sexta-feira, 4 de junho de 2010

Quantas Madrugadas Tem a Noite








Ondjaki





Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud'uma batida só, sangue leve ao peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é imposssível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá...Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem nuvens dele também? (...)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Poemas Escolhidos






Mário de Sá Carneiro








Anto

Caprichos de lilás, febres esguias,
Enlevos de Ópio - Íris-abandono...
Saudades de luar, tinbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias...

O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento das ternuras magoadas,
O príncipe das Ilhas transtornadas -
Senhor feudal das Torres de marfim...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Guardador de Rebanhos






Alberto Caeiro







I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planicie
E se senta a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mensagem






Fernando Pessoa






Viriato

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, a raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reincarnaste,
Povo porque resuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste -
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquella fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na manhã, confuso nada.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Nação Crioula







José Eduardo Agualusa






Carta a Madame de Jouarre

Luanda, Maio de 1868

Minha querida madrinha,
Desembarquei ontem em Luanda às coatas de dois marinheiros cabindanos. Atirado para a praia, molhado e humilhado, logo ali me assaltou o sentimento inquietante de que havia deixado para trás o próprio mundo. Respirei o ar quente e húmido, cheirando a frutas e a cana-de-açúcar, e pouco a pouco comecei a perceber um outro odor, mais subtil, melancólico, como o de um corpo em decomposição. (...)

terça-feira, 11 de maio de 2010

O País do Carnaval






Jorge Amado




Entre o azul do céu e o verde do mar, o navio ruma o verde-amarelo pátrio.
Três horas da tarde. Ar parado. Calor.
No tombadilho, entre franceses, ingleses, argentinos e ianques está todo o Brasil (Evoé, Carnaval!!).
Fazendeiros ricos de volta da Europa, onde correram igrejas e museus. Diplomatas a dar ideias de manequins de uma casa de modas masculinas... Políticos imbecis e gordos, suas magras e imbecis filhas e seus imbecis filhos doutores.
Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas caras, aventureira viajada, da qual se dizia conhecer todos os paises e todas as raças, o que equivale a dizer que conhecia toda a espécie de homem, tolera, com um sorriso condescendente, o galanteio juliodantesco de uma dúzia de filhos-família brasileiros e argentinos:
- A senhorita é linda...
(...)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Formação Corporativa






Antonio Matoso e Antonino Henriques





"Esta disciplina destina-se, pois, a auxiliar a formação da consciência cívica dos alunos. Sem ela o programa educativo da escola profissional ficaria imcompleto.
O ensino há-de desenvolver-se em plano adequado à compreensão dos alunos, devendo o professor recorrer com frequência a analogias e exemplos extraídos da vida corrente, às mais salientes e conhecidas lições da história e ao confronto das realidades sociais e políticas portuguesas com as de outros povos contemporâneos, dominados por idiologias inconciliáveis com o espírito ocidental e cristão, raiz mais forte do corporativismo portugês."

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Manual Prático do Artista






Ray Smith








A maioria dos artista lembra-se bem da emoção experimentada ao defrontar-se pela primeira vez, qualquer que tenha sido a idade ou etapa da vida, com os materiais do seu oficio. Havia algo de muito especial nas formas, odores e cores dos pêlos dos pincéis e das tintas de óleo, por exemplo, e uma sensação de antecipação das possibilidads e oportunidades que esse material encerra.(...)

sábado, 24 de abril de 2010

Olhar a pintura





Caroline Desnoettes





"O primeiro mérito de um quadro é ser uma festa para a vista"

Eugène Delacroix

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Manual de Fotografia







John Hedgecoe



Um guia essencial da autoria do mestre da fotografia de renome internacional, John Hedgecoe.
Uma referência para todos os fotógrafos, que inclui informações sobre tecnologia digital mais recente.
Mais de 1000 fotografias magníficas do próprio autor mostram exactamente como tirar boas fotografias.
Foca de uma forma acessível e abrangente equipamento, técnicas e criatividade, desde o básico até ao avançado.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Basic





(publicação de 1984)





