sábado, 30 de janeiro de 2010

Crónicas e Cartas





Eça de Queiroz




(...)
Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações de um peito desmaiado. Não há ambições explosivas; não há ruas resplandecentes cheias de tropéis de cavalgadas, de tempestades de ouro, de veludos lascivos: não há amores melodramáticos: não há as luminosas eflurescências das almas namoradas da arte: não há as festas feéricas, e as convulsões dos cérebros industriais.
Há escassez da vida; um frio senso prático. (...)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Canto Primeiro






Manuel Alegre








Devo estar a sonhar, pensei.
Aproximei-me um pouco mais
e não havia dúvidas:
as armas e os barões, assinalados, dizia ele,
as armas e os barões assinalados.

domingo, 24 de janeiro de 2010

As Grandes Doutrinas Económicas






Arthur Taylor




(...)
A história das doutrinas económicas permite integrar o pensamento de filósofos, sociólogos, econimistas e contribuições doutrinais isoladas na linha geral de uma evolução e não só verificar a novidade das doutrinas e a sua originalidade, como assinalar as suas interligações e avaliar em que medida cada uma delas reflete a respectiva época histórica ou corresponde a determinada problemática social. (...)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Caim






José Saramago




Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios, carcarejos, desfrutavam já de voz própria. (...)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

História da Literatura Portuguesa





António José Saraiva e Óscar Lopes




(...) O factor decisivo da formação da Língua Portuguesa foi a romanização da Península, cujos últimos obstáculos ficaram eliminados com as campanhas de Augusto. A difusão do Latim verifica-se ao mesmo tempo que as villae (latifúndios), protegidas pelo direito e o Estado Romano, integram, como colonos adscritos às suas terras, os antigos habitantes dos castros serranos; que as instituições urbanas se desenvolvem nos moldes municipais de Roma, graças a legiões, praças de comércio, tribunais, escolas, templos, teatros e termas; e que nas províncias ocidentais da Península, a Lusitânia e a Galécia, se constrói um sistema de vias com que viria a coincidir o actual traçadp ferroviário e rodovoário fundamental, preludiando deste modo a relativa independência das comunicações portuguesas.
(...)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Livro Sexto







Sophia de Mello Breyner Andresen




Despedida


Na estação na tarde o fumo
O rumor o vaivém as faces
Anónimos
Criam no interior do amor um outro cais

As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Quatro Cavaleiros a Pé






José Saramago



Chamam-lhe pequeno-almoço e eu
atrevo-me a perguntar
o que é que ganhámos com a novidade.
Tínhamos almoço, jantar e ceia,
três palavras distintas para o acto de comer,
e ainda uma quarta palavra - merenda -,
talvez de todas a mais fresca,
(...)