segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Memórias das Minhas Putas Tristes






Gabriel García Márquez






(...)
A quem me pergunta respondo sempre com a verdade: as putas não me deixaram tempo para ser casado. No entanto, devo reconhecer que nunca tive essa explicação até ao dia dos meus noventa anos, quando saí da casa da Rosa Cobarcas com a determinação de nunca mais provocar o destino. Sentia-me outro. Fiquei mal disposto por causa dos tropas que vi postados nas grades de ferro que rodeavam o parque. Encontrei Damiana passando o pano pelo chão, de gatas na sala, e a juventude das coxas na sua idade provocou-me um temos de outra época. Ela deve tê-lo sentido porque se tapou com a saia.(...)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Raiz de Orvalho e Outros Poemas






Mia Couto




Primeira Palavra



Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os meus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo

Agosto 1980

sábado, 17 de outubro de 2009

Medeia


(Teatro)


Mário Cláudio



Medeia-

"A chuva desta noite espalhou pela terra as azeitonas antes que amadurecessem." O texto de Eurípedes não contém, mas devia conter, uma fala assim. Bem mais felizes terão sido as mulheres antigas, descidas de um reino de taças de veneno e de tronos derrubados, desgrenhando a cabeleira no ventre dos amantes. Pariam em sangue, em sangue assassinavam, "Quem mais", perguntariam elas, "deterá o direito de tirar a vida do que as que a sentiram crescer nas entranhas?" Quando engravidei do mais novo, andava na contemplação das grandes virgens, a Antígona, a Ifigénia, a Ofélia. Parecia-me o menino uma impertinência, provocada pelo homem que nunca me pertencera, e a quem eu afrontava com estas coisas, "Dizias tu que só os tipos vulgares se interessam pelas mulheres muito jovens, e mesmo nisso não deixavas de mentir." Consenti que o pequeno nascesse porque tinha a certeza de que viria a ser um fraco, e não achava na altura castigo melhor para o que o engendrara.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Introdução à Programação de Microcomputadores


NE - referências do início.


Peter C. Sanderson



(...)
É mais provável que você deseje alterar ou emendar o seu programa depois de o ter utilizado durante algum tempo. Para facilitar esse trabalho, é necessário que disponha de algum tipo de documentação acompanhando o programa, dado que não é fácil extrair algum significado de um conjunto de códigos algum tempo depois de o programa ter sido feito.
(...)

domingo, 11 de outubro de 2009

A Malinche





Laura Esquível



Estava-se em plena Primavera quando baptizaram Malinalli. Ela ía toda vestida de branco. Não havia outras cores no seu vestido, apenas os volumes do seu bordado. Ela conhecia a importância do bordado, do fiado e da arte de bordar com penas, e escolhera para a ocasião um buipil cerimonial, cheio de significados, que ela própria fizera.
Os buipiles falavam. Diziam muitas coisas das mulheres que os tinham tecido. Falavam do seu tempo, da sua condição social, do seu estado civil, da sua ligação com o cosmos. Vestir um buipil era uma verdadeira iniciação, ao fazê-lo repetia-se diariamente a viagem interior para o exterior. Ao meter a cabeça no orifício do buipil, transitava-se do mundo dos sonhos que está reflectido no bordado para a vida que aparece assim que se põe a cabeça de fora. Este despertar para a realidade é um acto ritual matutino que recorda, dia após dia, o significado do nascimento. (...)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Nome da Rosa





Umberto Eco



Era uma bela manhã do fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a fresca camada que cobria o terreno não era superior a três dedos. Às escuras, logo depois das laudas, tínhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tínhamo-nos posto a caminho para as montanhas, ao despontar do Sol.
Como trepávamos pelo carreiro íngreme que serpenteaca em torno do monte, vi a abadia. Não me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquilo que depois soube que era o Edifício. Esta era uma construção octogonal que à distância parecia um tetrágono (figura perfeitíssima que exprime a solidez e a inexpugnabilidade da cidade de Deus), cujos lados meridionais se erguiam no planalto da abadia, enquanto as setentrionais pareciam crescer das própriasfaldas do monte, nas quais se encaixavam a pique.(...)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Anjo da Tempestade