Alain Checroun




A micro-informática permite encarar aplicações que tocam a nossa vida quotidiana, tanto profissional como familar.
O tamanho reduzido dos computadores actuais, a sua fiabilidade (portanto, a pouca necessidade de manutenção e, por último, o seu baixo custo colocam estes utensílios ao alcance de todos.
(...)

sábado, 10 de abril de 2010

Álbum de Família







Óscar Lopes





Os textos reunidos neste volume encontram-se dispersos e quase todos eles praticamente inacessíveis ao leitor português actual. Os dois mais antigos datam de 1946: uma conferência sobre Oliveira Martins, proferida no Clube dos Fenianos Portuenses, e um prefácio a uma antologia de poetas parnasianos e realistas portugueses, que constituem os dois capítulos finais. (...)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Resumo - a poesia em 2009


(antologia)





A.M. Pires Cabral

A Andorinha ou Tudo é relativo





Da andorinha dificilmente se dirá
que é um animal feroz. Pelo contrário,
convém-lhe adjectivos como grácil.

Mas a grácil andorinha abre
para o mosquito uma boca aterradora.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Exposição de Obras Antigas e Revistas Portuguesas de Farmácia



(por ocasião do)


XXXII Congresso Int.de Ciências Farmacêuticas




Exposições como estas quase não necessitam de justificação, muito particularmente quando se integram em manifestações culturais ou científicas da índole daquela que presentemente tem lugar em Lisboa com a realização do 32º Congrasso Internacional de Ciências Farmacêuticas.
(...)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Leya Contos





Coletânea






Há sempre folhas a cair numa cidade distante.Recordo-me daquele Setembro em S.Francisco. As folhas íam no vento em Haight-Ashbury. E eu pensava que também nós. Havia ainda nas montras livros de Keroac e de Ginsberg, mas os hippies já não se sentavam nas soleiras das portas.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Médico em Casa






Ramiro da Fonseca




Porque todos temos um pouco de médico e de louco, é preciso não consentir que o louco se ponha a fazer de médico, e o médico a proceder como louco. O primeiro por loucura e o segundo por ignorância, não têm a consciência do que fazem. Da parceria resulta o desastre; e foi para evitar o desastre que o autor escreveu e o editor publicou O Médico em Casa.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Frelimo-História de Moçambique






Frelimo




Muitos dos povos que habitam o sul do deserto do Sahara vieram da região dos Grandes Lagos (Vitória, Alberto, Rudolfo, Eduardo, Tanganhica,etc.).
As migrações foram deslocações africanas, muitas vezes em grupos de tribos. Estas migrações sucederam-se durante séculos e só acabaram nos pricípios do século XVIII.
As migrações era, na sua maioria, pequenas deslocações em etapas não superiores a 100 kilómetros, o que representa uma marcha de 2 ou 3 dias. (...)

sábado, 13 de março de 2010

Jim o Sortudo






Kingsley Amis





-No entanto, cometeram um erro bastante patético.- disse o catedrático de História, e Dixon observou como o seu sorriso desaparecia gradualmente sob a superfície da sua expressão, afastado pela recordação.- Depois do intervalo, executámos uma pequena peça de Dowland...-continuou- Para flauta de bisel e piano, está a ver? Eu toquei a flauta de bisel, claro, e o jovem Johns...-Fez uma pausa e o seu tronco tornou-se rígido enquanto caminhava.(...)

terça-feira, 9 de março de 2010

Aprofundar o Basic



NR - (Informática em 1984)




Mike Lord





Aprender a trabalhar com um computador é um pouco como aprender a orientação numa cidade desconhecida. O que interessa, de início, são as avenidas e as ruas principais. Mais tarde, porém, exploram-se as ruas secundárias e outras artérias da cidade. Encontraremos certamente muitas coisas interessantes e provavelmente descobriremos alguns atalhos bastante úteis.
(...)

