domingo, 30 de dezembro de 2007

Maria Moisés


Camilo Castelo Branco



(...)Nas férias da Páscoa, António de Queirós viu chorar Josefa. Não eram lágrimas de amante magoada, nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe. Entrara-se de uma terrível vergonha e confusão. Ninguém a suspeitava; e ela, se alguém a encarava a fito, estremecia. A mãe era cruel como as mulheres manchadas. No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. Dava-lhe esse direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram,(...)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A Semente das Palavras



Colectânea de Contos -Vários Autores


Do Conto "O Embargo"
de José Saramago


Acordou com a sensação aguda de um sono degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher se esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse voltar a adormecer já, acabaria por ter o dia estragado.




sábado, 22 de dezembro de 2007

Cântico de Natal

Charles Dickens


A fogueira estava realmente muito baixa. Era uma coisa de nada numa noite tão agreste. Foi, por isso, obrigado a sentar-se quase enconstado a ela e a espevitá-la antes que esse pedaço de combustível conseguisse extrair o mínimo de calor. A lareira era antiga e tinha sido construída há muito por um negociante holandês que a decorara em volta com graciosos azulejos holandeses que pretendiam ilustrar as Escrituras. Havia Cains e Abéis, as filhas do faraó, raínhas do Sabá, mensageiros angélicos pairando no ar em nuvens que se assemelhavam a camas de penas,(...)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Odisseia


Homero

Adaptação por João de Barros



Os Gregos eram ricos e gostavam de ser ricos. Mais estimavam, porém, a beleza. E por isso Helena, esposa de Meneleu, rei de Esparta, que era a mulher mais linda da Grécia, e cuja formusura deslumbrava o Mundo inteiro, resguardavam-na como tesouro sem par. Assim, ficaram indignados e furiosos no dia em que os Troianos, -povo do outro lado do mar que banha as costas ocidentais da Grécia - ciosos de tal fortuna, roubaram Helena e, com ela, ouro e prata aos montões.(...)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João Vêncio: os seus amores



José Luandino Vieira



Pois todo o dia ele desaparecia. Só regressava à noite, piruta. Bêbado piruta e então chamava a mulher e dava-lhe uma sova de surra. Batia com o mesmo jeito, o mesmo ritmo de pancadas de manhã, no malho dele. Ninguém ia separar: todos tinham vergonha, nenhum tinha coragem. A gente não queria estragar o que a gente pensava dele em todos dias do ano menos um. Eu então não dormia quase, de noite. Mas não era a pena da senhora, a raiva no Diodato - ele era manso, bolvexique, amigável.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Português que nos Pariu



Angela Dutra de Menezes


A batalha de Aljubarrota, que fixou as fronteiras portuguesas com a actual Espanha, criou duas dinastias: a de Aviz e a de Bragança. A primeira, logo entronizada, encerrou uma confusão familiar que extrapolou um tempinho para alcançar a coroa. Em compensação, tornou-se a casa real brasileira. Genuinamente brasileira: metade é conservadora; a outra metade, surfista - aí, xará, maior crowd e "seu" príncipe no meio.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Velho e o Mar



Ernest Hemingway



O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.
O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia e os seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.
- Boa sorte, meu velho.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Cântico do Homem


Miguel Torga


S.O.S.


Vai ao fundo o navio,
Mas eu sou o homem da telegrafia,
O que lança nas asas do vazio
O adeus da agonia...


Sei que ninguém acode à íntima certeza
De que tudo acabou quando naufraga
O veleiro do sonho.
Mas honrado poeta sinaleiro
Do destino de quantos aqui vão,
Ponho
A correr mundo o grito derradeiro
Da nossa desgraçada perdição.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Estrela de Seis Pontas


Manuel Tiago



Naquela rua animada por intenso movimento de carros e peões, estendia-se ao longo do passeio uma vistosa fachada com belos torreões e numerosas janelas circundadas de pedra branca. O edifício prolongava-se para um lado e para o outro por um alto muro bordado de ameias da mesma pedra. À primeira vista dir-se-ía o antigo castelo de um grande senhor, sugerindo, para lá dos muros, a frescura de parques e jardins. Alguns pormenores destoavam porém dessa primeira impressão. As janelas, ainda que de elegante recorte, eram gradeadas (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A Eneida