Nuno Júdice



(...)
Ainda me lembro da casa em que viveu, e que terá sido abandonada, pelos precalços da herança, até alguém ter pegado nela e a ter transformado numa mansão mais ou menos senhorial: rfiro-me aos senhores do sopé do poder, aqueles que fizeram a sua baronia a partir de pecúlios acumulados pela exploração de quintos e dízimas, que se guardavam em cofres de metal incrustados na parede, cujos segredo se perdeu à medida que os bancos os foram substituindo na angariação de economias e fortunas.
(...)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A Espinha Dorsal da Memória


Prémio Caminho de Ficção Científica - 1989



Braulio Tavares



Havia um vaso de flores no parapeito da janela; Carlos o tocou com o ombro ao debruçar-se, fazendo-o oscilar; mas recuperou-se logo e o agarrou com ambas as mãos, num gesto instantâneo; ficou gelado de suor, empurrou o vaso para lugar seguro, alguns centímetros mais à direita. Olhou para baixo, as calçadas ccheias de gente apressada, os faróis acesos, o engarrafamento dos carros. Vão para casa, pensou Carlos; tomar um banho, jantar, hipnotizar-se um pouco na Tevê; que coisa boa é trabalhar longe de casa.
(...)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Vamos Falar de Televisão





Lopes da Silva e Vasco Hogan Teves





Certo dia de 1873, na brumosa Londres, o senhor Willoughby Smith comunicou à Society of Telegraph Engineers ter-se observado um comportamento estranho do silénio quando submetido a determinadas condições.
De facto, um seu preparador May, de Valência, estudando as causas da variação da condutibilidade eléctrica daquele elemento, achou que ela aumentava muito sob a acção da luz.
Os dignos sócios desta sociedade não atribuiram, porém, grande importância a esta comunicação. Fora da sociedade também não teve quaisquer repercursões, e em torno da descoberta fez-se o ssilêncio com que muitas vezes os homens da ciência cobrem algumas das grandes invenções.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Livro dos Gatos






Barbel Gerber e Horst Bielfeld




(...)
O nosso gato doméstico é um dos mamíferos mais evoluídos que conhecemos. A conformação do corpo dos felinos pequenos, nos quais se inclui o gato doméstico, é ainda mais equilibrada, mais especializada e flexivel do que a dos seus primos maiores, o leão ou o tigre. Essa conformação está perfeitamente adaptada à vida de um predador da floresta,do bosque arbustivo e da estepe.
(...)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Introdução à Psicologia





Mª Antónia Abrunhosa e Miguel Leitão



(...)
Na prossecução do seu objectivo -a compreensão e explicação da conduta- a psicologia não trata do homem como um ser mecânico e definitivamente construído, nem o encara como se de uma entidade isolada e abstracta se tratasse.
À Psicologia interessa o homem concreto, o homem que vive e se situa numa esfera que o influencia e determina, mas que também é condicionada e modoficada por ele. A psicologia debruça-se sobre o homem que funciona ao mesmo tempo como posto emissor e receptor de mensagens cambiadas entre si e o meio.
(...)

domingo, 13 de setembro de 2009

I Jogos Florais - Montijo/82



CMM



3º Prémio

Sofia de Jesus Rodrigues Trigó




E Foi o Princípio

Havia fumo. Denso. Escuro. Era de tal forma que os envolvia, tomáva-lhes o corpo. Anuláva-os.
Velhos disformes riam, riam em esgares sem começo, sem fim. As suas mãos, ora esqueléticas, ora gorduchas i,pulsionavam uma bola enorme, acinzentada num jogo interminável. Estonteada, perdida procurava en vão, sítio certo para se aquietar. Os velhos riam. Ela girava, girava.
(...)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Vida é Sonho






Calderon de la Barca





Cena V


(entram,por um lado,Astolfo com acompanhamento de soldados e,por outro,Estrela com damas.Música)

