domingo, 30 de dezembro de 2007

Maria Moisés


Camilo Castelo Branco



(...)Nas férias da Páscoa, António de Queirós viu chorar Josefa. Não eram lágrimas de amante magoada, nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe. Entrara-se de uma terrível vergonha e confusão. Ninguém a suspeitava; e ela, se alguém a encarava a fito, estremecia. A mãe era cruel como as mulheres manchadas. No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. Dava-lhe esse direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram,(...)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A Semente das Palavras



Colectânea de Contos -Vários Autores


Do Conto "O Embargo"
de José Saramago


Acordou com a sensação aguda de um sono degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher se esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse voltar a adormecer já, acabaria por ter o dia estragado.




sábado, 22 de dezembro de 2007

Cântico de Natal

Charles Dickens


A fogueira estava realmente muito baixa. Era uma coisa de nada numa noite tão agreste. Foi, por isso, obrigado a sentar-se quase enconstado a ela e a espevitá-la antes que esse pedaço de combustível conseguisse extrair o mínimo de calor. A lareira era antiga e tinha sido construída há muito por um negociante holandês que a decorara em volta com graciosos azulejos holandeses que pretendiam ilustrar as Escrituras. Havia Cains e Abéis, as filhas do faraó, raínhas do Sabá, mensageiros angélicos pairando no ar em nuvens que se assemelhavam a camas de penas,(...)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Odisseia


Homero

Adaptação por João de Barros



Os Gregos eram ricos e gostavam de ser ricos. Mais estimavam, porém, a beleza. E por isso Helena, esposa de Meneleu, rei de Esparta, que era a mulher mais linda da Grécia, e cuja formusura deslumbrava o Mundo inteiro, resguardavam-na como tesouro sem par. Assim, ficaram indignados e furiosos no dia em que os Troianos, -povo do outro lado do mar que banha as costas ocidentais da Grécia - ciosos de tal fortuna, roubaram Helena e, com ela, ouro e prata aos montões.(...)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João Vêncio: os seus amores



José Luandino Vieira



Pois todo o dia ele desaparecia. Só regressava à noite, piruta. Bêbado piruta e então chamava a mulher e dava-lhe uma sova de surra. Batia com o mesmo jeito, o mesmo ritmo de pancadas de manhã, no malho dele. Ninguém ia separar: todos tinham vergonha, nenhum tinha coragem. A gente não queria estragar o que a gente pensava dele em todos dias do ano menos um. Eu então não dormia quase, de noite. Mas não era a pena da senhora, a raiva no Diodato - ele era manso, bolvexique, amigável.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Português que nos Pariu



Angela Dutra de Menezes


A batalha de Aljubarrota, que fixou as fronteiras portuguesas com a actual Espanha, criou duas dinastias: a de Aviz e a de Bragança. A primeira, logo entronizada, encerrou uma confusão familiar que extrapolou um tempinho para alcançar a coroa. Em compensação, tornou-se a casa real brasileira. Genuinamente brasileira: metade é conservadora; a outra metade, surfista - aí, xará, maior crowd e "seu" príncipe no meio.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Velho e o Mar



Ernest Hemingway



O velho bebeu devagar o seu café. Era quanto comeria o dia inteiro, e sabia que precisava de o tomar. Havia muito tempo que o maçava comer, e nunca levava merenda. Na proa do barco tinha uma garrafa de água, e de mais não precisava.
O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia e os seixos, e pegaram no esquife e meteram-no ao mar.
- Boa sorte, meu velho.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Cântico do Homem


Miguel Torga


S.O.S.


Vai ao fundo o navio,
Mas eu sou o homem da telegrafia,
O que lança nas asas do vazio
O adeus da agonia...