Virgílio

Livro Primeiro

Eu, que noutros tempos entoei cantares ao som de leve flauta, e que deixando as selvas obriguei os campos vizinhos a obedecerem ao lavrador, mesmo sendo ele avarento, obra grata aos agricultores, canto hoje as terríveis armas de Marte e o varão que, fugindo das margens de Tróia devido ao rigor dos fados, foi o primeiro a pisar as costas de Itália e as costas lavínias. Largo tempo andou errante por terra e por mar, arrastado pelos deuses, pelo furor da rancorosa Juno. Muito padeceu na guerra antes de conseguir edificar a grande cidade e levar os seus deuses ao Lácio, de onde vem a linhagem latina e os senadores Albanos, e as muralhas da soberba Roma.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O Mundo do Fim do Mundo



Luis Sepúlveda



(...)

Também o Moby Dick se encontrava em reparações e, logo que saísse da doca seca de Bremen, rumaria ao Atlântico Norte para impedir a caça de baleias praticada por noruegueses, suecos, dinamarqueses, islandeses, norte-americanos e russos em embarcações camufladas sob bandeiras de países pobres para violarem as leis internacionais com maior impunidade.(...)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Eu Canto para que os Desertos Fiquem à Sombra

Autor Desconhecido


(Letras de canções de intervenção,publicado sem censura prévia da PIDE)



Margem Sul

Letra - Urbano Tavares Rodrigues
Música - Adriano Correia de Oliveira



Ó Alentejo dos pobres
Reino de desolação
Não sirvas quem te despreza
A tua, a tua, Nação.

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústias em botão
Ver cerrada em Baleizão

Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.

Foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A Velhice do Padre Eterno




Guerra Junqueiro





Quanta mulher formosa aí nesses balcões!
Que lindas tentações,
Meu pálido judeu!
Deixa por um instante as regiões serenas;
Namora essas pequenas,
Que elas hão-de gostar do teu perfil hebreu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Patagónia Express


Luis Sepúlveda



Em meados de Março os dias tornam-se mais curtos e no Estreito de Magalhães entram fortes ventos do Atlântico. É o sinal para que, os habitantes de Porvenir, revejam as existências de lenha e observem melancólicos o voo das abetardas que vão da Terra do Fogo até à Patagónia. Pensava continuar viagem até Ushuaia, mas informaram-me que as últimas chuvas cortaram o caminho em vários troços e que não serão reparados até à Primavera.
(...)

domingo, 2 de dezembro de 2007

A Brusca



Agustina Bessa Luis




(...)
Alguém proferiu palavras que a tranquilizaram; estava agora mais humilde e enxugava as gorgas lágrimas, suspirando com estremeções patéticos. Aconselharam-na a beber água fria, ela disse que a água, de manhã, lhe fazia mal, e pôs-se a contar a contar as suas doenças ou as que conhecia nas suas vizinhas, com uma espécie de deleite macabro e recusando-se a acreditar em remédios, em médicos e em curas.

sábado, 1 de dezembro de 2007

O Sangue das Palavras



Ary dos Santos




Soneto do Mal Amar





Invejo-te recordo-te distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Matéria Solar


Eugénio de Andrade



Sei de uma pedra onde me sentar
à sombra de setembro quase no fim.

Havia ainda as mãos, mas tão cegas
que nenhuma encontrará o sol.

É o que têm: desejo de tocar
o barro ainda quente do silêncio.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Fuenteovejuna


Lope de Vega



Prefácio


Cervantes chamou a Lope de Vega "monstruo de la Naturaleza".
O epíteto de "monstro" não se pode entender aqui senão como sinónimo de prodígio, ser extraordinário, espantoso, fora do normal. É que, na realidade, Lope Félix (ou Félix Lope) de Vega Carpio excede em muito, pelas dimensões da obra produzida ao longo de sessenta e oito anos, dos setenta e três que viveu (pois aos cinco já ditava versos, antes de saber escrever), todos os autores de qualquer época ou nacionalidade. (...)