ASTOLFO -

Sob os lampejos ardentes
desses olhos, tal cometas,
misturavam salvas diferentes
os tambores e as trombetas,
as aves e as torrentes;
sendo com música igual,
e com maravilha suma,
ao teu olhar celestial
são: umas, clarim de pluma,
e outras, aves de metal;
estão saudando-vos, senhora,
tal como à raínha, as balas,
os pássaros como a Aurora,
as trombetas como as Palas,
e as flores como a Flora;
pois sois, enganando o dia
que já a noite desterra,
uma aurora de alegria,
Flora em paz, Palas em guerra,
raínha que eu serviria.

domingo, 6 de setembro de 2009

O Advogado em Casa






Flamino Martins




O Advogado em Casa é um livro e um livro não é um advogado.
O advogado é a pessoa que dá comselhos, que tira dúvidas (ou que as levanta) sobre o Direito. Ora, este livrinho dá noções elementares e tira algumas dúvidas sobre o mundo do Direito, tão complexo como o próprio homem.
(...)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Psicologia





Augusto Saraiva



(...)
Filosofia significa, etimologicamente, "amor da sabedoria". Segundo uma tradição (referida por Cícero) teria sido Pitágoras, matemático e filósofo grego do VI século a.C., o criador do vocábulo. Anteriormente, os filósofos chamar-se-iam simplesmente, e imodestamente, sábios (sofos). Mas Pitágoras, sob a alegação de que a Sabedoria é um atributo de Deus, teria escolhido para si um qualificativo mais modesto: filósofo, ou amigo (filos) do saber (sofia).
(...)

domingo, 30 de agosto de 2009

A Cidade e o Rio






Dalila Pereira da Costa




(...)
Como se asubstância de vidas e vidas estivesse misturada àquela passagem: o rio e a cidade, rosa e cinzenta. Quando ali desço, é sempre a mesma impressão que toma conta de mim: a beleza que se encontra ali, é o invólucro dum mistério, a aparência dum invisível segredo. E sinto que nunca o poderia atingir, mesmo que ficasse ali, horas e horas, em meditação e espectação, tentando pela minha concentração forcá-lo a rebentar.
(...)

domingo, 2 de agosto de 2009

Lazarilho de Tormes







Autor Anónimo




Lazarilho de Tormes é a primeira novela picaresca da literatura espanhola, datando de 1554 a edição prínceps. Novela de autor anónimo, construída em termos autobiográficos, nela são narradas as aventuras e desventuras do protagonista, numa linguagem simples a que não falta um tom de realismo e crueza. O Prefácio de Gregório Maranón, que, neste volume, antecede o texto da novela, constitui um inegável complemento de interesse para a sua leitura.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Constituição da República Portuguesa






Imprensa Nacional - Casa da Moeda


Princípios fundamentais





Artigo 1º
(República Portuguesa)

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Constituição Política sa República Portuguesa 1976



Projectos,votações e posições dos partidos



Reinaldo Caldeira e Maria do Céu Silva




Regimento da Assembleia Constituinte

Título 1
Disposições Gerais

Artigo 1º
(Estrutura e função)

A Assembleia Constituinte,eleita em 25 de Abril de 1975 em concretização do Programa do Movimento das Forças Armadas, é a assembleia representativa do Povo Português para elaboração da Constituição Política da República Portuguesa e regula-se pelo presente Regimento.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Gabriela, Cravo e Canela







Jorge Amado





(...)
Dona Arminda, espírita, língua viperina, mãe de Chico Moleza, rapazola empregado no bar de Nacib, era parteira afamada: inúmeros ilheenses, nos últimos vinte anos, tinham nascido em suas mãos, e as primeiras sensações do mundo a sentirem foram seu activo ccheiro de alho e sua face avermelhada de sarará.
- E dona Clorinda, já teve menino? O dr. Raul não apareceu no bar ontem...
- Já, omtem à tarde. Mas chamaram o médico, esse tal de dr. Demósthenes. Essas novidades d'agora. O senhor não acha uma indecência médico pegar criança? Ver mulher dos outros toda nua? Sem-vergonhice...
(...)