sexta-feira, 5 de março de 2010

As Origens do Sufragismo Português






João Esteves





Embora surgido tardiamente, o movimento feminista em Portugal desenvolveu-se e atingiu o seu auge, enquanto ideário, organização, mobilização e reinvindicação, na segunda década deste século, não se podendo ignorar o aparecimento, em poucos anos, de associações como o Grupo Português de Estudos Feministas (1907), a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1908/9-1919), a Associação de Propaganda Feminista (1911-1918), o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914-1947), a Associação Feminina de Propaganda Democrática (1915-1916) e a Cruzada das Mulheres Portuguesas (1916). Comum a todas era a vontade e empenho em dignificar, modificar e revolucionar o papel da mulher na sociedade de então, (...)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

História da Censura Intelectual em Portugal






José Timóteo da Silva Bastos




Religião e Estado, quase sempre bem avindos pelos tempos fora, poucas vezes incompatíveis ou inimigos, salvo quando explodiam lutas de interesses de ordem secular, conseguiram impor disciplinas de ferro ao intelecto humano perseguindo os homens pelo crime de insubmissão ou ou irrespeito àqueles dois poderes.
Nos tempos primitivos a ideia de religião estava longe do significado actual, pois nessas épocas, ela afectava apenas um carácter limitadamente doméstico, cingindo-se apenas ao culto dos mortos, quer dizer, ao culto dos antepassados.(...)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Mundo em Números






Artur Parreira




É neste planeta,simultâneamente vasto e mínimo, variegado, mas cada vez mais ameaçado de uniformidade, que os homens vivem mais, que constroem para o ffuturo a sua morada. Por vezes no meio de incoerência, numa expressão existencial nitidamente voltada para o futuro, para o perdurável, mas através de acções estranhamente confinadas, na sua maioria, ao presente.(...)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Homem, As suas necessidades e o Socialismo






B. Motchalov





(...)
A relação que se estabelece na produção entre o sector nacional e o sector cooperativo Kolkhoziano caracteriza de uma maneira decisiva o complexo económico das necessidades sociais. Nesta relação, o sector da produção nacional desempenha um papel determinante. Estão nele concentrados os principais meios de produção utilizados permanentemente, assim como os domínio de actividade que dizem resopeito à sociedade no seu conjunto (por exemplo, a ciência).

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Os Cadernos de Dom Rigoberto







Mario Vargas Llosa







(...)
- Nunca - disse ela, com firmeza. - Nunca te perdoarei o que fizeste, malvado. Porém, contradizendo as palavras, os seus grandes olhos escuros reconheciam com curiosidade e uma certa complacência, talvez mesmo ternura, a frisada desordem daquela cabeleira, as veiazinhas azuis no pescoço, as orlas das orelhas a assomarem por entre as madeixas loiras e o corpinho airoso, enfiado no casaco azul e nas calças cinzentas do uniforme. As suas narinas aspiravam aquele cheiro adolescente a desafios de futebol, fruta e gelados d'Onofrio (...)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Futebol de A a Z








Movimento Nacional do Futebol Juvenil






O

Obrigado! - Quando o jogo acaba, devemos apertar a mão ao nosso adversário, assim como que a agradecer-lhe a sua colaboração indispensável para os belos momentos de confraternização que todos podemos viver, a pretexto de uma bola que nos fez correr, saltar, lutar, conviver, conhecermo-nos melhor, estimar-nos mais. Obrigado, pois! (...)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Manual de Prestidigitação







Mário Cesariny







Hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros

ora este foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a moleza foi dormir

preferiu uma dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado

Sem Jeito Para o Negócio

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A Farsa dos Pseudo Radicais em Portugal






Edições Sociais




(...) Todos estes grupos querem passar pos ser os organizadores do proletariado. Fazem concorrência uns aos outros, cada um a querer parecer o mais "consequente" e "puro".
No entanto, na realidade, não têm programa de acção e, conforme se viu, foram apanhados de surpresa pela "astúcia da História".(...)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Crónicas e Cartas





Eça de Queiroz




(...)
Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações de um peito desmaiado. Não há ambições explosivas; não há ruas resplandecentes cheias de tropéis de cavalgadas, de tempestades de ouro, de veludos lascivos: não há amores melodramáticos: não há as luminosas eflurescências das almas namoradas da arte: não há as festas feéricas, e as convulsões dos cérebros industriais.
Há escassez da vida; um frio senso prático. (...)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Canto Primeiro