A.L.R. (??? António Lopes Ribeiro ???)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Solo para Gravador



Isabel da Nóbrega






Passos mansos afastam-se pelo corredor.Alguém estivera a escutar à porta. Que queriam saber? Mas não hão-de saber nada! Ou talvez fosse a Palmira a tentar perceber se ela estava acordada para lhe trazer chá. Tem graça. Há dois dias que a Palmira não lhe apresenta aquela horrível caneca de leite, que a agonia, e lhe arranja chá e torradas.

domingo, 25 de novembro de 2007

Horizontes Fechados



Raul Rego




NÃO É SÓ de hoje nem de ontem a Censura à Imprensa.
A Censura prévia administrativa, como soe chamar-se-lhe. Pode dizer-se que é de sempre, desde que há Imprensa e governos autoritários. Por isso mesmo, entre nós, a Censura não é invenção do regime instaurado em 28 de maio de 1926. Não é. Apenas requintou a maneira da sua aplicação.

sábado, 24 de novembro de 2007

Nome de Guerra


José de Almada Negreiros


Antes de Nascer pela terceira vez


Só quando quando chegou à rua é que viu que não ia para parte alguma. Não havia nenhum lugar para onde fosse. A mesma multidão, as mesmas casas, as mesmas ruas e ele. Mas qualquer coisa de novo se passava na sua vida. Se sondava o seu íntimo, não havia nada até à profundidade. Do exterior nada lhe vinha, tudo encontrava resistência nos seus sentidos para o animar de imagens. Ele não se reconhecia: havia qualquer coisa de estranho na sua vida, qualquer coisa de estranho e dele próprio ao mesmo tempo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Os Irmãos Karamazov




Fedor Mikailovich Dostoievski




Era o principio de Novembro. O dia amanhecera com um nevão que mantinha o termómetro Réaumur a onze graus; tinha caído durante a noite uma neve seca e o vento cortante da manhã levantava uma poeira de granizo que arrastava pelas ruas da cidade, especialmente na Praça do Mercado. A manhã estava fria e desagradável, mas já não nevava.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O Vermelho e o Negro


Henri Beyle "Stendhal"



Pode classificar-se Verriéres como uma das mais belas cidades do Franco-Condado. As suas ruas brancas, com telhados vermelhos e pontiagudos, alargam-se pela encosta de uma colina, sinuosamente deliniadas por grandes e vigorosos castanheiros. A uma dezena de metros, sob o casario edificado pelos espanhóis e que hoje se vê em ruinas, corre o Doubs.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Sonetos


Antero de Quental


Amor Vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! a luz fundida
Que penetre no meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

sábado, 17 de novembro de 2007

Discurso do Método



René Descartes







Da Filosofia apenas direi que, vendo-a cultivada pelos mais excelentes espiritos que desde há vários séculos viveram e, todavia, nenhuma coisa nela haver sobre a qual não se discuta - por conseguinte, que não seja duvidosa -, não me chegava a presunção de esperar ter nela melhor êxito do que os outros. E, considerando como, a propósito de uma mesma matéria, podem existir várias opiniões defendidas por doutas pessoas sem que nunca possa haver mais de uma verdadeira, direi que tomava quase como falso o que apenas era verosímil.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Guerra e Paz




Tolstoi



- Costumo dizer muitas vezes de mim para comigo - continuou Ana Pavlovna, depois de um momento de silêncio, aproximando-se do Principe com um sorriso gracioso, como se quisesse significar que estavam terminadas as conversas sobre assuntos políticos e mundanos e que as confidências íntimas íam principiar - , muitas vezes digo a mim mesma que a felicidade neste mundo é coisa muito desigualmente repartida.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