sábado, 11 de julho de 2009

Virgem






Michèle Curcio





(...)
Um nativo da Virgem chama a atenção, mesmo às pessoas que pouco o conhecem, pela sua dificuldade em se adaptar ao mundo exterior e em se integrar no meio ambiente. É um ser que parece não pertencer ao mundo em que se encontra.
(...)
Ele não se instala: parece estar sempre pronto a recomeçar. Espiritualmente não é um sedentário, ainda que, frequentemente, o seja, devido à importância que têm para ele os factos concretos, as condições materiais de existência.
(...)
São tão sensíveis como qualquer outra pessoa, fimgem ser frios, reservados, e cultivam um estilo fleumático por receio que os seus sentimentos tenham eco e isso os comprometa.
(...)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Respondo por Todo





Yuri Guerman




(...)
El abuelo sintióse algo ofendido; pero, como conocia bien la vida, no lo manifestó en lo más mínimo: comprendia perfectamente que la suya dependría mucho de la benevolencia de aquella rápida e enojada dama...
- ?Guisan con carbón? -inquirió-. No se preocupe, encontraremos cuando haga falta; sólo que yo no soy el carbonero, sino el padre del almirante, acabamos de llegar en el expreso de Moscú...
En aquel momento, la cocinera sacó del horno un asador com algo reseco y, apartando al abuelo de su paso, empezó a soltar maldiciones contra el horno que "quemaba" por encima y no "cogia" por debajo.
(...)

sábado, 4 de julho de 2009

Tieta do Agreste






Jorge Amado



(...)
Tá me chamando, Mãe? - ao notar Elisa, acrescenta:- Bênção,Tia.
Respira saúde e satisfação, não percebe de imediato a atmofera fúnebre da sala. Pela terceira vez, ante a presença do filho, Perpétua enxuga as lágrimas escassas mas, finalmente, visíveis. O adolescente dá-se conta, põe-se sério:
- Aconteceu alguma coisa ao Avõ? De manhã cedinho, quando fui ajudar a missa, vi ele na feira fazendo compras...
Perpétua ordena:
- Vá buscar uma vela benta, acenda no oratório. Tua ti Antonieta, coitada...
- Tia Tieta? Morreu?
(...)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Platonov





Anton Tchekov






quinta-feira, 25 de junho de 2009

Venâncio e outras histórias






Joaquim Paço d'Arcos



(...)
No ambiente sereno, um pouco dormente, do antiquário famoso, as palavras eram quase ciciadas, os gestos escassos, as emoções anuladas. Eu quisera levar àquela sala a sombra de Byron; retorquíam-me com a sua cotação comercial. Não que Mr. Lorant e seus estranhos comparsas fossem insensíveis ao valor daquela evocação; ao contrário, eles eram, na cidade chaguentadum materialismo supurado, os últimos guardiães da riqueza espiritual das coisas antigas e raras que do passado vieram até nós. Folhearam com voluptuosidade o volume que, pertença do poeta, encarquinhara as páginas, em Missolonghi, com a dor do seu último gemido; chamaram, para que admirasse a relíquia, aquela mulher curiosa doutros livros.(...)

sábado, 20 de junho de 2009

Fausto






Goethe



(...)
Fausto - Um pântano alastra ao longo das montanhas, e infecta tudo o que adquirimos até agora. Secar esse tântano mefítico seria o coroamento dos nossos trabalhos. Eu ofereceria vastas planícies a milhões de homens, para que eles pudessem viver em liberdade, senão em segurança. Eis os campos verdejantes e férteis, homens e rebanhos repousam à vontade sobre as novas terras, ligados pelo firme poder das colinas que erguem com o seu trabalho ardente. Um paraíso na terra! Que lá fora as vagas marulhem nas margens; à medida que chocam para abrir uma passagem, nós próprios nos apressamos a encher a brecha.(...)

terça-feira, 16 de junho de 2009

A Invenção das Populações






Hervé le Bras




Definir uma população representa um acto de força: impõe-se a um conjunto de indivíduos uma categoria, que irá a partir de então catalogá-los e, eventualmente, constranger a sua acção.
Agrupar um determinado número de humanos segundo um critério permite ao grupo existir como um ser animado e agir como tal: a população irá aumentar, diminuir, deslocar-se, dividir-se como um gigantesco pólipo com os seus pseudópodes.(...)

sábado, 13 de junho de 2009

Antologia da Poesia Brasileira






José Valle de Figueiredo




Cerca de noventa poetas do Brasil, entre maiores e menores e estendendo-se ao longo de quatro séculos, se reúnem nesta Antologia. Não só eles próprios se nos apresentam aqui através de alguns dos seus melhlores poemas, como cada um deles nos é apresentado numa breve nota biobibliográfica e crítica. Acima de tudo, porém, esta obra "pretende ser, mais do que uma consignação de poetas, uma declamação de poemas".