Sei que ninguém acode à íntima certeza
De que tudo acabou quando naufraga
O veleiro do sonho.
Mas honrado poeta sinaleiro
Do destino de quantos aqui vão,
Ponho
A correr mundo o grito derradeiro
Da nossa desgraçada perdição.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Estrela de Seis Pontas


Manuel Tiago



Naquela rua animada por intenso movimento de carros e peões, estendia-se ao longo do passeio uma vistosa fachada com belos torreões e numerosas janelas circundadas de pedra branca. O edifício prolongava-se para um lado e para o outro por um alto muro bordado de ameias da mesma pedra. À primeira vista dir-se-ía o antigo castelo de um grande senhor, sugerindo, para lá dos muros, a frescura de parques e jardins. Alguns pormenores destoavam porém dessa primeira impressão. As janelas, ainda que de elegante recorte, eram gradeadas (...)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A Eneida


Virgílio

Livro Primeiro

Eu, que noutros tempos entoei cantares ao som de leve flauta, e que deixando as selvas obriguei os campos vizinhos a obedecerem ao lavrador, mesmo sendo ele avarento, obra grata aos agricultores, canto hoje as terríveis armas de Marte e o varão que, fugindo das margens de Tróia devido ao rigor dos fados, foi o primeiro a pisar as costas de Itália e as costas lavínias. Largo tempo andou errante por terra e por mar, arrastado pelos deuses, pelo furor da rancorosa Juno. Muito padeceu na guerra antes de conseguir edificar a grande cidade e levar os seus deuses ao Lácio, de onde vem a linhagem latina e os senadores Albanos, e as muralhas da soberba Roma.

domingo, 9 de dezembro de 2007

O Mundo do Fim do Mundo



Luis Sepúlveda



(...)

Também o Moby Dick se encontrava em reparações e, logo que saísse da doca seca de Bremen, rumaria ao Atlântico Norte para impedir a caça de baleias praticada por noruegueses, suecos, dinamarqueses, islandeses, norte-americanos e russos em embarcações camufladas sob bandeiras de países pobres para violarem as leis internacionais com maior impunidade.(...)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Eu Canto para que os Desertos Fiquem à Sombra

Autor Desconhecido


(Letras de canções de intervenção,publicado sem censura prévia da PIDE)



Margem Sul

Letra - Urbano Tavares Rodrigues
Música - Adriano Correia de Oliveira



Ó Alentejo dos pobres
Reino de desolação
Não sirvas quem te despreza
A tua, a tua, Nação.

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústias em botão
Ver cerrada em Baleizão

Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.

Foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A Velhice do Padre Eterno




Guerra Junqueiro





Quanta mulher formosa aí nesses balcões!
Que lindas tentações,
Meu pálido judeu!
Deixa por um instante as regiões serenas;
Namora essas pequenas,
Que elas hão-de gostar do teu perfil hebreu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Patagónia Express


Luis Sepúlveda



Em meados de Março os dias tornam-se mais curtos e no Estreito de Magalhães entram fortes ventos do Atlântico. É o sinal para que, os habitantes de Porvenir, revejam as existências de lenha e observem melancólicos o voo das abetardas que vão da Terra do Fogo até à Patagónia. Pensava continuar viagem até Ushuaia, mas informaram-me que as últimas chuvas cortaram o caminho em vários troços e que não serão reparados até à Primavera.
(...)

domingo, 2 de dezembro de 2007

A Brusca



Agustina Bessa Luis




(...)
Alguém proferiu palavras que a tranquilizaram; estava agora mais humilde e enxugava as gorgas lágrimas, suspirando com estremeções patéticos. Aconselharam-na a beber água fria, ela disse que a água, de manhã, lhe fazia mal, e pôs-se a contar a contar as suas doenças ou as que conhecia nas suas vizinhas, com uma espécie de deleite macabro e recusando-se a acreditar em remédios, em médicos e em curas.

sábado, 1 de dezembro de 2007

O Sangue das Palavras



Ary dos Santos




Soneto do Mal Amar





Invejo-te recordo-te distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu disse? Que não digo:
Meu terraço de ausência meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.