História de Uma gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar




Luis Sepúlveda






Tenho muita pena de estar sozinho - disse o garoto acariciando o lombo do gato grande, preto e gordo.Depois continuou a meter coisas na mochila. Pegava numa cassette do grupo Pur, um dos seus favoritos, guardava-a, tinha dúvidas, tirava-a, e não sabia se havia de tornar a metê-la na mochila ou deixá-la em cima da mesa-de-cabeceira. Era difícil o que havia de levar para as férias e o que devia deixar em casa.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Nebulosa de Andrómeda


(Caminho Ficção Científica)


Iván Efrémov



Nas colunas alaranjadas das colunas dos indicadores do anamesão, os grandes ponteiros negros marcavam "zero". O curso da astronave continuava invariável para a estrela de ferro, pois a velocidade era ainda branda e a nave cósmica prosseguia na sua marcha incessante em direcção àquele sinistro corpo celeste, invisível ao olhar humano. Erg Noor, com a ajuda do astronauta, trémulo pela tensão e pela fraqueza, sentou-se na frente da máquina calculadora. Os motores planetários, desligados pelo piloto-robot, estavam silenciosos.

domingo, 11 de novembro de 2007

Folhas Caídas



Almeida Garrett





Seus Olhos




Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou
-Não tinham luz a brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateaou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão cinza em que ardi.

sábado, 10 de novembro de 2007

A História me Absolverá




Fidel Castro




(...)
Quanto a mim, sei que a prisão me será mais dura, como nunca foi para qualquer outro. Sei que ela será pesada de ameaças vis e cobardes provocações, mas não a temo, como não temo a fúria do tirano que arrancou a vida a setenta dos meus irmãos. CONDENAI-ME, POUCO IMPORTA, A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Os Lusíadas







Luis de Camões






Desta arte, enfim, conformes já as formosas
Ninfas co'os seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro e de ouro e flores abundantes.
As mãos alvas lhe davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia,
Em vida e morte, de honra e alegria.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Mãe



Máximo Gorky






Na atmosfera fumarenta e triste daquele bairro operário, todos os dias a sereia da fábrica atirava para os ares o seu grito estridente. Criaturas secas, de músculos ainda fatigados, saíam ràpidamente das pequenas casas escuras, correndo como baratas assustadas. Numa luz penumbrosa, caminhavam pela rua esguia em direcção aos muros altos da fábrica que os aguardava, onde inúmeros olhos quadrados e amarelos iluminavam a calçada lamacenta. Algumas vozes alvoroçadas ressoavam em roucas exclamações. Pragas de renúncia cortavam o ar e (...)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Os Corações Também se Gastam



Pedro Paixão





Não sei de onde me ocorreu aquilo. Do tédio e da raiva, provavelmente. Comecei a fotografá-la com a minha Kodak Retina 3C, a desnudá-la, a descobri-la, tão cedo na manhã que ainda sonhava. Ela acordou a seguir e começou a mexer-se, como quem gosta muito, e despiu o que eu não ousava, o calor por debaixo da pele. Continuei a disparar a máquina enquanto ela sussurrava palavras pequeninas,(...)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Memorial de Aires




Machado de Assis









Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente algumas coisas de Shelley e também de Thackeray. Um consolou-me do outro, este desenganou-me daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito aprende as línguas do espírito.

sábado, 3 de novembro de 2007

A Enfermaria Nº 6


Anton Tchekov



Ivan Dmitrich permanecia na mesma posição da véspera, com as mãos entre a cabeça e as pernas encolhidas. Não se lhe via a cara.
- Boas tardes, meu amigo - disse Andrei Efimich.
- Não está a dormir?
- Em primeiro lugar, não sou seu amigo - retorqiu Ivan Dmitrich, com a cara enterrada na almofada.
- e, em segundo lugar, é inútil o seu interesse: Não me arrancará uma só palavra.
- Que estranha fantasia! - sorriu o médico com ironia. - Imaginará você que sou um espião?
- Penso que sim... Um espião ou um médico a quem incumbiram da missão de me pôr à prova. É a mesma coisa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Jazz