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As Lições de Outubro






L. Trotsky



Se é verdade que na revolução de Outubro tivemos sorte, outro tanto não se poderá dizer do seu lugar na literatura. Ainda não dispomos de uma única obra que dê um quadro geral da revolução de Outubro, fazendo sobressair os seus principais momentos do ponto de vista político e organizativo. Além disso, não foram editados os materiais que caracterizam os diferentes aspectos da preparação da revolução ou a própria revolução.(...)

domingo, 7 de junho de 2009

Questões Sobre a História da Literatura Portuguesa




4ª Edição


Alexandre C. Costa



(...)
Enquanto que GilVicente fez uma visão objectiva e real da sociedade do seu tempo, Bernardim Ribeiro, pelo contrário, faz uma ideia subjectiva do mundo e a análise da vida interior, tudo aliado a um certo realismi objectivo e a um realismo psicológico. Podemos, pois, dizer que Bernardim Ribeiro é como que um complemento da obra de Gil Vicente.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Internacional - A Comuna






Marx - Engels



(Marx a Friedrich Bolte)

Londres, 23 de Novembro 1871


...A Internacional foi fundada para substituir as seitas socialistas ou semi-socialistas pela organização real da classe operária. Os estatutos primitivos assim como a Declaração inaugural mostram-no-lo à primeira vista. A Internacional, por seu lado, não teria podido afirmar-se se o curso da história não tivesse já pulverizado o mundo das seitas. A evolução da sectarismo socialista e a do verdadeiro movimento operário vão constantemente no sentido inverso.(...)

sábado, 30 de maio de 2009

O Casamento Ardiloso






Cervantes




Saía do Hospital da Ressurreição em Valhadolid, que fica fora da Porta do Campo, um soldado que por servir-se da espada como bordão, pela magreza das pernas e pela palidez do rosto mostrava bem claramente, embora o tempo não corresse muito calmoso, ter suado em vinte dias todos os humores acumulados numa hora. Marchava desenhando quatros com os joelhos e dando tropeções nas pedras, como um convalescente de moléstia grave, e ao entrar pela porta da cidade viu vir em sentido contrário um amigo que não via há mais de seis meses, o qual, benzendo-se como quem vê coisa má, se aproxima dele e disse:
- Pois que é isto, senhor alferes Campuzano?! É possível que vossa mercê se encontre nesta terra? (...)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Manon Lescaut







Abade Prévost



(...)
Não tive a menor informação desta visita. Sabe-se que há nestes lugares gabinetes particulares para as damas, onde ficam ocultas por uma gelosia. Regressei a São Sulpício coberto de glória e cheio de cumprimentos.
Eram seis horas da tarde.
Foram avisar-me, um momento depois da minha chegada, de que uma dama me queria ver. Fui ao parlatório imediatamente.
Meu Deus!, que assombrosa aparição!
(...)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Menina e Moça






Bernardim Ribeiro




(...)
Levava-a após si a água e as folhas após ela, e quisera-a eu ir tomar; mas pela corrente que ali fazia e pelo mato que de ali para baixo acerca do rio logo estava, prestamente se alongou da vista.
O coração me doeu tanto então em ver tão asinha morto quem dantes tão pouco havia que vira estar cantando, que não pude ter as lágrimas.
Certamente que por cousa do mundo, depois que perdi outra cousa, me não pareceu a mim que chorasse de vontade; mas em parte este meu cuidado não foi em vão, porque ainda que a desventura dessa avezinha fosse tão de minhas lágrimas, lá ao sair delas foram juntas outras muitas lembranças tristes.
(...)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Como Programar o seu ZX Spectrum