Manuel Alegre








Devo estar a sonhar, pensei.
Aproximei-me um pouco mais
e não havia dúvidas:
as armas e os barões, assinalados, dizia ele,
as armas e os barões assinalados.

domingo, 24 de janeiro de 2010

As Grandes Doutrinas Económicas






Arthur Taylor




(...)
A história das doutrinas económicas permite integrar o pensamento de filósofos, sociólogos, econimistas e contribuições doutrinais isoladas na linha geral de uma evolução e não só verificar a novidade das doutrinas e a sua originalidade, como assinalar as suas interligações e avaliar em que medida cada uma delas reflete a respectiva época histórica ou corresponde a determinada problemática social. (...)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Caim






José Saramago




Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios, carcarejos, desfrutavam já de voz própria. (...)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

História da Literatura Portuguesa





António José Saraiva e Óscar Lopes




(...) O factor decisivo da formação da Língua Portuguesa foi a romanização da Península, cujos últimos obstáculos ficaram eliminados com as campanhas de Augusto. A difusão do Latim verifica-se ao mesmo tempo que as villae (latifúndios), protegidas pelo direito e o Estado Romano, integram, como colonos adscritos às suas terras, os antigos habitantes dos castros serranos; que as instituições urbanas se desenvolvem nos moldes municipais de Roma, graças a legiões, praças de comércio, tribunais, escolas, templos, teatros e termas; e que nas províncias ocidentais da Península, a Lusitânia e a Galécia, se constrói um sistema de vias com que viria a coincidir o actual traçadp ferroviário e rodovoário fundamental, preludiando deste modo a relativa independência das comunicações portuguesas.
(...)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Livro Sexto







Sophia de Mello Breyner Andresen




Despedida


Na estação na tarde o fumo
O rumor o vaivém as faces
Anónimos
Criam no interior do amor um outro cais

As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Quatro Cavaleiros a Pé






José Saramago



Chamam-lhe pequeno-almoço e eu
atrevo-me a perguntar
o que é que ganhámos com a novidade.
Tínhamos almoço, jantar e ceia,
três palavras distintas para o acto de comer,
e ainda uma quarta palavra - merenda -,
talvez de todas a mais fresca,
(...)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Treine o Cérebro





Dr. Gareth Moore



Funções cerebrais importantes tais como a memória, a atenção e a velocidade de reciocínio podem ser melhoradas através da ginástica mental. Se quer ter uma boa memória, concentrar-se e ter mais agilidade mental, comece desde já a treinar o seu cérbro. Combata a preguiça mental e certifique-se de que não diz adeus à sua massa cinzenta!
Quer seja jovem ou idoso, exercitar o cérebro está ao seu alcance. Desafiar permanentemente o seu cérebro incentiva-o a desenvolver-se e, ao invés de uma ida ao ginásio, entrar no ginásio da mente não acarreta quaisquer riscos de lesões nem exige um equipamento especial.(...)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Bairro da Lata








John Steinbeck




As moscas negras descem até às rochas para comer o que por lá encontram.
Os cheiros, ativo das algas, áspero dos corpos calcários e forte da proteína, o odor a esperma, a ova, saturam o ar. Sobre as rochas salientes as estrelas-do-mar depositam sémen e ovos de entre os seus raios. Os cheiros de vida e seiva, de morte e digestão,de putrefação e germinação enchem o ar. E a babugem salgada é arremessada do dique, onde o oceano aguarda o seu ímpeto de maré cheia que lhe permita entrar de novo na lagoa Grande da Maré. E no topo do recife a bóia de apito muge como um touro triste e pachorrento.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Fio das Missangas





Mia Couto



O adiado avô

Nossa irmã Glória pariu e foi motivo de contentamentos familiares. Todos festejaram, excepto o nosso velho, Zedmundo Constantino Constante, que recusou ir ao hospital ver a criança. No isolamento do seu quarto hospitalar, Glória chorou babas e aranhas. Todo o dis seus olhos patrulharam a porta do quarto. A presença do nosso pai seria a benção, tão esperada quanto o seu próprio recém-nascido.
- Ele há-de vir, há-de vir.
(...)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Novelas do Decameron