Morley Jones



A vida e a obra de mais de cinquenta nomes do Jazz - de King Oliver e Louis Armstrong, passando por Parker, Coltrane e Miles Davis, até aos "novíssimos" John McLaughlin e Keith Jarrett. Uma discografia seleccionada, com mais de trezentos títulos, que permitirá ao leitor constituir a sua colecção das melhores gravações da História do Jazz. Uma obra de referência indispensável não só aos amantes do Jazz, mas também a todos aqueles que pretendem iniciar-se nos segredos da grande música negra.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Os Maias


Eça de Queiroz



A Casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S.Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D.Maria I
(...)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O Despertar dos Mágicos


Louis Pauwels e Jacques Bergier



Existe uma flor extremamente frágil e bela que se chama a saxífraga umbrosa. Também lhe chamam "o desespero do pintor". Já não desespera nenhum artista, desde que a fotografia e muitas outras descobertas libertaram a pintura da preocupação da semelhança exterior. O pintor menos jovem de espírito não se senta hoje diante de um ramo de flores como o teria feito outrora. Os seus olhos vêem mais qualquer coisa além do ramo, ou antes, o modelo serve-lhe de pretexto para exprimir por meio da superfície colorida uma realidade escondida para o olhar profano.
(...)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Telefona se Precisares de Mim


Raymond Carver



(...)
Mas nessa noite, depois de termos jantado e lavado a louça e eu ter acendido a lareira, Nancy abanou a cabeça e disse que não ia funcionar.
- Porque dizes isso? - perguntei.
- Que queres dizer com isso?
- Quero dizer que não vai funcionar, encaremos a realidade - abanou de novo a cabeça. - Também me parece que não quero ir pescar de manhã e que não quero um cão. Não, nada de cães. Acho que quero ir ver a minha mãe e o Richard. Sozinha. Quero estar só. Tenho saudades do Richard - disse ela, e começou a chorar. - O Richard é o meu filho, meu filhinho - disse ela - e já está quase adulto e a ir-se embora. Tenho saudades.
- E do Del, também tens saudades do Del Shraeder? - disse eu. - O teu namorado. Tens saudades dele?
- Hoje tenho saudades de toda a gente - disse ela.
(...)

domingo, 28 de outubro de 2007

O Espólio do Senhor Cipriano


Júlio Dinis



Desde que uma crença consegue radicar-se verdadeiramente na imaginação do povo, difícil é ao poder dos séculos ou à evidência dos factos desarreigá-la. Parece que à medida que um por um se vão quebrando os laços que a prendiam à razão e diminuindo a plausividade que dos espíritos sensatos a faziam ainda aceite, mais atractivos ela ostenta à fantasia popular, sempre afeiçoada ao maravilhoso e impelida a correr atrás de uma destas sedutoras ilusões, como as crianças a perseguirem as borboletas através das campinas.
(...)

sábado, 27 de outubro de 2007

Nossa Senhora de Paris


( O Corcunda de Notre Damme)


Victor Hugo


(...)
- Para a próxima vez observarei melhor - prometeu.
- Vai-te ! - Ordenou Esmeralda.
O homúnculo desapareceu. A cigana ficara descontente, mas Quasímodo preferia ser mal tratado a afligi-la. Desde esse dia, nunca mais a egípcia tornou a vê-lo. Deixou de ir à cela. Apenas, às vezes, avistava-o no alto de algumas das torres, com o olhar melancolicamente fito nela. Mas assim que olhava para ele, desaparecia.
(...)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O Livro de Cesario Verde



Cesário Verde



De Tarde

Naquele "pic-nic" de burgueses,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.


Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzonal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.


Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

As Ilhas Desconhecidas


Raul Brandão



Em Três Linhas


Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha... Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nos leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!...