* NR - a nostalgia



Tim Hartnell e Dilwyn Jones




Se bem que, à primeira vista, o teclado do Spectrum possa parecer um tanto complexo, não é de facto difícil de dominar desde que seja cuidadoso nas primeiras fases do trabalho com ele.
As duas teclas mais importantes são as de mudança de modo: a CAPS SHIFT (canto inferior esquerdo) e a SYMBOL SHIFT (segunda tecla do canto inferior direito). Procure descobri-las.
(...)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Príncipe e A Arte da Guerra






Maquiavel




de " O Príncipe"

(...)
Logo, para não se ver em contingêmcias de pilhar os seus súbditos, para ter meios de defesa, para não se tornar pobre e mesquinho e para nãpo se ver obrigado a roubar e a forçar, um príncipe deve importar-se pouco que lhe chamem somítico, pois esse é um dos vícios que lhe permitem reinar। E se alguém me disser que, mercê da sua liberalidade, Júlio César chegou a imperador de Roma e que vários outros, por terem sido liberais, de facto e na opinião alheia conquistaram lugares uito elevados, responderei: ou és um príncipe já feito, ou vais a caminho de o ser.
(...)

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Queda







Albert Camus





(...)
Devo humildemente reconhecê-lo, meu caro compatriota, fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão da minha querida vida e que se ouvia em tudo quanto eu disse. Nunca pude falar senão gabando-me, sobretudo se o fazia com esta ruidosa discrição cujo segredo era meu. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, simplesmente sentia-me liberto em relação a todos pela excelente razão que me considerava sem igual.(...)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Hamlet






William Shakespeare




(...)
Raínha - oh Hamlet, não digas mais nada! Forças-me a voltar os olhos para o interior da minha própria alma, e vejo nela manchas tão negras e tão grandes, que nunca poderão apagar-se!

Hamlet - e tudo só para viver no hediondo suor de um leito infecto, empastado na corrupção, entregando o corpo e multiplicando as carícias numa fétida sentina!
(...)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Ensaios






Michel de Montaigne




"A vida não é, considerada em si mesma, nem um bem nem um mal; é uma ou outra coisa segundo as nossas acções. Se vivemos um dia vêmo-la toda: um dia é igual a sempre. Não há outra luz nem outra obscuridade distintas, esse Sol, essa Lua, essas estrelas, essa harmonia das estações é idêntica à que os nossos avós gozaram e comtemplaram, a mesma que comtemplarão os nossos netos e tetranetos."

quinta-feira, 30 de abril de 2009

* Manual de Programação Avançada do ZX Spectrum


* (Regresso ao passado)



John Lettice



Depois de o leitor entrar em contacto com os aspectos básicos de programação do Spectrum, começará provavelmente a pensar sobre a direcção que deverá tomar em seguida. Deverá começar a aprender código-máquina, deverá comprar um Assembler, ou deve tentar criar programas mais estruturados?
Destes três rumos o terceiro é provavelmente o amis fácil de aprender, mas é muitas vezes o mais difícil de manter, especialmente numa máquina como o Spectrum, (...)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

As Mentiras de Marcelo Caetano






Cor.António Cruz e Vitoriano Rosa




(...)
"Tinha considerado encerrada a minha carreira política..."
Com esta mentira, Marcelo Caetano silencia as suas ligações com Botelho Moniz e Craveiro Lopes, a quando da tentativa de golpe de EStado de 1961, que deveria ter conduzido Salazar à Suiça, a terminar tranquilamente ali os seus dias; silencia os livros políticos que publicou, os artigoss que escreveu, a sua permanência pelo cordão umbilical (apesar das tentações de trair o mestre, na sofreguidão de alcançar o poder) no seio do Conselho de Estado, onde mantinha lugar vitalício...
(...)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Antígona - Ájax - Rei Édipo





Sófocles

in "Rei Édipo"



CORIFEU - Nós pensamos que as suas palavras traduziram ira como, aliás, as tuas, Édipo! Convém reflectirmos sobre as coisas, não como haveis procedido, mas procurando maneira de melhor resolver os divinos oráculos.