Boccaccio



Conta-se que Musciatto Franzesi, de riquíssimo e grande mercador em França tornado gentil-homem, teve de vir à Toscana com Carlos Sem-Terra, irmão do rei de França, pelo papa Bonifácio chamado e solicitado; e sabendo-se que os seus negócios, como frequentemente sucede com os mercadores, estavam em diversos lugares muito embrulhados e que não podia nem com facilidade nem com a brevidade liquidá-los, pensou entregá-los a várias pessoas, e para todos arranjou maneira: só lhe ficou por resolver quem poderia deixar de arrecadar os dinheiros que emprestara a vários borguinhões. (...)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

As Moscas Não Gostam de Ginger Ale





António Gomes Bonifácio




Mais um verão estava prestes a findar.
Jonas assistia à chegada, regular, a sua casa, de pequenas moscas que, quais aves migratórias, todos os anos lhe invadem o apartamento.
Ele sabe porquê, mas não faz nada para o evitar: é o resto de comida no prato da refeição anterior; é a garrafa de cerveja ou refrigerante aberta e abandonada depois de consumida; é a vida a contar os anos sem o arrebatamento de a modificar.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Unir as Letras - Escrever Povo






Grupo de Trabalho de Alfabetização de Almada



Como eu gostava de ter ido à escola! É o desejo expresso de milhares e milhares de homens e mulheres trabalhadores. É o direito não satisfeito. É a justiça por realizar. É o 25 de Abril que persiste em tardar.
Por todo o país, a consciência desta necessidade tem vindo a impôr a alfabetização como componente necessária da luta de emancipação dos trabalhadores.(...)

domingo, 22 de novembro de 2009

A Noite e a Madrugada






Fernando Namora





Cansado de estar de cócoras em frente do bicho. A moleza do corpo não lhe permitia tal posição.
O sol viera adormecer os nervos, trazendo quebranto e desleixo aos músculos, como se um afago morno tivesse furado a cortina das nuvens para lhe vestir a carne friorenta com uma indolência entorpecente. Por isso os gestos do Pencas se espreguiçavam; por isso os seus membros eram vermes deliciados e o cérebro se esvaziava numa cálida zona de volúpia, todo ele sem forças para se interessar pela tortura da cobra. Esta, resignada ali na sua frente, fazia-lhe apetecer os dias rubros de soalheira, as vinhas, os baldios, os lagartos torrando-se no cimo das fragas, vida quente e livre, sem aquelas necessidades miseráveis de comida, botas, tabaco e vinho.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Perú - Dois Mil Dias de Revolução







Tradução -
Maria Teresa Camilo




De acordo com a lenda, o Deus Inkari, filho do Sol, construiu um reino mitológico,criador do homem e de toda a sua grandeza material. Quando estava a realizar a sua obra, foi traiçoeiramente atacado e vencido pelo conquistador espanhol. Decapitado, os seus restos foram espalhados por todo o Tahauntinsuyo (império inca), não se sabendo ao certo se a sua cabeça está em Cuzco ou em Lima. Inkari não está morto. Um dia voltará entre os homens, forte e poderoso. Vive, latente, e dia a dia se reconstrói. O momento virá em que, renascido, fará a batalha final pela liberdade do seu povo.
A cultura peruana foi mutilada pelos padrões estrangeirantes, mas o público anónimo, criador de muitas obras magistrais admiradas em todo o mundo, fá-la-á ressuscitar.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Manual de Astrologia






Joelle de Gravelaine




Sigmund Freud, o pai da psicanálise, marcou um encontro com um astrólogo cujo nome lhe havia sido indicado porum amigo, de passagem por Viena. No autocarro que o devia conduzir a casa desse homem descobriu, de repente, que se esquecera do seu nome e morada. Que belo acto falhado! Teria ele "medo de saber"? (...)
Aqueles que acreditam na astrologia levam, por vezes, muito longe a sua credulidade, dando à astrologia poderes infalíveis de advinhação ou esperando dela previsões exactas, (...)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pedro, Lembrando Inês