1926
Raul Brandão

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O Retrato de Ricardina




Camilo Castelo Branco




(...)
- Norberto! Acorda! Anda brincar connosco! Já daquele modo, a avó dos meninos, quando criança, o ia acordar debaixo das árvores, à hora da sesta, para lhe mostrar os ninhos das aves entre os salgueiros do rio. E, com estas recordações, ali à beira de Norberto morto, as lágrimas eram tantas que Bernardo Moniz perguntava à esposa:- Quando deixaremos de chorar, Ricardina?- Só não choram os que morrem...- respondeu ela.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

O Gosto de Ler



Urbano Tavares Rodrigues





A melhor leitura reflecte sempre o real, mas acontece que em certos livros, fascinantes, em vez de nos mostrarem a aparência, em suas relações de causa e efeito, aparentam a realidade em devir, a sua incubação, ou tentem mesmo rasgar a cortina do futuro, transitando, pela via do cognitivo, do verificável ao suponível, através da alegoria, da premonição, do símbolo e do mito. É o caso de "Objecto Quase", livro de contos de José Saramago em que certos textos, como, por exemplo, "Coisas", são politicamente elaborados como demonstrações do presente no futuro e do futuro no presente.
(...)

sábado, 20 de outubro de 2007

O Fogo e as Cinzas





Manuel da Fonseca





Mestre Poupa bombeiro, André Juliano e eu formávamos uma trindade falhada. Positivamente, três velhos falhados e tontos.
Há momentos em que eu vejo isto como uma grande clareza. Mas de nada me vale. Os factos miúdos que me estragaram a vida pegam de novo em mim e arrastam-me. Desviam-me cada vez mais de toda a gente e isolam-me numa apatia da qual não tenho forças para escapar-me. Serei acaso um cobarde? Talvez.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O Último Dia de um Condenado




Victor Hugo





Condenado à morte! Há cinco semanas que vivo absorvido por este pensamento, sempre só com ele, sempre gelado pela sua presença, sempre curvado debaixo do seu peso! Outrora - porque mais parece que já lá vão anos, não apenas algumas semanas - eu era um homem como os outros homens. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha a sua ideia própria. O meu espírito, jovem e rico, estava cheio de fantasias. E divertia-se a desemrolar-mas umas após outras, sem ordem e sem fim, bordando de inesgotáveis arabescos este rude e frágil tecido da vida. Eram raparigas, esplêndidas vestes de bispo, batalhas vencidas, teatros cheios de barulho e de luz, e depois ainda raparigas e discretos passeios à noite sob as largas ramagens dos castanheiros. Era sempre festa na minha imaginação. Eu podia pensar no que queria, eu era livre.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Luar de Janeiro




Augusto Gil



Livrarias Aillaud e Bertrand
Paris - Lisboa 1920




Luar de janeiro,
Fria claridade...

A luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade...

Luar de platina;
Luar que alumia
Mas que não aquece,

Fotografia
De alegre menina
Que há muitos anos já...
envelhece.
(...)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As Palavras dos Outros


Batista-Bastos



Rosa e Júlia Ramalha:Barristas



As mãos moviam-se no barro e eram lestas e seguras. Começaram por o distender com as palmas, depois os dedos funcionaram como se estivessem consagrados a uma delicada renda de bilros. Lentamente, o barro adquiria formas. Sobre as madeiras puídas da mesa longa, uma Bíblia sem capa, um transistor inútil e Cristos mutilados e alminhas imperfeitas. E harpias e ciclopes secos no forno, mordidos pelo sol.
- Porquê estes bichos?
- Sonho muitas vezes assim. depois faço os sonhos no barro.
(...)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Barões de Fina Flor



Modesto Navarro



Este livro está baseado em acontecimentos reais, sucedidos no Verão de 1970, em Vila Flor, no nordeste trasmontano. Tudo começou com uma reunião, visando a união dos esforços dos estudantes e trabalhadores, naturais da vila, para a realização de um espectáculo que despertasse o interesse pela cultura e discussão dos problemas daquela região, casos de emigração, salários, domínio de grandes proprietários, etc. Na impossibilidade de efectuarem sessões de cinema ou ensaiar uma peça de teatro, optou-se em fazer de imediato um jogo de teatro em que os presentes às reuniões tomariam parte, e em que iriam expondo, através desse jogo, os problemas económicos e sociais da região.