Luz à esquerda!

(surge iluminada a cena da esquerda)

Um general igual ao general anterior está sentado no estrado a ler a história aos quadradinhos. Fica muito surpreeendido ao sentir-se iluminado e diz para o encenador:

O GENERAL DA ESQUERDA -
(...)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Engrenagem





Soeiro Pereira Gomes



Noite seca de inverno, em que o frio parecia ressumar das coisas adormecidas, como das lousas brancas num cemitério. Um cão ladrou ao silênncio, estremunhou galos em algum poleiro. E essas vozes, que lembraval o cheiro forte da terra, desencataram do vale o antigo lugarejo.
Era assim todas as noites, quando o negrume tapava buracos da mina que se abria no morro, e os andaimes da fábrica semelhavam ameias de um castelo feudal. Só faltava que os galos voltassem a cantar e que os homens surgissem de enxada ao ombro, mal despontasse a manhã.(...)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Questões sobre a História da Literatura Portuguesa




3ª Edição

Alexandre de Carvalho Costa


1- Literatura

Que entende por Literatura? E por História da Literatura? Em quantas épocas se divide a História da Literatura Portuguesa? Quais são? E em quantos períodos se divide cada época?
(...)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Elementos Constituitivos da Consciência Saudosa e Problemática da Saudade





Joaquim Carvalho



No ano em que Agostinho da Silva, no Brasil, publica Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa (1958), em cujo conteúdo a teoria do Império do Espírito Santo já se encontra fortemente desenvolvida, está efectuando estudo sobre Fernando Pessoa, que conhecera em Lisboa, e que culminarão no ano seguinte (1959) com a publicação de Um Fernando Pessoa. No primeiro livro citado, Agostinho da Silva apresenta uma revisão da história de Portugal concordando com a tese de Portugal como motor futuro do Império do Espírito Santo; no segundo livro, Agostinho da Silva (...)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Mensagem




Fernando Pessoa



Mar Portuguêz

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

(...)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pensamentos Escolhidos






Pascal



Falsa humildade, orgulho. Tirai a máscara. Não tendes outro remédio: é necessário ou crer, ou negar, ou duvidar. Então não haverá uma regra para nós? Julgamos os animais por fazerem bem aquilo que fazem. Não haverá regra para julgar os homens? Negar, crer e duvidar bem são para o homem o que o correr é para o cavalo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O LIvro da Primeira Classe






Editora Educação Nacional


A Formiga e a Libelinha


Uma formiguita andava afadigada, certa manhã, a procurar mantimentos, perto de um ribeiro.
Como encontrou pouco comer, subiu a um cogumelo, a ver se dali se avistava campo de seara que lhe desse uns grãozitos.
Tinha chuvido muito de noite.
(...)

sábado, 13 de dezembro de 2008

O Deserto dos Tártaros






Dino Buzzati




Giovanni Drogo, o oficial que vê escoar-se a vida na Fortaleza Bastani, frente ao Deserto dos Tártaros, teimosamente à espera de uma oportunidade de glória, para vir a ser afastado por incapacidade física no preciso momento em que essa oportunidade se avizinha, é o símbolo da persistente procura da realização plena que ao Homem se nega e que, por isso mesmo, mais incita ainda a lutar e a esperar. E o misterioso sorriso que lhe aflora aos lábios no último instante de vida é, afinal, um sorriso de vitória.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Os Lusíadas





Luis de Camões


Canto Sexto

(...)

Mas, vendo o Capitão que se detinha
Já mais do que devia, e o fresco vento
O convida que parta e tome asinha
Os pilotos da terra e mantimento,
Não se quer mais deter, que ainda tinha
Muito para cortar do salso argento,
Já do Pagão benigno de despede,
Que a todos amizade longa pede.

(...)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Português Suave






Joaquim Pessoa

Europa Acidental



Europa acidental.
Europa acidental.

Aqui nem mal nem bem.
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
é porque a gente nasce
de um modo acidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
é natural
(naturalmente)
que haja também
gente que é gente de bem
e gente que é apenas gente.

Europa acidental.
Europa acidental.

O mal
é ter na nossa frente
um mar de sal.
Um mar de gente
que de repente
(é assim mesmo: de repente!)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.