Nuno Júdice







Amor

Bêbado da luz pálida dos teus olhos,
esvazio ainda o teu copo; e voltas a enchê-lo,
sabendo que é inesgotável esta sede!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Boa Noite Senhor Soares





Mário Cláudio



Naquela manhã, quando cheguei ao armazém de tecidos, os rapazes tinham acabado de matar uma ratazana do tamanho de um coelho pequeno. Sem sequer saber ainda quem eu era vieram mostra-ma, explicando que semalhante bicharada aparecia frequentemente nos prédios da Rua dos Douradores, construídos pelo Marquês de Pombal. Foi nesse momento que avançou o patrão Vasques, um sujeito muito bem posto, de bigode aparado a preceito, e de camisa de colarinho engomado. "Pronto, agora toca a trabalhar!" (...)

sábado, 31 de outubro de 2009

Os Bichos






Miguel Torga





(...)
- E tenho aí um filho que não lhe há-de ficar atrás...
O espinho. Entusiasmada com aquela virilidade, a velha lembrara-se de lhe aproveitar a casta. Andava a criar um cachopo da penúltima nunhada. E não é que o fedelho crescia e prometia?! Raios partissem a sorte! Quando tudo lhe corria às mil maravilhas -fartura, saúde e paz de espírito- aquilo! Claro: passou a empreender no caso, a afligir-se. Cumpria as obrigações, cantava, dava o seu dedo de conversa, mas às duas por três lá vinha a modificação. Por mais que tentasse disfarçar, não havia maneira.
- O galo velho tem coisa...
(...)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Memórias das Minhas Putas Tristes






Gabriel García Márquez






(...)
A quem me pergunta respondo sempre com a verdade: as putas não me deixaram tempo para ser casado. No entanto, devo reconhecer que nunca tive essa explicação até ao dia dos meus noventa anos, quando saí da casa da Rosa Cobarcas com a determinação de nunca mais provocar o destino. Sentia-me outro. Fiquei mal disposto por causa dos tropas que vi postados nas grades de ferro que rodeavam o parque. Encontrei Damiana passando o pano pelo chão, de gatas na sala, e a juventude das coxas na sua idade provocou-me um temos de outra época. Ela deve tê-lo sentido porque se tapou com a saia.(...)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Raiz de Orvalho e Outros Poemas






Mia Couto




Primeira Palavra



Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os meus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo

Agosto 1980

sábado, 17 de outubro de 2009

Medeia


(Teatro)


Mário Cláudio



Medeia-

"A chuva desta noite espalhou pela terra as azeitonas antes que amadurecessem." O texto de Eurípedes não contém, mas devia conter, uma fala assim. Bem mais felizes terão sido as mulheres antigas, descidas de um reino de taças de veneno e de tronos derrubados, desgrenhando a cabeleira no ventre dos amantes. Pariam em sangue, em sangue assassinavam, "Quem mais", perguntariam elas, "deterá o direito de tirar a vida do que as que a sentiram crescer nas entranhas?" Quando engravidei do mais novo, andava na contemplação das grandes virgens, a Antígona, a Ifigénia, a Ofélia. Parecia-me o menino uma impertinência, provocada pelo homem que nunca me pertencera, e a quem eu afrontava com estas coisas, "Dizias tu que só os tipos vulgares se interessam pelas mulheres muito jovens, e mesmo nisso não deixavas de mentir." Consenti que o pequeno nascesse porque tinha a certeza de que viria a ser um fraco, e não achava na altura castigo melhor para o que o engendrara.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Introdução à Programação de Microcomputadores


NE - referências do início.


Peter C. Sanderson



(...)
É mais provável que você deseje alterar ou emendar o seu programa depois de o ter utilizado durante algum tempo. Para facilitar esse trabalho, é necessário que disponha de algum tipo de documentação acompanhando o programa, dado que não é fácil extrair algum significado de um conjunto de códigos algum tempo depois de o programa ter sido feito.
(...)