TIRÉSIAS - És, na verdade, o rei; mas terás de considerar-me em plano igual ao teu, para poder responder-te, ponto por ponto, pois, também tenho poder e não vivo submetido a ti, mas a Lóxias, como escravo. Arreda da tua ideia o julgar-me incluído entre os apaniguados de Creonte. (...)

domingo, 19 de abril de 2009

O Outro Lado do Texto






Eduarda Dionísio, Margarida Carneiro da Silva e Helena Domingos



O Outro Lado do Texto é, em grande parte, o resultado do trabalho colectivo que os professores de Português fizeram no Liceu Camões logo após o 25 de Abril.
Muitos dos textos aqui apresentados e também alguns "guias de leituta" são conhecidos dos professores (e estudantes) que têm dado (ou frequentado) o curso complementar nesta escola.
Não se trata, com este livro, de fazer um curso abreviado e simplificado de Linguistica e de Teoria da Literatura, cedendo à tendência que por vezes há de assim considerar a primeira parte do curso complementar de Português.(...)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Literatura de Expressão Portuguesa nos Estados Unidos






Fausto Avendaño




Os primeiros imigrantes de origem lusa nos Estados Unidos da América do Norte vieram principalmente dos arquipélagos do Atlântico. Eles trouxeram consigo a língua, costumes e tradições de Portugal. A literatura que desse núcleo humano se produziu foi, portanto, uma literatura ferreamente arreigada na vida e experiência do que viria a chamar-se o luso-americano. (...)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

História e Ciências Sociais







Fernand Braudel



(...)
A posição dos etnógrafos e dos etnólogos não é nem tão clara nem tão alarmante. É bem verdade que alguns deles sublinharam a impossibilidade (mas ao impossível estão submetidos todos os intelectuais) e a inutilidade da história, no interior do seu ofício. Esta rejeição autoritária da história apenas serviu para diminuir a contribuição de Malinowski e dos seus disciplos.
(...)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O LIvro da Segunda Classe



Editora A Educação Nacional.Lda




As Serras


Já alguma vez subiste ao alto duma serra? -A um monte segue-se outro monte mais alto, e a este um outro, e mais outro...
E a gente vai subindo, subindo para o céu! Cada vez a nossa vista alcança mais ao longe. As núvens rodeiam-nos e, às vezes, já ficam debaixo de nós. O ar torna-se mais puro e leve. Apetece respirar fundo, dilatar o peito e encher os pulmões daquele ar puríssimo.
Como são saudáveis as serras!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Histórias de Mistério e Imaginação






Edgar Allan Poe



Os nossos livros, os livros que durante anos tinham constituido uma parte bastante razoável da existência mental daquele inválido, estavam, como se poderá supor, em estreita conformidade com aquele carácter de visionário. Juntos esquadrilhávamos obras tais como Ververt et Chartreuse, de Gresst; Belfegor, de Maquiavel; O Céu e o Inferno, de Swedenbor; A Viagem Subterrânea de Nicholas Klimn, de Holdberg; (...)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Raízes da Expansão Portuguesa






Borges Coelho



O Malogro de Tânger

Com a subida ao trono de D.Duarte, o poder afasta-se cada vez mais das comunas vilãs para regressar às mãos da velha nobreza tradicional que procura agregar a si as camadas mais ricas da burguesia rural e dos portos.
Quem é D.Duarte? Um rei sem vontade, um "homem de pouca barba e de olhos moles?"
O Leal Conselheiro inculca um homem ilustrado e sensível e os Regimentos, escritos pelo seu punho,apontam-no como um dirigente esclarecido e sagaz. D.Duarte não parece ser um joguete nas mãos da mulher ou do irmão, mas um rei que escolheu o seu caminho e este é o caminho do robustecimento das posições da nobreza territorial, do tal casamento de conveniência com a nova nobreza.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Adesivo





Miguel Barbosa



A Ceia

O meu primeiro contacto de escritor e de homem com um censor, animal de baixo porte e moral duvidosa porque vê nos outros o que quase sempre traz em si, foi em 1955, quando publiquei o primeiro livro de contos. Eram pequenas histórias nimbadas de ingenuidade e em que a esperança era mais forte do que a realidade! O tipógrafo, homem temeroso das leis e da polícia política, forçou-me a mandar o livro à censura, "para nos livrarmos de responsabilidades", dizia.