(...)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Windows Vista para Totós





Andy Rathbone



O Windows Vista, a versão mais catita do Windows até à data, está carregadinho de programas gratuitos como por exemplo, o Media Player e o Mail. São estas borlas que deixam os clientes felizes e dão que falar junto da Comissão Europeia para o Comércio Internacional.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Nós as Crianças






Gérard Mahec




A aprendizagem da leitura para a criança que chegou ao limiar do curso primário, constitui um verdadeiro teste de maturidade psicológica e neuromotora; esta maturidade é apressada, ou pelo contrário retardada por diversos factores:

- a idade: ainda actualmente é discutida, mas parece que os seis anos pode considerar-se como uma idade satisfatória;

- o meio familiar pode facilitar a aprendizagem da leitura; se for indiferente aos esforços da criança, pode causar o seu atraso;

- o gosto pelo esforço: a criança que apenas mostra interesse pelas actividades motoras ou pelas distracções passivas (abuso de televisão) estará pouco motivada para a leitura;

- a aptidão para discernir:

a) as formas: n m, p b, f v, l i, o a, é i;
b) a orientação das formas: em cima, em baixo, à direita, à esquerda, à frente, atrás;
c) as dimensões (carateres muito grandes ou muito pequenos), grandezas relativas.
(...)

domingo, 30 de novembro de 2008

Vidas Paralelas





Plutarco




Tendo-nos proposto escrever neste livro a vida de Alexandre e a de César, o que venceu Pompeu, devido à multitude de façanhas de um e de outro, de uma só coisa avertimos o leitor e uma só lhe pedimos: é que, se não as referirmos todas, nem sequer nos detemos com demasiada prolixidade em cada uma das mais celebradas, assim como cortamos e suprimimos uma grande parte, não nos censurem nem recriminem por isso. Porque não escrevemos histórias, mas sim vidas; (...)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Mundo em Números





Artur Parreira



Há milhares de anos que o Homem vive e cresce à superfície da Terra, com prestígio também crescente para o número. Foi do resumo e da sistematização dos dados numéricos referentes aos aspectos mais importantes deste nosso planeta e à gente e actividades dos que o habitam - tendo presente que outros homens o habitaram já e outros ainda virão a habitá-lo - que surgiu O Mundo em Números.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Delfim





José Cardoso Pires




Para ser franco, também agora me apetecia beber. Experimentar a aguardente do cantil, ou melhor, o vinho da lagoa. Vinho grave, espesso e tão macio, que saudades, vinho.
Mesmo face a face com um cartaz de morte, mesmo comprometido com parábolas de filhas transviadas e com lições sobre os dentes das prostitutas de bar, mesmo assim, que vinho. Pazinha Soares e a poesia d cornudos, se a há, nada podem contra ele. E a adega, melhor dito, o bodegón, embora entregue aos ratos e ao desprezo, continuará a ser para mim a cisterna de um sabor decantado que se repete gota a gota, (...)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Pensamentos





Marco Aurélio



Livro VI
21

Se alguém me pode convencer com provas à mão de que as minhas opiniões ou modo de proceder não são rectos, sem custo mudarei. Procuro a verdade, que nunca prejudicou ninguém. Prejudica-se o que, pelo contrário, persiste no erro e na ignorância.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

História Concisa de Portugal





José Hermano Saraiva



Os mais antigos vestígios de vida humana encontrados no nosso território são os calhaus rolados em que um dos topos foi intencionalmente aguçada para os transformar em instrumentos de luta ou trabalho e que têm aparecido em vários pontos: a Gruta da Fornilha, em Peniche (que nos períodos pré-históricos era uma ilha), nas proximidades das Caldas da Raínha, nos arredores de Lisboa, na Arrábida, em Sines.

domingo, 16 de novembro de 2008

Contos Escolhidos




Guy de Maupassant



Em 1874 senti desejo de visitar Veneza, Florença, Roma e Nápoles. Esta ideia surpreendeu-me em Junho, quando a poderosa seiva da primavera derrama no sangue ardores de viagem e de amor.
Nunca tive instintos de viajante. Mudar de locar parece-me um trabalho inútil e fatigante. As noites de comboio, o sono agitado nas carruagens, com enxaquecas e adormecimento dos membros, o despertar angustioso, aquela sensação de gordura na pele, o pó que cega os olhos e suja o cabelo, o perfume desagradável do carvão de pedra, a comida execrável dos restaurantes percorridos por correntes de ar, não são, em minha opinião, começo muito apetecível para uma expediçãode recreio.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Antologia do Conto Ultramarino





Amândio César


Um Rapaz de Pouca Sorte
de: Mário António


A vontade de fumar insatisfeita sob o sol forte da manhã. Um desejo de brisa a que não respondia o mas leve movimento de ar. O mar dir-se-ía um inferno coalhado de peixes de ferro em fusão, sobre o qual, imóvel, se notava o traço negro de um dongo.
Beto fechou os olhos, numa ilusão de sombra. Ao abri-los, porém, sentiu que a luz o feria mais. Rodou a vista do mar para a terra. E indiferentemente a passou pela policromia dos edifícios novos. Sem um pensamento. Habituara-se tanto àquela indiferença vertical de cimento armado que era incapaz de uma palavra para ela. (...)